INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

ENTRE ASPAS: "Fragmentos de Identidade: o piso, único, que sobreviveu à destruição de um castro"


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Na sequência do texto publicado no dia 5 de abril, sobre o Castro Máximo, importa agora lembrar a única estrutura salva da destruição de 2001, no âmbito da construção do Estádio de Braga para o EURO 2004. A única anterior à época romana, que até agora foi possível preservar deste sítio arqueológico. 


Piso de uma habitação da Idade do Ferro

Este resto de piso decorado, com motivos geométricos, entre outros, foi encontrado no interior de uma estrutura arredondada, datável da Idade do Ferro, no sopé do Monte Castro. Importa clarificar um dado importante: é raro - mesmo muito raro - surgirem fragmentos e restos daquilo que se costuma chamar de material de construção, datável da Idade do Ferro. Para a época romana temos centenas de milhares de tégulas, imbrex, tijolos e outros elementos que faziam parte das construções e coberturas das estruturas romanas. Ora para a época anterior a Idade do Ferro, ou época castreja, o que podemos registar, em alguns casos, são pequenos fragmentos de reboco de parede (alguns decorados) que poderiam cobrir a parte interna das estruturas ou, ainda, restos pequenos de pisos. Estes fragmentos podem ter 5 ou 10 cm de comprimento, com alguma sorte.

Felizmente, para nós, o piso1 retirado do Castro Máximo é um exemplar único e absolutamente ímpar na arqueologia do noroeste português e - arrisco a dizê-lo - do norte de Portugal. Explico porquê:

  • Em primeiro lugar estava quase todo preservado in situ. Isso significa que estava no seu local original, quase intacto, algo que para quem estuda a Idade do Ferro não é de todo comum.
  • Em segundo lugar, trata-se de um piso ricamente decorado. Conhecem-se muitos fragmentos decorados em muitos outros povoados do mesmo período, mas de pequenas dimensões, não se conseguindo, por isso, grande leitura sobre a organização dos motivos decorativos, quando estes fragmentos estão decorados, o que é algo raro. Não é esse o caso, aqui.

De facto, este piso em argila cozida encontra-se decorado em quase toda a sua superfície. Esta não é uma simples superfície de barro cozido, mas sim uma obra de geometria e beleza intemporal. Imagine um 'tapete' de argila cozida, onde a mão de um artista da Idade do Ferro traçou um retângulo dominante, subdividido em quatro campos quadrangulares e, a emoldurar esta composição, a icónica 'espinha de peixe' — muito comum na cerâmica da Idade do Ferro —, que confere dinamismo ao conjunto. No interior de cada quadrado, o simbolismo ganha vida: meias-luas alternam com círculos perfurados, criando um ritmo visual que transforma o que seria um simples chão num espaço de arte e, porque não, de prestígio para quem o habitava.

Um piso a valorizar

Perante tamanha riqueza visual e importância científica, é incompreensível que este objeto, que é testemunho de modos de construção da Idade do Ferro, passe quase despercebido no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, desde 2007, na sala 1, sendo apresentado como mais um vestígio arqueológico. Porém, nota-se que a legendagem/informação sobre este extraordinário testemunho dos Brácaros continua em falta.

Quem observa esta peça no museu não sabe de onde veio, que uso teve, quem a usou e em que época, quais as dificuldades relativas à sua conservação, qual o processo de levantamento e retirada do seu contexto original...com o objetivo da sua salvaguarda e preservação. Assim, esta peça passa quase despercebida.

Reitero o que tenho dito em variados fóruns: se as pessoas não sabem o que estão a ver num espaço museológico, porque não lhes é facultada informação sobre cada peça exposta, corre-se o risco de o material não ter relevância histórica nem patrimonial e ser interpretado como algo sem importância, como se de ruído se tratasse. Num Museu de Arqueologia é essencial disponibilizar informação de forma acessível, sobre cada objeto, especificando a sua função, localização original e contexto em que foi descoberto, de modo a que o cidadão comum sinta curiosidade pela descoberta do seu próprio passado. Os museus, sobretudo os de arqueologia, têm o dever de democratizar o acesso ao conhecimento e à cultura.

 

Um objeto, sem história explicada, é apenas uma “pedra” muda. Mas, se for explicado o seu uso, a localização e o contexto em que foi encontrada, através de uma narrativa atrativa, que apele à imaginação, a “pedra” dá Voz aos nossos antepassados, neste caso as populações pré-romanas que habitaram Braga, pelo menos, desde o séc. III a I a.C.

 

Esta “pedra” é, realmente, parte do piso de uma habitação com cerca de 2300 anos, que foi salvo, ao contrário de outras estruturas, para construir um Estádio para o EURO 2004.

Nuno Oliveira

Arqueólogo. Investigador.

