INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

ENTRE ASPAS: "PARQUE VERDE ECO MONUMENTAL DAS SETE FONTES. É urgente evitar situações de risco e proteger a flora autóctone"

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No dia 30 de junho, a ASPA recebeu imagens sobre um corte de árvores nas “Sete Fontes”, na Zona Especial de Proteção (ZEP) do Sistema de Abastecimento de Águas à Cidade de Braga, no séc. XVIII, num período em que se previa uma onda de calor. Alertamos, de imediato, a Câmara Municipal de Braga.

No local, verificámos que se tratou de um corte de espécies invasoras – acácias (austrálias e mimosas) –, que danificou carvalhos e sobreiros, uma vez que alguns ficaram reduzidos ao tronco. Este corte aconteceu na área de cedência pública da Unidade de Execução 6 (UE6), do Plano de Urbanização das Sete Fontes (PUSF), junto à urbanização em curso, em área que vai integrar o Parque Verde Eco Monumental das Sete Fontes.

Estranhamos a acumulação de material combustível – troncos e ramos - numa semana em que a temperatura ultrapassou os 40ºC. A vigilância de moradores tem sido importante, pois permite evitar situações de risco.

Nessa área da UE6, já em posse da Câmara - uma das zonas a integrar no Parque Verde -, existe uma elevada densidade de austrálias e mimosas, que, sendo espécies invasoras agressivas, exigem uma ação urgente e apropriada de controlo; e essa ação deve incluir precaução de modo a proteger e conservar os exemplares de flora autóctone (ou nativa; originária da nossa região e fundamental para a biodiversidade local) que aí existem: sobreiros, carvalhos, castanheiros, etc.

Perante este abate, em plena ZEP do Monumento Nacional, a ASPA solicitou, ao Presidente da Câmara Municipal de Braga, a resposta às seguintes questões:

  1. O abate foi autorizado pela CCDR N Cultura e Património, a quem compete emitir parecer prévio relativamente a intervenções em ZEP de monumentos.
  2. O abate foi comunicado, previamente, à Proteção Civil?
  3. A CMB autorizou o abate de árvores numa semana em que o risco de incêndio era de tal modo elevado que motivou alerta à população, por parte do IPMA e da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil?

Caso não exista nenhuma dessas autorizações, será que estamos perante um caso que importa averiguar? É essencial verificar se foram cumpridos os normativos em matéria de defesa do património e do ambiente, bem como de proteção civil. Também importa averiguar por que razão a pilha com ramos e folhas não foi retirada em tempo útil, apesar de vários alertas da ASPA nesse sentido.

 

Não temos dúvidas que as espécies invasoras arbóreas, existentes na área de cedência da UE6, terão de ser alvo de ações de controlo e erradicação, tal como outras espécies invasoras – arbóreas, arbustivas e herbáceas - existentes nas restantes áreas que vão integrar o Parque; como não temos dúvidas que esse controlo deverá ser efetuado com recurso a uma gestão bem planeada, adotando a metodologia adequada a cada espécie, de acordo com o conhecimento científico existente, e de modo a garantir a manutenção e regeneração natural das espécies autóctones existentes na ZEP do Monumento Nacional, bem como novas plantações. É urgente criar essas condições, tão necessárias à concretização do Parque Verde Eco Monumental das Sete Fontes, conforme anunciado no Diário da República nº 187, de 24 de setembro de 2021.

Uma vez que a opção foi o corte, tudo indica que a situação se irá complicar quando as touças e raízes das mimosas e austrálias derem origem a vários rebentos (árvores), aumentando a densidade destas árvores e dificultando muito os trabalhos do seu controlo e eliminação.

 

A ASPA reitera que é de extrema importância a implementação de um Plano de Combate às Espécies Invasoras nas Sete Fontes, que deverá incluir a determinação da área invadida, a identificação e caracterização de espécies invasoras, a localização (georreferenciada) de cada conjunto, a definição de prioridades de intervenção e das metodologias de controlo adequadas e sua aplicação. Esse plano deve ter aplicação imediata, mas deve também incluir ações a médio e longo prazo. Tudo isto pressupõe conhecer o que existe, onde existe, e que quantidade existe, bem como atuar de acordo com a metodologia adequada a cada espécie, com precaução para não colocar em risco as espécies autóctones de grande e pequeno porte.

