INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

domingo, 1 de novembro de 2026

ENTRE ASPAS: "Espaços de Memória, Lugares de Identidade"

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Os Espaços de Memória dedicam-se, por natureza, à salvaguarda do património local, da história quotidiana e da memória comunitária.


Tradicionalmente, as Casas e Museus da Memória nasciam para glorificar uma individualidade ou uma elite. Hoje propõe-se a abertura destes espaços à comunidade, transformando-os em locais de convívio e debate social, aproximando o património das comunidades locais e dos cidadãos comuns. À luz do pensamento museológico contemporâneo, as Casas e Museus da Memória deixaram de ser repositórios estáticos do passado, modelos consolidados, para passarem a ser motores de coesão social, identidade e turismo sustentável.  

O próprio turismo atua como um elemento de valorização já que, perante um visitante que procura conhecer a identidade regional, a comunidade local reforça o seu sentimento de pertença, contribuindo em simultâneo para sustentar financeiramente aquilo que a torna única. Gera-se aqui um efeito multiplicador na economia local: o visitante consome a cultura no Espaço de Memória, frequenta a restauração e dinamiza o comércio tradicional da região.

Um olhar sobre alguns exemplos  

A Casa da Memória de Guimarães (CDMG), inaugurada no âmbito da Capital Europeia da Cultura de 2012 e instalada na antiga Fábrica de Plásticos Pátria, é um bom exemplo. Foca-se na história urbana, operária, industrial e nas tradições da comunidade. Sendo Guimarães fortemente visitada pelo seu centro histórico medieval, a Casa da Memória expande fisicamente os fluxos turísticos e oferece uma narrativa viva, que liga o passado histórico ao presente da população. Ao estimular os vimaranenses a doarem os seus objetos e a prestar os seus testemunhos pessoais, de modo a enriquecerem o acervo do projeto, além de um local de exposição torna-se também um local de criação de conteúdos. E, para além de um espaço vocacionado para o registo e para a produção de memórias, funciona também como uma casa de encontro dos vimaranenses e uma porta de entrada para a descoberta da cidade e das suas gentes.

O Museu da Memória de Matosinhos (MuMMa), aberto ao público em 2021, no Palacete Visconde de Trevões, é um espaço de encontro entre o passado e o presente de Matosinhos, cruza a história da cidade com as memórias individuais dos seus habitantes (as indústrias conserveiras, a ligação profunda ao mar e ao porto de Leixões). O Palacete, mandado construir, em 1909, por Emídio José Ló Ferreira (o Visconde de Trevões) para servir de residência à sua família, exibindo a riqueza que ostentava após fazer fortuna no Brasil nos sectores da construção e da borracha, foi adquirido ou cedido para servir a comunidade local, tornando-se um espaço afetivo na memória coletiva dos matosinhenses. Além das obras de arte e de objetos de valor histórico, o museu dedica especial atenção às pessoas, dando a conhecer testemunhos de cidadãos de uma comunidade eminentemente operária e piscatória. O visitante tem a possibilidade de gravar em vídeo o seu próprio testemunho para integrar o Museu, sendo os testemunhos orais a base da sua própria essência. Mostra como um município pode usar o património para combater o turismo de massas, criando uma oferta autêntica que atrai visitantes e preserva o orgulho local.

Muitos outros exemplos podemos acrescentar. É o caso do projeto "Bairro Norte: Memória e Identidade em São Pedro da Cova", em Gondomar, que demonstra o papel da memória mineira na coesão social, ou o do Museu do Traje de São Brás de Alportel, que valoriza a participação comunitária na construção da história local ao envolver os residentes na recuperação de arquivos fotográficos. Por sua vez, o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço, reflete sobre o impacto da emigração clandestina e do contrabando na identidade das populações fronteiriças. Já a Casa do Passal — Museu Aristides de Sousa Mendes resgata o testemunho do diplomata que salvou milhares de refugiados na Segunda Guerra Mundial, transformando-o num motor de reflexão cívica coletiva. A esta geografia de afetos junta-se o recente MUZEU – Pensamento e Arte Contemporânea dst (Braga), um espaço que utiliza a criação contemporânea e o pensamento crítico como ferramentas de ativismo social e cidadania. Trata-se de um genuíno ato de mecenato e responsabilidade cultural em prol da cidade, que prova, como todos os outros, que os lugares de identidade são, acima de tudo, plataformas abertas para discutir o presente e desenhar o futuro.

O Desafio que se impõe:  O Recolhimento das Convertidas

Fundado em 1720 pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles, foi recolhimento bracarense especificamente vocacionado para a regeneração moral de mulheres que haviam transgredido os padrões então vigentes. Encerra nas suas paredes histórias profundas de exclusão, submissão e vivências no feminino. Projetos turísticos privados e hoteleiros têm circundado a zona. A ideia, impulsionada por movimentos cívicos, de criar aí uma Casa da Memória da Mulher foca-se na história das pessoas comuns, na identidade dos bracarenses e nas suas memórias coletivas. Da mesma forma que nos exemplos anteriores, reabilitar este património único - em progressivo estado de degradação física - ajudará a travar a massificação turística, atraindo um turismo sustentável e reforçando a identidade local. A reabilitação deste espaço de memória permitirá resgatá-lo ao esquecimento na Avenida Central, devolvendo-lhe um papel ativo na sociedade como lugar de conhecimento, cidadania e reflexão sobre os direitos humanos.

Ana Macedo

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