 

1 piso retirado do Castro Máximo e pormenor da decoração.


Em Braga temos vários testemunhos da Idade do Ferro ou “Cultura Castreja” - Castro de Santa Marta das Cortiças (Falperra), o Castro Máximo (São Vicente), o Castro do Monte das Caldas (Gondizalves), o Castro do Monte Redondo (Guizande e S. Pedro de Oliveira) e o Castro do Monte da Consolação (Nogueiró).  Deste último temos, apenas, placas a referir a existência de estruturas, contudo nunca foi escavado.

Ou seja, não temos um povoado fortificado, vulgo castro, para apresentar a residentes e a turistas! De resto, o que temos é uma série de percursos pedestres que passam por alguns sítios arqueológicos de Braga.

Esperamos que, em breve, seja estabelecido um calendário tendo em vista o estudo, conservação e abertura ao público de, pelo menos, um Castro. Qual será o primeiro?

Uma intervenção recente, realizada no Castro de Sabroso, em Guimarães, é um bom exemplo para Braga.                                                            

 

domingo, 5 de abril de 2026

ENTRE ASPAS: "Um castro e uma pedreira: a história de um povoado esquecido"

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O património arqueológico do concelho de Braga justifica, com certeza, um cuidado especial. Sendo vários os sítios arqueológicos, importa refletir um pouco sobre o que correu bem, menos bem ou mal, as perdas e os ganhos. 


De facto, e graças a múltiplos trabalhos de investigação e conservação, alguns sítios arqueológicos em Braga foram preservados, embora a muito custo: desde logo as termas romanas, a domus das Carvalheiras (que finalmente terá um espaço museológico e um tratamento digno de extraordinário exemplar da cultura romana do norte de Portugal), a domus da Escola Velha da Sé ou ainda o balneário da Idade do Ferro, que se encontra devidamente preservado no piso -1 da estação de caminhos-de-ferro de Braga.

Ora, se estes e outros casos são de facto dignos de nota e de visita obrigatória, importa registar que pouco ou nada se fez relativamente ao Castro Máximo, na freguesia de S. Vicente. Comecemos pelo início.


Castro Máximo

Como deveria ser do conhecimento público, este sítio arqueológico foi delapidado por diversas vezes. Inicialmente, nos anos 30 e 60 do séc. XX, serviu como pedreira, para extração de granito, e, então, foi destruída boa parte do Monte do Castro, onde se situava o Castro Máximo. Contou, depois, com várias escavações arqueológicas, datáveis dos anos 50 e 70 do séc. XX. Em 2001, decorrente dos trabalhos para a construção do estádio municipal de futebol de Braga (conhecido como “A Pedreira”), foram registadas, no sopé deste sítio, várias estruturas arqueológicas e diversidade de materiais arqueológicos datáveis da Idade do Ferro.

As referências a este local recuam até ao ano de 873, no contexto da delimitação de Braga, mas, durante séculos, o conhecimento sobre este sítio arqueológico permaneceu fragmentado em achados ocasionais de estudiosos como Martins Sarmento e Albano Belino. A transição para uma arqueologia científica ocorreu no século XX, evoluindo de escavações metodologicamente incipientes na década de 1930, a observações de sobreposição de ocupações, nos anos 50, para investigações universitárias sistemáticas na década iniciada em 1970, nomeadamente em 1977 e 1978. Este longo percurso de valorização e estudo culminou em 1984, com a classificação oficial do sítio como Imóvel de Interesse Público, e a definição da respetiva Zona Especial de Proteção (ZEP), pela Portaria nº281/ 1985.

Finalmente, e a partir do ano de 2001, no momento em que começam a realizar as fundações para o novo estádio de futebol para o EURO 2004, foi dado o alerta, não só por parte de trabalhadores como de arqueólogos que observaram coroas de muros e materiais que foram aparecendo à medida que as máquinas avançavam e as terras eram revolvidas. Após o alerta ao Gabinete de Arqueologia da Câmara, os trabalhos foram suspensos de imediato para dar lugar a uma escavação de salvamento. Embora o sítio se encontrasse protegido por uma ZEP, desde 1985, não foi realizado acompanhamento arqueológico da obra, desde o início da intervenção de máquinas. Nas revisões mais recentes do Plano Diretor Municipal de Braga, o Castro Máximo encontra-se devidamente assinalado nas plantas de ordenamento relativas a património arqueológico.

A circunstância de terem aparecido estruturas datáveis da Idade do Ferro, praticamente no sopé do monte, virado ao rio Cávado, deixou todos surpreendidos, uma vez que isso não é de todo comum. Face a este facto, e à qualidade dos materiais exumados, nomeadamente o extraordinário pavimento, em argila decorada (que trataremos noutro texto), bem como os vestígios arqueológicos encontrados (diversos muros, partes de estruturas redondas preservadas, etc.), a decisão, “questionável”, do Instituto Português de Arqueologia (IPA), foi o de não conservar as ruínas, e, apenas, salvar o espólio e o referido pavimento. Entretanto, entre 2005 e 2021, ocorreram alguns trabalhos apenas de identificação e prospeção no local.