 

Em paralelo é necessário realizar um Estudo das Espécies Autóctones: identificar o que existe, onde (georreferenciação) e que quantidade existe de cada espécie, em cada unidade de execução urbanística, uma vez que as respetivas áreas de cedência passam a propriedade do Município, à medida que as urbanizações avançam, tendo em vista a criação do Parque Verde prometido em 2013. As espécies autóctones de maior porte - carvalhos, sobreiros, castanheiros, pinheiros, etc., -, bem como as árvores de fruto e outras espécies arbustivas e herbáceas das antigas quintas desta zona, são indispensáveis no futuro Parque Verde. Não só como enquadramento paisagístico do Sistema Hidráulico Setecentista e sob o ponto de vista climático, mas também numa perspetiva de promoção da biodiversidade e de salvaguarda de memórias do Vale das Sete Fontes. 

Se os exemplares da flora autóctone não forem devidamente identificados e georreferenciados, dificilmente serão valorizados. E se não houver planos de gestão bem delineados e bem aplicados, podemos assistir, em breve, a mais ações danosas a esse património vegetal essencial na ZEP das “Sete Fontes”.

 

Lamentamos que:

  • Parque Verde Eco Monumental das Sete Fontes, prometido desde 2013, ainda não tenha sido disponibilizado à população;
  • que este corte tenha danificado algumas espécies autóctones;
  • que ainda não haja um Plano de Combate às Espécies Invasoras na ZEP das “Sete Fontes”, nem um Estudo das Espécies Autóctones;
  • que o Projeto Paisagístico, cujo Estudo Prévio data de 2021, ainda não tenha sido divulgado e sujeito a discussão pública, de modo a avançar com a criação do Parque.


PLANTAS INVASORAS

“Muitas das plantas que observamos à nossa volta vieram de outras regiões (são espécies exóticas) e entre essas algumas têm comportamento invasor, ou seja, multiplicam-se e dispersam sem a ajuda do Homem, atingem densidades elevadas e causam impactes negativos diversos. (...) Constituem uma ameaça para os ecossistemas”.

                         in https://invasoras.pt/pt/especies-invasoras-portugal

terça-feira, 30 de junho de 2026

ENTRE ASPAS. "Festas de São João: persistência e mudança"

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Festejos de São João em Braga. Depois da leitura da noite (como nos conventos?), tomávamos chá em silêncio. Depois, eu à janela a observar as minhas colegas de liceu, para cá e para lá na Avenida, com vestidos a estrear.

Tremulavam grisetas. Os velhotes do asilo Conde de Agrolongo alugavam cadeiras a senhoras e cavalheiros da sociedade. As tílias rescendiam. E, ao soar da meia-noite na torre dos Congregados, trás, as cataratas de luz, o fogo-de-artificio. O quarto ali todo ouro, prata e furta-cores. O quarto e as copas das árvores que os pardais sobrevoavam assustados. No jardim, as minhas ex-colegas suspendiam o passeio para, de pescoço esticado, apreciarem lá em cima a artificiosa chuva de pérolas, de relâmpagos, de pranto.

Vinha, em seguida, o fogo-chinês: luminárias de bonecos de papel, subindo em círculo, rumo ao céu: o cavaleiro andante, o frade crúzio, a dama de saia de balão. (…).

À girândola final, um aparatoso estrépito sobre a cidade esventrada e verde, a vez das orvalhadas.

Descíamos antão a guilhotina da janela. De acordo com a tradição, orvalhadas a desoras traziam humores ruins… E dávamos as boas-noites.

                                                           Maria Ondina Braga, Vidas Vencidas, 1998

Esta evocação dos festejos de São João saída da pena de Maria Ondina Braga, renomada autora da cidade, cada vez mais reconhecida fora dela, é um bom ponto de partida para olhar a festa e a sua patrimonialização.

À palavra património associam-se, de forma mais ou menos imediata, ideias e valores que parecem vetores indiscutíveis para a consagração e reconhecimento dos objetos merecedores dessa chancela. Ideias como as de preservação e transmissão são centrais a um entendimento do que é o património, através delas se valorizando o contínuo temporal que faz dos bens culturais elos que ligam as diferentes gerações parecendo elidir o tempo. Do mesmo modo, valores como os da antiguidade, autenticidade e identidade, são quase sempre convocados quando se trata de defender o património. Ora, projetar uma defesa implica esperar um ataque, sendo em torno desta linguagem bélica que a narrativa do património se complica um pouco: Não há nunca quem ataque o património de forma aberta e declarada, muito embora existam refregas de onde o património sai ferido. Do mesmo modo, situações há em que a defesa cega do que se entende por património produz mais dano que benefício, desde logo quando o retira das coisas vivas para lhe dar o destaque próprio dos mausoléus.

