Ampliar
Há já alguns anos que estudiosos, conhecedores e amantes de árvores defendem que elas não vivem isoladas umas das outras num ecossistema. Pelo contrário, estarão interligadas através de fungos micorrízicos — fungos microscópicos no solo que estabelecem uma relação de simbiose com as raízes de plantas terrestres —, tecendo uma rede subterrânea em que, em troca de hidratos de carbono absorvidos pelo fungo, as árvores acedem mais facilmente à água e outros nutrientes do solo. Esta rede subterrânea permite mesmo a circulação de “mensagens químicas” entre as árvores, pelo que elas que vivem mais e melhor quando fazem parte de uma comunidade. De acordo com esta ideia, as árvores serão, assim, seres sociais, e, quando vivem sozinhas, crescem menos e estão mais sujeitas a doenças e outros factores stressantes. Assim como nós, seres humanos. Apesar da comunidade científica não ter ainda uma posição definitiva relativamente à comunicação arbórea considerando que algumas afirmações sobre a mesma são algo exageradas — há, todavia, consenso de que existe uma rede de comunicação entre as árvores; o debate é antes sobre qual a sua abrangência e sofisticação.
Em Braga, foram-se acumulando, ao longo dos anos, decisões que revelam uma preocupante desvalorização dos espaços verdes e da arborização urbana. No centro histórico, os espaços verdes são escassos: as podas negligentes foram notícia nacional(3), uma área verde pública, junto ao Braga Parque, foi alienada em favor da construção de um projecto privado, numa localização complexa do ponto de vista hidrogeológico, num processo pouco claro e que motivou mesmo uma petição por parte de um conjunto de moradores da zona; o abate de árvores foi mais ou menos uma constante, citando-se aqui apenas o exemplo da Avenida dos Lusíadas com as nefastas consequências que todos hoje sentimos. Mesmo aceitando que algumas das espécies arbóreas plantadas no passado não eram a melhor opção para alguns locais — algumas pretensamente conflituam com infraestruturas como redes de abastecimento subterrâneas, passeios e ciclovias — abatê-las não é a melhor opção. Existem, certamente, alternativas a esta solução drástica. Ao fim e ao cabo, as árvores são seres vivos...
Recentemente, esta tendência parece ter vindo a inverter-se, com a tentativa mais ou menos bem-sucedida de erradicação de espécies invasoras no Monte do Picoto, a plantação de árvores de espécies autóctones em algumas freguesias do concelho, o anúncio da criação do parque ecológico do rio Este e do parque verde público nos terrenos da Quinta da Arcela, em Lamaçães. A revisão do Plano Director Municipal (PDM) de Braga, recentemente publicada, confirma que cerca de 4 hectares da Quinta da Arcela terão esse destino. Mas, por enquanto, os terrenos em causa, com excepção dos edifícios da antiga Estação Agrária, que já transitaram para a Câmara Municipal de Braga, pertencem ainda ao Ministério das Finanças.
As iniciativas acima enunciadas, com destaque para o parque da Quinta da Arcela, estão contempladas no Plano Municipal de Acção Climática de Braga (PMAC): devemos agora estar atentos à sua concretização com a maior celeridade possível, de modo a que não se caia numa situação idêntica à do parque das Sete Fontes, que parece não ter fim à vista.
Haja vontade política... Se Braga pretende ser verdadeiramente uma cidade moderna e ecológica, tem que integrar ambiente e urbanismo, habitação e espaços verdes, bosques e mobilidade suave, biodiversidade e água. Defender as árvores é defender a saúde pública, o equilíbrio ambiental e o futuro das cidades.
Teresa Salomé Mota
(Associada da ASPA)
A Quinta da Arcela é uma das parcelas referidas na Resolução do Conselho de Ministros nº117/2025, de 11 de agosto, que prevê a permuta de bens entre o Estado e a CIM Cávado, no sentido de o Palácio dos Biscainhos passar da tutela da CIM Cávado para o Estado, enquanto que o Recolhimento das Convertidas, o Recolhimento da Caridade, a antiga Escola D. Luís de Castro, a Quinta do Vilar e outros bens, passam para a tutela da CIM Cávado. Estranha-se que a permuta tarde a ser concretizada: enquanto o Palácio dos Biscainhos vai resplandecendo, fruto de investimento realizado, o Recolhimento das Convertidas vai definhando, fruto da inércia do Governo.
Também se estranha que a área verde disponível da Quinta da Arcela, que motivou uma petição lançada por moradores, não seja totalmente integrada no futuro Parque Verde. Espera-se que o bosque existente seja associado a um Centro Interpretativo de Lamaçães, a criar nos edifícios existentes – antiga Estação Agrária, tanque e fontanário (inventariado em PDM), etc. – de modo a garantir o conhecimento sobre esta área, por quem a habita, através de memórias rurais associadas às antigas quintas.
ASPA









.jpg)