Assim, há perguntas que devem ser feitas:

  • por que razão não se salvaram os testemunhos arqueológicos prévios à fundação de Bracara Augusta?
  • como foi possível não existirem, na tutela do património, notas de campo, nem relatórios dessa intervenção de emergência? Independentemente da entidade ou pessoas afetas ao trabalho científico que foi realizado. Finalmente, o único “relatório” que existe está consubstanciado numa tese de mestrado que ordenou a informação existente; nesse trabalho foi estudado algum do espólio que foi exumado das escavações de 2001.
  • que razões justificaram a construção do estádio perto de um sítio arqueológico, ocupando área do Castro, quando a escassos metros há uma outra pedreira da qual não se regista qualquer atividade humana antiga? Ou seja, foram vários os responsáveis pelo que ali aconteceu.

Finalmente, caros Bracarenses e concidadãos, quando, hoje, ouvirem nas notícias: “… mais um jogo na pedreira… em Braga.”, pensem que ali, existe um sítio arqueológico importante, tendo em consideração o espólio notável que restou do Castro Máximo, que é tão relevante, cientificamente, como o da Citânia de Briteiros. Deste sítio arqueológico, que foi sendo destruído ano após ano, com a construção do estádio como golpe final, só sobrou, e apenas, uma parte do topo do Monte Castro.

O que existirá nessa área do Castro Máximo? Esse é assunto que ainda falta esclarecer.


O estádio ficou bonito e ganhou prémios. A cidade beneficiou claramente do turismo que este exemplar de arquitetura representa e, claro, beneficiou também o futebol do norte de Portugal. Mas fica a pergunta: se foi possível integrar outros vestígios arqueológicos em edificado contemporâneo, porque não se integrou estes vestígios no projeto do estádio?

Enfim, este campo de futebol não podia ter sido construído noutro local?

 

Nuno Oliveira

Arqueólogo. Investigador.

                                                                      

terça-feira, 24 de março de 2026

ENTRE ASPAS: "PALACETE JÚLIO DE LIMA, JARDIM E ESPAÇO ENVOLVENTE. Qual o significado e alcance do outdoor?"

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Em 2015, a ASPA pediu a classificação do “Palacete Júlio de Lima, Jardim e espaço envolvente”1, bem cultural a que a tutela do Património atribuiu a distinção de âmbito nacional, como monumento de interesse público. Isto é, passou a ficar protegido pela Lei do Património, sob garantia fiscalizadora da administração local e central.

 

Em setembro de 2025 assistiu-se à retirada de árvores no Jardim classificado, facto que motivou a atuação da ASPA junto do então Presidente da Câmara, no sentido de desencadear a necessária ação de Fiscalização que verificasse a extensão do abate e o seu impacto no bem cultural.  Recordamos que o Jardim, bem como a mata de enquadramento, integram o bem classificado e, como tal, qualquer intervenção exige parecer prévio da tutela do Património, que é vinculativo. Entretanto, soubemos que a entidade nacional do Património também solicitou a atuação da Autarquia.

Nessa data, perguntámos se tinha dado entrada, na Câmara, algum anteprojeto para o Palacete Júlio de Lima, Jardim e espaço envolvente. Mas não obtivemos resposta.

 

Recentemente, no final de fevereiro de 2026, constatou-se a colocação de outdoors, em cada uma das duas frentes de rua do Palacete, com frases simples, que alimentam a esperança do cidadão: “Um espaço de memória... Um lugar com futuro”. Pedimos esclarecimento ao Senhor Presidente da Câmara de Braga e à Senhora Vereadora da Cultura e Património, nomeadamente:

1.  Qual o significado e alcance deste outdoor, sabendo-se que não foi publicitada qualquer tipologia de intervenção?

Que futuro anuncia o promotor imobiliário, sabendo de antemão as condicionantes patrimoniais do imóvel e os resultados do debate público que tem originado? Que garantia têm os bracarenses que esse património vai ser salvaguardado?

2.  Deu entrada na Câmara, ou foi já aprovado algum anteprojeto, ou algum projeto arquitetónico-urbanístico para o Palacete Júlio de Lima, Jardim e espaço envolvente?

Caso se confirme, qual a área alvo e a utilização prevista? Que volumetria prevê?

3.  Quais foram as diligências tomadas, até agora, pelos serviços da Câmara Municipal de Braga, no sentido de garantir a salvaguarda deste monumento de interesse público - Palacete Júlio de Lima, Jardim e espaço envolvente -, nomeadamente o património artístico integrado, jardins e mata de enquadramento, bem como o gradeamento e pórtico monumental?