Em relação à matéria tangível, seja um edifício, um monumento, ou uma paisagem, a ideia de preservação deve orientar o discurso e a prática patrimonialista. O ponto crítico, neste caso, é o do modelo de preservação, de restauro ou de renovação, matéria sensível que não cabe abordar neste apontamento. Centremo-nos antes na festa, sublinhando como a natureza intangível desta matéria nos obriga a sair do princípio geral da mera preservação. Se queremos pensar a festa no fio do tempo que gere os processos de patrimonialização, temos aqui que introduzir dois vetores fundamentais, o da dinâmica que mantém a festa viva e a do perigo de a asfixiar através da sua cristalização.

Voltemos à evocação que nos deixou Ondina Braga. Facilmente percebemos mudanças e continuidades, tanto na topografia que define o «para cá e para lá» da longa noite de São João, como nos eventos que caracterizam a festa. Doente, e por isso impossibilitada de se juntar às colegas de liceu, condenada a apreciar a festa da janela, a escritora pôde registar sinais, acordes, cores, modos de festejar de uma forma não implicada. De alguma forma fez o que se espera que seja feito por quem está encarregado de promover a sua patrimonialização. Note-se que, ao contrário de um monumento, a festa não se encerra num movimento de preservação, ao contrário, ela vive num permanente ajustamento entre a memória que nos transporta ao seu passado e a realidade social e cultural que marca o tempo em que a festa é levada à cena.

Trata-se de um ajustamento que se exige aos agentes que promovem a festa e a organizam, bem como àqueles que visam o seu reconhecimento como património cultural imaterial, um equilíbrio nem sempre fácil de alcançar. Se o empenho e o entusiasmo, às vezes temperados com bairrismo, e nem sempre na dose certa, são indispensáveis no processo, devem, ao mesmo tempo, ser capazes de se distanciar da festa, olhando-a como Ondina Braga fez, a uma distância que permita perceber que a festa é de quem a vive, e é quem a vive que deve desenhar o seu porvir.

Neste sentido, o passado da festa não pode ser o seu futuro, muito embora esse futuro não exista sem um passado que a legitime no fio do tempo, que permita essa ligação, real ou imaginada, pouco importa, entre gerações. Quem hoje assiste à dança do Rei David, à representação dos Pastores ou ao desfile do Carro das Ervas, sente-se transportado para o passado, pode fechar os olhos e imaginar que a seu lado tem pais, tios ou avós, os entes queridos que partiram mas que um dia assistiram àquelas mesmas encenações. Essa é uma espécie de magia que a festa permite. Importa considerar, no entanto, a outra face: a aceitação do que muda e a compreensão de que essa mudança é indispensável, pois só ela impede que a festa cristalize e morra de velhice. O que se cede em magia ganha-se em valor de uso, permitindo que as comunidades que vivem a festa continuem a fazer dela um instrumento importante nos processos de produção e reprodução social. O São João de Braga é, desde há muitos e muitos anos, importante para a cidade. Continua a sê-lo e assim promete continuar enquanto resistir tanto ao excesso de mudança, que transformaria a festa num mero cartaz turístico, como à febre a imutabilidade, que alguns confundem com patrimonialização.

Luís Cunha

(Antropólogo. Associado da ASPA).

segunda-feira, 15 de junho de 2026

ENTRE ASPAS: PARQUE VERDE DA QUINTA DA ARCELA. Importância de um Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães

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O Vale de Lamaçães, que até ao início da década de 90, do século passado, era uma zona agrícola, foi transformado numa área residencial, pontuada por diversas superfícies comerciais e algumas escolas, onde falta um parque verde de proximidade já reivindicado por moradores.

Falta contar a história ambiental do Vale de Lamaçães, localizado numa planície de inundação, conhecimento que continua a ser importante para a interpretação de problemáticas atuais e essencial para encontrar soluções que evitem o agravamento de problemas no futuro. Tal como falta conhecer os “caminhos da água” no presente, e falta saber qual a área verde por habitante disponibilizada pelo município, a quem reside no Vale de Lamaçães, e quais as metas definidas nesse âmbito.