4.  O promotor dispõe de parecer da tutela do património? Caso exista, como é obrigatório por lei, quais as decorrentes medidas cautelares que foram impostas?

 

Recordamos que o Palacete usufrui de uma Zona de Proteção1 que pode ser consultada no Atlas do Património, disponível nos detalhes sobre o monumento divulgados pelo Património Cultural I.P. Inclui a envolvente do bem classificado.

 

Este bem cultural é muito importante, não só pelo património arquitetónico e artístico que preservou, mas também pelas memórias que lhe estão associadas, uma vez que contam momentos marcantes da História de Braga, de final do séc. XIX a meados do séc. XX. Importa lembrar que o Palacete foi mandado construir por Júlio de Lima, proprietário da Fábrica de Chapéus “A Industrial”, um grande benemérito na cidade. Júlio de Lima marcou, positivamente, a imagem urbana de Braga, com a abertura da rua Júlio de Lima e a construção, nessa rua, na rua de S. Vicente e na rua Gabriel Pereira de Castro, do notável edificado projetado por Moura Coutinho. Falamos de todo um conjunto urbano relevante no Centro Histórico de Braga.

 

Insistimos, mais uma vez, que o “Palacete Júlio de Lima, Jardim e Espaço envolvente”, é monumento de interesse público, uma distinção atribuída pela tutela do Património quando “a respectiva protecção e valorização represente um valor cultural de importância nacional”. Classificação que honra e enriquece o património cultural da cidade de Braga.

 

Como tal, compete à Câmara Municipal de Braga atuar no sentido da salvaguarda deste bem cultural, tanto da parte de quem desempenha funções políticas como dos técnicos que intervêm na decisão. Assim o exige a Lei do Património, a ética e a deontologia profissional dos seus intervenientes!

 

Afinal... que Braga queremos para o futuro?!

                                                                                              ASPA

 

1 https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=20983548


A descrição deste monumento de interesse público, permite perceber por que razão deve ser alvo de uma atenção especial por parte dos proprietários e da Câmara Municipal de Braga.   


Intervenção em Património

 

O MuMMa – Museu da Memória de Matosinhos, é um exemplo de intervenção avançada num imóvel com valor patrimonial idêntico ao Palacete Júlio de Lima, que demonstra a importância do papel regulador de uma Câmara Municipal em matéria de defesa do património cultural construído. Um exemplo para a Câmara Municipal de Braga e, também, para os proprietários de casas unifamiliares que mantiveram testemunhos da arquitetura original, até ao séc. XXI, tal como: caixas de escadas, lanternins e claraboias, estuques decorativos, frescos ou pinturas, elementos decorativos ou ornamentais executados em alvenaria ou cantaria de granito (pavimentos, escadaria, etc.), murais, madeiramentos ornamentais em caixilharias, painéis de azulejos, etc.

O passar do tempo encarregar-se-á de recompensar o investimento realizado e de aumentar o valor global destes imóveis, razão que tem levado alguns proprietários mais atentos a criar hotéis de charme, unicamente cercados por jardins históricos. Espera-se que seja este o sentido da frase “Um espaço de memória... Um lugar com futuro”.


Quer conhecer uma excelente intervenção em Património? Visite o MuMMa.


segunda-feira, 9 de março de 2026

ENTRE ASPAS: "Museu da Escola Sá de Miranda: Património Científico e Recurso Educativo"

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Enquadramento Histórico

O acervo do Museu da Escola Sá de Miranda (MESM) integra o património histórico acumulado desde a fundação do Liceu Nacional de Braga, em 1836, instalado no edifício dos Congregados e frequentado maioritariamente por jovens provenientes da burguesia rural e de concelhos limítrofes. Este espólio foi posteriormente enriquecido, em 1921, com a incorporação do conjunto de materiais provenientes do Colégio do Espírito Santo, que funcionara na atual localização da escola entre 1872 e 1910. A partir de 1921, o mesmo espaço passou a acolher o Liceu Sá de Miranda, assegurando a continuidade da sua vocação formativa e científica no quadro do ensino liceal português.

Na sequência das reformas educativas iniciadas em 1836, o ensino liceal conheceu um processo de modernização curricular marcado pela crescente valorização das ciências naturais, da física e da química. Apesar das limitações materiais que caracterizaram grande parte do século XIX, foram progressivamente instituídos gabinetes científicos dotados de instrumentos, coleções e dispositivos experimentais destinados à observação direta e à demonstração dos fenómenos naturais. É neste enquadramento institucional e pedagógico que se compreende a constituição do espólio atualmente preservado, cuja análise permite reconstituir práticas pedagógicas, orientações curriculares e dinâmicas de atualização científica no decurso da história do ensino liceal.

Acervo e Prática pedagógica experimental do Ensino Liceal

Ao longo de mais de um século, a Escola reuniu instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal, constituindo um acervo multidisciplinar, com objetos provenientes de fabricantes internacionais, que abrange domínios como biologia, física, química, geologia, paleontologia, geografia, eletrotecnia, etnografia, história, matemática e línguas. O exemplar mais antigo data de 1858, uma bobina de Ruhmkorff, testemunho da introdução precoce de dispositivos eletromagnéticos no ensino experimental.

O conjunto de materiais preservados evidencia a centralidade da observação direta e da demonstração experimental na cultura pedagógica liceal. Enquanto suportes materiais de ensino, estes recursos testemunham o papel da experimentação e da visualização na construção e transmissão do conhecimento científico em contexto escolar.

Atualmente, o MESM integra cerca de 900 objetos inventariados e 1040 mapas parietais, constituindo um conjunto representativo da cultura material do ensino experimental em Portugal. O processo de inventariação encontra-se ainda em desenvolvimento, prevendo-se a documentação de um número significativo de itens ainda não tratados museologicamente. No seu conjunto, o espólio constitui um sistema material de mediação do conhecimento científico, documentando a consolidação e institucionalização do ensino experimental entre os séculos XIX e XX.

Processo de musealização

Instituído em 2010, na sequência da requalificação do edifício escolar, o MESM visa assegurar a conservação, estudo e valorização do seu espólio histórico. O processo de musealização assenta na inventariação sistemática, catalogação e organização museológica do acervo, sustentadas por investigação científica, bem como em ações de conservação preventiva, registo fotográfico, documentação técnica e disponibilização de conteúdos no site institucional.

O MESM compreende um Salão de Exposição, núcleos distribuídos pelo Salão Nobre, Biblioteca Pereira Caldas, Sala de Geografia, Direção do Agrupamento e diferentes átrios, bem como uma reserva museológica constituída por armazém e arquivo.

Para além da sua função patrimonial, o MESM constitui um recurso pedagógico ativo. A exposição é regularmente visitada por turmas de diferentes níveis de ensino, proporcionando experiências de aprendizagem direta. No domínio das ciências naturais, os espécimes taxidermizados permitem a observação comparativa de características morfológicas e fenómenos como o dimorfismo sexual. Paralelamente, turmas da área de artes utilizam o espaço museológico como ambiente de observação e prática de desenho, explorando formas, volumes e texturas das peças expostas.

Trata-se de um projeto em desenvolvimento contínuo, que articula preservação patrimonial, investigação histórica e mediação pedagógica. A integração de recursos digitais, designadamente códigos QR que permitem o acesso às fichas técnicas dos exemplares, bem como exposições temporárias e publicações em formato de Newsletter, reforça a dimensão científica e comunicativa do espaço.

O MESM encontra-se aberto à comunidade educativa e ao público em geral, promovendo o acesso alargado ao património científico e pedagógico que preserva. A visita é de entrada livre, decorrendo em horário regular entre as 09h30 e as 17h30, nos dias úteis.

Ao evidenciar a relevância pedagógica, científica e patrimonial dos acervos escolares, o MESM contribui para a valorização da cultura material da educação e para a sensibilização das instituições de ensino quanto à necessidade de identificar e preservar coleções frequentemente armazenadas em condições precárias e suscetíveis de degradação. O projeto confere visibilidade ao espólio musealizado, à ampliação do Museu e à sua integração no currículo, afirmando-se como referência no domínio do património educativo e no estudo da materialidade do ensino científico. 

A Equipa do Museu da Escola Sá de Miranda

 

As coleções científicas escolares são património científico nacional.

Espera-se que o testemunho do MESM seja um exemplo para outras escolas, de modo a que preservem e dêem visibilidade a material que evidencia a cultura escolar de épocas passadas.

                                  ASPA

  

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Colecções Científicas Escolares: património esquecido que é fonte de conhecimento"


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Nas últimas décadas, a investigação histórica tem demonstrado um interesse crescente pelo estudo das instituições escolares para além dos textos legais e dos discursos pedagógicos. Deste modo, a cultura material escolar - da qual fazem parte, por exemplo, os objetos científicos utilizados em sala de aula - passou a ser vista como fonte fundamental para compreender as práticas de ensino, as metodologias adoptadas e o modo como o conhecimento foi apropriado em diferentes contextos históricos.

Em Portugal, as coleções científicas escolares começaram a ser organizadas a partir da segunda metade do século XIX, acompanhando as reformas educativas que visavam modernizar o ensino secundário. Os liceus, criados pela reforma de Passos Manuel (1836), tinham como objetivos principais formar cidadãos instruídos e preparar os estudantes para o ensino superior, num contexto de crescente valorização das ciências naturais com o intuito de aproximar o seu ensino dos princípios experimentais da ciência.