 

Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães

Face às condicionantes existentes, espera-se que a área disponível da antiga Quinta da Arcela seja, em breve e na totalidade, integrada no futuro Parque Verde da Quinta da Arcela, associado a um Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães. Um espaço dedicado à descoberta deste Vale - do granito à água, do milho ao pão, do solo à biodiversidade -, que permita conhecer memórias rurais e saberes tradicionais associados às antigas quintas e casas rurais e, inclua, também, um espaço com biblioteca dedicada a livros infantis sobre ambiente e biodiversidade.

Imagine a Estação Agrária, tanque e fontanário - inventariados em PDM -, bem como outros edifícios de raiz rural da antiga Quinta da Arcela, devidamente restaurados como espaço educativo dedicado à vida agrícola que ali existia. Um espaço que permita conhecer o passado, compreender o presente e evitar o agudizar de problemas para o futuro.

Por isso mesmo se espera que as decisões, em relação ao Parque Verde da Quinta da Arcela, resultem de uma ação articulada entre os Pelouros do Urbanismo, do Ambiente e do Património/Cultura, a nível político e técnico, com adoção de medidas que permitam a conservação do solo e flora autóctone que aí resistiu, a valorização da água e a promoção de biodiversidade, de acordo com o definido nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 6, nº 11, nº 13 e nº 15.

O futuro Parque Verde pode constituir um exemplo de articulação entre Pelouros municipais e, também, entre estes e o movimento de cidadãos que reivindica o Parque Verde na Quinta da Arcela.

 

O Vale de Lamaçães

Sendo uma planície de inundação do Rio Este, a que se juntam ribeiros e escorrências das linhas de água que percorrem as encostas de Nogueiró e do Bom Jesus, era no Vale de Lamaçães que se acumulavam e infiltravam as águas durante os períodos de cheia, deixando, invariavelmente, os campos de cultivo ensopados e o solo enlameado.

 A toponímia desta freguesia – LAMAÇÃES – é uma evidência forte da lama que existia neste vale fértil que, no primeiro PDM de Braga (1994), foi definido como área de expansão urbana e habitacional, apesar das condicionantes ambientais existentes. Tal como o escudo da freguesia, que apresenta duas enxadas, também a toponímia atual lembra essa matriz rural associada às antigas quintas1: Arcela, Azenha, Bouça, Eira-Vedra, Gróias, Outeiro, Outeiral, Senra, Silvães, Torre, Via Cova, etc. O Minho Pitoresco, de José Augusto Vieira, datado de 1887 (pág. 54, Tomo II), associa a Freguesia de Lamaçães a “um solo tão fértil como pitoresco”.

Os elementos que caracterizavam esta paisagem rural desapareceram em poucas décadas: o granito das casas rurais, eiras e muros que separavam os campos; as ramadas e as árvores de fruto; os canais de rega e os ribeiros; até parte dos pinhais da encosta. A razão foi simples: expetativas de construção criadas por um PDM, a que se seguiu a aquisição de parcelas de solo por empresas do setor imobiliário. Um caso que exige reflexão.

Este é um Vale transformado em área residencial, onde a água da chuva nem sempre tem “caminho” para se infiltrar ou chegar ao rio Este. Numa área que era verde, e com muita água, ficou a faltar área verde para uso público e cursos de água para deleite da população. Um processo iniciado no final do séc. XX, que se tem prolongado até ao presente.

Poucas foram as casas rurais, tanques e fontanários que resistiram. Mas o valor patrimonial de alguns fontanários e tanques foi reconhecido no âmbito do PDM - Fonte de Águas Férreas (II 93), a Fonte e tanque da Quinta da Senra (II 413) e o Fontanário e Tanque junto à antiga Estação Agrária (II 414) –, razão pela qual estes bens culturais integram as Fichas de Património Inventariado.

A antiga Estação Agrária, com um tanque e um fontanário, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães, é uma evidência da atividade que predominava neste vale: a agricultura.

 

O projeto em curso no rio Este - limpeza, criação de zonas de lagoas e renaturalização das margens onde é possível -, que tem em vista aumentar a capacidade de retenção de água e reduzir o risco de cheias, é um excelente contributo para reduzir risco inundação em momentos de pluviosidade extrema. Mas será suficiente, se a área verde ainda existente, no Vale de Lamaçães, for ocupada com mais construções?   

Os erros do passado, nomeadamente a eliminação dos ribeiros, bem como a construção em zonas críticas, precisam de soluções no presente. O Parque Verde público da Quinta da Arcela, reivindicado pelos moradores e previsto no PDM, é essencial para usufruto da população mas é, também, necessário para manter área de infiltração de água numa zona da cidade altamente povoada e demasiado impermeabilizada.