Ao longo do século XIX e no início do século XX, a pedagogia defendia que o ensino prático, experimental e visual era essencial para a compreensão dos fenómenos naturais. O uso de espécimes reais, modelos de diversos tipos, instrumentos de medição, preparações para microscópicos e coleções mineralógicas e geológicas era considerado indispensável para um ensino eficaz. Destacam-se neste contexto os chamados “museus escolares” ou “gabinetes de história natural”, que constituíam espaços de aprendizagem onde os alunos podiam observar, manipular e interpretar o mundo natural a partir dos objetos e instrumentos disponíveis. As coleções escolares não eram encaradas como meros recursos complementares e sim como verdadeiras estruturas pedagógicas que moldavam os modos de ensinar e aprender ciência.

Por volta de 1900, mais de 70% das escolas do ensino secundário em Portugal possuíam coleções de história natural formadas devido a compras centralizadas feitas pela Estado, por doações de instituições científicas (por exemplo a Escola Politécnica de Lisboa e os Serviços Geológicos), por contribuições individuais (professores, antigos alunos, famílias e comunidades) ou devido à iniciativa individual de professores e alunos (construção de herbários, taxidermização de animais) [1]. Assinala-se assim a existência de uma rede de cooperação educativa e científica que envolveu universidades, instituições científicas, escolas e sociedade civil.

 

O Museu da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, possui notáveis coleções deste tipo, remontando o seu acervo a meados do século XIX, quando o Liceu de Braga foi instalado no antigo Convento dos Congregados. Verifica-se que, tal como em instituições congéneres, também as coleções científicas aí existentes foram sendo reunidas através de aquisições do Estado, de doações de entidades locais e de ofertas por parte de antigos alunos e outros. Atualmente, este museu possui cerca de 2000 peças já inventariadas - entre as quais animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, minerais e objetos etnográficos -, com muitas outras ainda por inventariar e classificar. Parte deste acervo encontra-se exposto no Museu, aberto ao público durante o horário escolar; o restante constitui as reservas que se encontram distribuídas por vários espaços da escola.

 

Apesar da sua relevância histórica e científica, a maioria das coleções científicas escolares encontrou-se durante décadas em estado de abandono, desorganização e invisibilidade institucional. A partir de finais da década de 1980, legislação e iniciativas da responsabilidade do Ministério da Educação - com destaque para o Inventário e Digitalização do Património Museológico da Educação e respetiva divulgação on-line - e a aprovação de diversos projetos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tentaram inverter a situação, promovendo a inventariação, preservação e valorização do património científico escolar. No entanto, a ausência de políticas públicas consistentes e a falta de pessoal especializado nas escolas dos diversos níveis de ensino, mais do que dificultado o progresso desta missão, conduziu à sua estagnação, com a consequência óbvia deste património correr o risco de voltar a tornar-se invisível para as autoridades competentes, a comunidade escolar e o público em geral.

É prioritário entender estes acervos como património científico nacional, com valor para a memória coletiva e para a investigação histórica e constituindo (ainda) uma importante fonte de conhecimento para o ensino das ciências. É necessário que este património seja contemplado em projetos educativos, museológicos e de investigação interdisciplinares a vários níveis institucionais, projetos esses que podem e devem ser apoiados pelos órgãos locais de governo. Investir na valorização do património científico escolar é contribuir para que uma parte da nossa memória coletiva não se desvaneça, para que a reconstrução histórica seja mais plural, material e participativa, e para a formação de uma consciência crítica sobre o legado material da ciência e da educação em Portugal.

 

                                                                                   Teresa Salomé Mota

(Historiadora da ciência)

                                                                                  

 

[1] Gomes, Inês, “The scientific heritage of Portuguese secondary schools: a historical approach”, Pedagogica Historica, 54 (4), 468-484.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"50 ANOS DA CODEP". No âmbito do Ciclo Braga Memória (Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva)


A sessão deste mês de fevereiro (11 de fevereiro), do 
Ciclo Braga Memória, promovido pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, foi uma homenagem aos 50 ANOS da CODEP - Comissão de Defesa e Estudo do Património. Teve como intervenientes dois dos fundadores deste movimento de cidadãos criado em Braga, a 3 de fevereiro de 1976, com o objetivo de lutar pelo salvamento das ruínas de Bracara Augusta: Henrique Barreto Nunes e Eduardo Pires de Oliveira

Eduardo Pires de Oliveira fez uma breve referência a momentos da História de Braga em que os achados arqueológicos tiveram especial importância, a começar por D. Diogo de Sousa no séc. XVI, recordando o papel de Albano Belino e J. Leite de Vasconcelos c. de 1900, finalizando nos anos 60/70, quando, para além da descoberta pelo Cónego Luciano A. dos Santos de um tanque romano com mosaicos no seminário de S. Tiago  o padre Arlindo R. Cunha, bem como J. J. Rigaud de Sousa, apoiados pelo vereador Egídio Guimarães, mobilizaram um grupo de jovens para escavações na Falperra e em Braga, de que resultaram achados importantes, nomeadamente uma necrópole na Av. Da Liberdade e a chamada Casa do Poço, em Maximinos, lamentavelmente destruídas.

Henrique Barreto Nunes centrou-se num curto período de tempo, entre 1975 e 1977, quando um grupo de cidadãos observou máquinas de grande porte no Alto da Cividade/Colina de Maximinos, no âmbito de operações de urbanização que movimentavam terra, demoliam e arrastavam blocos de granito de muros antes intactos de Bracara Augusta, onde era possível observar, também, artefactos romanos. Apresentou e localizou no tempo documentos variados – telegrama dirigido a Junta Nacional de Educação (13 jan1976), ata de constituição da CODEP, recortes de imprensa, fotografias de achados e intervenientes, etc. Lembrou memórias e vivências dessa época, nomeadamente as escavações organizadas pela CODEP e dirigidas pelo Doutor Jorge de Alarcão em Abril 1976, nas proximidades do local onde um ano mais tarde iriam ser localizadas as termas e posteriormente o teatro romano, intervenção que incentivou uma participação entusiástica do público que, apesar da chuva intensa, marcou presença no auditório da BLCS.    

A quantidade e qualidade dos recortes de imprensa (local e nacional) apresentados, sobre os achados arqueológicos e sobre a ação da CODEP em 1976, bem como a reportagem da RTP (com entrevistas aos cidadãos envolvidos) sobre o risco a que estava sujeita a cidade romana, permitiram perceber a importância política atribuída ao património que Braga corria o risco de perder.

Manuel Sarmento, presidente da ASPA, associação que nasceu, a 30 de março de 1977, na sequência da CODEP, referiu que há um antes e um depois da intervenção do CODEP no que respeita à defesa de Bracara Augusta, à arqueologia em Braga e à preservação da memória identitária da cidade. Lembrando as misérias do resgate dos vestígios do passado, que levaram inclusive à entrega à Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, dos achados de Albano Belino, no início do século passado, motivo de chacota de Camilo Castelo Branco e Francisco Martins Sarmento, considerou que o CODEP só foi possível constituir-se, no dealbar do Portugal democrático, pela ação associativa e cidadã de estudantes e investigadores, promovendo a defesa dos bens públicos contra a ação predadora dos interesses privados, nomeadamente por uma intensa ação junto da comunicação social e de "advocacy" junto dos poderes públicos, e contribuindo para a consolidação de uma visão da defesa do património cultural como uma dimensão essencial à democracia cultural. A ASPA continua o legado do CODEP, tendo na sua história de quase 50 anos assinalado vitórias como a recuperação do Mosteiro de Tibães, a criação, em curso, do Parque Ecomonumental de Sete Fontes, para a par com alguns desaires que tornam a ação associativa de defesa do património cultural e natural cada vez mais atual. 

Foi com satisfação que constatamos a presença de responsáveis e/ou profissionais de instituições locais que intervêm em Património, nomeadamente do Museu D. Diogo de Sousa, Câmara Municipal de Braga e Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, bem como a presença de jovens arqueólogos, que, no geral, contribuíram para o enriquecimento do debate que se seguiu à apresentação.

A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, a quem agradecemos o empenhamento e interesse postos nesta iniciativa, teve o cuidado de divulgar, em direto, a gravação desta sessão, que disponibilizou ao público no Facebook, de modo a que possa ser consultada pelos interessados.

Importa ainda referir que, no âmbito desta sessão, está patente uma pequena mostra documental sobre a génese da CODEP, que contou com a colaboração da ASPA - Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural, reunindo registos e documentos históricos que ajudam a preservar e valorizar a memória da sua fundação, elementos importantes para compreender a Braga atual.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Das dinâmicas culturais à cidadania ativa"

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Se Braga 25 mostrou uma cidade com público para a cultura, falta agora que a cidade e quem a governa aproveite o impulso para fazer de Braga não apenas um município relevante no panorama cultural português, mas também um exemplo de cidadania ativa. Esperando ainda por um balanço mais rigoroso e afinado no detalhe, os números já divulgados mostram que a Equipa de Missão respondeu ao desafio – pelo menos em quantidade, já que a qualidade é sempre aferida pelo critério de cada um de nós. Sem entrar nesse juízo e em subjetividades desnecessárias neste contexto, cumpre reconhecer que o milhão e meio de espetadores apontados como tendo participado nas mil e duzentas atividades propostas, mostram que existe público para dar continuidade a uma programação cultural diversificada, orientada para diferentes públicos, tendencialmente descentralizada, ou seja, abarcado todo o município e com potencial polarizador para toda a região.