  

A área classificada em PDM como Espaço Verde (EV), na antiga Quinta da Arcela, exclui uma área verde significativa, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães. Tudo indica que é para esse espaço que a Câmara destina a construção de apartamentos a custos controlados, numa área já demasiado impermeabilizada! Não haverá outro local para esse efeito?


segunda-feira, 1 de junho de 2026

ENTRE ASPAS. Árvores e parques na Braga do futuro: o parque da Quinta da Arcela

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Há já alguns anos que estudiosos, conhecedores e amantes de árvores defendem que elas não vivem isoladas umas das outras num ecossistema. Pelo contrário, estarão interligadas através de fungos micorrízicos — fungos microscópicos no solo que estabelecem uma relação de simbiose com as raízes de plantas terrestres —, tecendo uma rede subterrânea em que, em troca de hidratos de carbono absorvidos pelo fungo, as árvores acedem mais facilmente à água e outros nutrientes do solo. Esta rede subterrânea permite mesmo a circulação de “mensagens químicas” entre as árvores, pelo que elas que vivem mais e melhor quando fazem parte de uma comunidade. De acordo com esta ideia, as árvores serão, assim, seres sociais, e, quando vivem sozinhas, crescem menos e estão mais sujeitas a doenças e outros factores stressantes. Assim como nós, seres humanos. Apesar da comunidade científica não ter ainda uma posição definitiva relativamente à comunicação arbórea considerando que algumas afirmações sobre a mesma são algo exageradas — há, todavia, consenso de que existe uma rede de comunicação entre as árvores; o debate é antes sobre qual a sua abrangência e sofisticação.

Claro que, numa cidade, haverá necessidade de existirem árvores isoladas, ao longo de ruas e passeios ou na separação das vias rodoviárias. Estas árvores não são um luxo decorativo: são importantes porque criam zonas de sombra para peões e ciclistas e porque ajudam a diminuir os níveis de dióxido de carbono mais elevados nos locais de circulação de veículos automóveis. Mas, nas cidades do futuro, vai ser necessário fazer mais. Num contexto de mudança climática, com ondas de calor cada vez mais severas, frequentes e prolongadas, as árvores e os espaços verdes assumem uma grande importância.

Em Braga, foram-se acumulando, ao longo dos anos, decisões que revelam uma preocupante desvalorização dos espaços verdes e da arborização urbana. No centro histórico, os espaços verdes são escassos: as podas negligentes foram notícia nacional(3), uma área verde pública, junto ao Braga Parque, foi alienada em favor da construção de um projecto privado, numa localização complexa do ponto de vista hidrogeológico, num processo pouco claro e que motivou mesmo uma petição por parte de um conjunto de moradores da zona; o abate de árvores foi mais ou menos uma constante, citando-se aqui apenas o exemplo da Avenida dos Lusíadas com as nefastas consequências que todos hoje sentimos. Mesmo aceitando que algumas das espécies arbóreas plantadas no passado não eram a melhor opção para alguns locais — algumas pretensamente conflituam com infraestruturas como redes de abastecimento subterrâneas, passeios e ciclovias — abatê-las não é a melhor opção. Existem, certamente, alternativas a esta solução drástica. Ao fim e ao cabo, as árvores são seres vivos...

Recentemente, esta tendência parece ter vindo a inverter-se, com a tentativa mais ou menos bem-sucedida de erradicação de espécies invasoras no Monte do Picoto, a plantação de árvores de espécies autóctones em algumas freguesias do concelho, o anúncio da criação do parque ecológico do rio Este e do parque verde público nos terrenos da Quinta da Arcela, em Lamaçães. A revisão do Plano Director Municipal (PDM) de Braga, recentemente publicada, confirma que cerca de 4 hectares da Quinta da Arcela terão esse destino. Mas, por enquanto, os terrenos em causa, com excepção dos edifícios da antiga Estação Agrária, que já transitaram para a Câmara Municipal de Braga, pertencem ainda ao Ministério das Finanças.

Espaço Verde (EV) previsto para o Parque Verde da Quinta da Arcela
Área verde existente junto à antiga Estação Agrária da Quinta da Arcela


O parque da Quinta da Arcela é uma excelente oportunidade para Braga ter um pequeno bosque no interior da cidade, no qual as árvores, vivendo em conjunto, são mais resistentes e saudáveis, desempenhando melhor uma série de funções que são altamente benéficas para quem vive em meio urbano: melhoria da qualidade do ar, armazenamento e captura de carbono, diminuição do escoamento das águas pluviais contribuindo para reduzir situações de cheia, atenuação das “ilhas de calor urbano” devido à sombra e ao processo de evapotranspiração que ajuda a reduzir a temperatura ambiente e contribui para a redução dos consumos energéticos, etc.