Prémio de consolação, é certo, mas nem por isso menos relevantes para as cidades que chegaram à reta final da escolha da Capital Europeia da Cultura 2027 – Aveiro, Braga e Ponta Delgada – o encargo de construir uma programação que cubra um ano inteiro de atividades culturais deve servir, a todas elas, como oportunidade de transformação. É importante, por isso, que se encontre forma de dar continuidade ao que se iniciou, única maneira de assegurar que a excecionalidade de uma nomeação como capital nacional da cultura abriu portas que não devem ser fechadas. Nos meses que se seguem veremos se Braga viveu um fogacho cultural singular ou se iniciou um processo que coloque a cidade na rota de eventos culturais contemporâneos, alguns com forte potencial disruptivo, condição que habitualmente desagrada aos poderes instituídos.

 

Em momentos de forte polarização como aquele que vivemos, a cultura tanto pode ser um espaço de encontro como de confronto. O que traça a bissetriz entre estes dois posicionamentos é o exercício de uma cidadania esclarecida, madura e interventiva, estando Braga longe de ser um exemplo neste campo. Sabendo que há, por certo, discordâncias, pela minha parte vejo pouca mobilização para a intervenção no espaço público, um associativismo bem abaixo de desejado numa cidade de média dimensão e políticas públicas que dão pouca voz à cidadania.

 

É em face deste cenário que o balanço da Braga 25 não se deve restringir ao que se fez, mas também ao modo de dar continuidade ao projeto. Não havendo rutura entre o atual executivo e o precedente, essa continuidade parece fácil de alcançar. Trata-se, no entanto, de uma ilusão de facilidade. As condições para que a cultura ocupe um lugar central na vida corrente do município, e não seja apenas um fogacho num ano de exceção, são de natureza política mais que económica. Só se conseguem com um executivo que acredite que o empoderamento que a cultura permite aos seus públicos não é uma ameaça, mas uma mais-valia para toda a comunidade. Quando consideramos as dezenas de projetos que se associaram à Braga 25 vemos uma diversidade que não converge nos propósitos ou nas metodologias, mas que ainda assim se alinham numa mesma dinâmica de intervenção e numa vontade comum de ganhar uma voz que se faça ouvir no espaço comum.

Para lá da oferta de espetáculos e exposições que cativaram centenas de milhares de espetadores, a Braga 25 foi o espelho de uma cidade que se projeta para uma ambição de cosmopolitismo, sabendo que por detrás desse mesmo espelho vive uma outra cidade, uma cidade onde prepondera um certo conservadorismo provinciano que a marcou durante décadas. Estas duas faces, que ora se confrontam ora se entrelaçam, não vão desaparecer, importando encontrar a fórmula certa para fazer de Braga um exemplo de equilíbrio tenso, e por isso fecundo, entre identidade e disponibilidade para o que é novo e diferente. Esse é o caderno de encargos que a Braga 25 deixou e que se espera que quem governa o município ajude a concretizar.

                                                                                Luís Cunha

O futuro...

“Abre a tua Porta e deixa entrar”, que foi o lema da Braga 25, constituiu um convite à participação e celebração da cultura, na rua e de forma partilhada.

Espera-se, pois, que esta Capital Portuguesa da Cultura tenha criado vínculos culturais capazes de cumprir a Estratégia Cultural de Braga 2020-2030, conhecida por Braga Cultura 2030, lançada como pilar do desenvolvimento sustentável, que teve em vista “democratizar o acesso à cultura, valorizar o património local e integrar a criação contemporânea”. Espera-se que, até 2030, se concretize, finalmente, a “revitalização de espaços culturais, a democratização do acesso à cultura e um investimento sustentado”, preparando um futuro em que a cultura tenha, realmente, impacto no quotidiano das crianças, jovens e adultos. Onde o património seja, finalmente, valorizado, respeitando a sua identidade e originalidade, transformando-o em equipamento capaz de receber atividades culturais de relevo, nomeadamente o Cinema S. Geraldo, a Ínsula das Carvalheiras, o Teatro Romano, o Estádio 1º de Maio, o Complexo das Sete Fontes e o prometido espaço museológico da Fábrica Confiança. Esperamos que seja, finalmente, protegido e salvaguardado o valioso património arquitetónico do séc. XVIII, XIX e XX, tanto as fachadas como o interior dos edifícios: caixa de escadas; lanternins e claraboias; estuques decorativos, frescos ou outras pinturas, elementos decorativos ou ornamentais em granito, pavimentos, escadarias e outros; murais; madeiramentos ornamentais de caixilharias; painéis de azulejos, etc.