As iniciativas acima enunciadas, com destaque para o parque da Quinta da Arcela, estão contempladas no Plano Municipal de Acção Climática de Braga (PMAC): devemos agora estar atentos à sua concretização com a maior celeridade possível, de modo a que não se caia numa situação idêntica à do parque das Sete Fontes, que parece não ter fim à vista.

Haja vontade política... Se Braga pretende ser verdadeiramente uma cidade moderna e ecológica, tem que integrar ambiente e urbanismo, habitação e espaços verdes, bosques e mobilidade suave, biodiversidade e água. Defender as árvores é defender a saúde pública, o equilíbrio ambiental e o futuro das cidades.

                                                                                   Teresa Salomé Mota

        (Associada da ASPA)


A Quinta da Arcela é uma das parcelas referidas na Resolução do Conselho de Ministros nº117/2025, de 11 de agosto, que prevê a permuta de bens entre o Estado e a CIM Cávado, no sentido de o Palácio dos Biscainhos passar da tutela da CIM Cávado para o Estado, enquanto que o Recolhimento das Convertidas, o Recolhimento da Caridade, a antiga Escola D. Luís de Castro, a Quinta do Vilar e outros bens, passam para a tutela da CIM Cávado. Estranha-se que a permuta tarde a ser concretizada: enquanto o Palácio dos Biscainhos vai resplandecendo, fruto de investimento realizado, o Recolhimento das Convertidas vai definhando, fruto da inércia do Governo.

Também se estranha que a área verde disponível da Quinta da Arcela, que motivou uma petição lançada por moradores, não seja totalmente integrada no futuro Parque Verde. Espera-se que o bosque existente seja associado a um Centro Interpretativo de Lamaçães, a criar nos edifícios existentes – antiga Estação Agrária, tanque e fontanário (inventariado em PDM), etc. – de modo a garantir o conhecimento sobre esta área, por quem a habita, através de memórias rurais associadas às antigas quintas.  

                                                                                                  ASPA 

           

quarta-feira, 27 de maio de 2026

VISITA GUIADA AO MUSEU DA ESCOLA SECUNDÁRIA SÁ DE MIRANDA (MESM)


 

Esta é uma oportunidade para conhecer instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal. Trata-se de um acervo multidisciplinar, que reune materiais diversificados, sendo o mais antigo de 1858.   



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terça-feira, 19 de maio de 2026

ENTRE ASPAS: O Enterro da Gata, uma criação dos estudantes do Liceu de Braga, entre a festa e a contestação política e social


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O Enterro da Gata foi uma criação original dos estudantes do liceu de Braga.


Este estabelecimento de ensino, que entrou formalmente em funcionamento em 1845 nas instalações do antigo convento dos Congregados, foi, desde o início, frequentado por várias centenas de alunos, na sua grande maioria filhos de membros das várias camadas das burguesias urbana e rural e de elementos da nobreza. Estes estudantes, provenientes principalmente de todo o Minho e de Trás-os-Montes, contribuíram para a transformação da paisagem humana e comercial de Braga, passando a desempenhar um papel relevante no campo cultural e abrindo a cidade a um novo tipo de boémia. Assim, bastantes deles, quando fora das aulas, viviam nas ruas, nos cafés, ou nos botequins, cavaqueavam, ou jogavam bilhar. Iam, pelo menos os mais endinheirados, ao teatro, ou, a partir do início do século XX, ao cinema e a bailes, em casas particulares, ou nos clubes da elite local. Faziam serenatas e, através das tunas que organizavam, davam espetáculos, deslocando-se, por vezes, em tournée a diversas povoações de Portugal e do norte de Espanha. Vagabundeavam noturnamente pelas ruas, perturbando o sono dos habitantes, embriagavam-se em tabernas e, muitos deles, visitavam os bordéis das toleradas, ou os mais ocultos, só acessíveis aos social e economicamente poderosos.

 

A 2 de junho de 1889, o jornal Aurora do Minho noticiava: “Na sexta-feira de tarde os escolares do Liceu de Braga, em grande número e em préstito aparatoso de luto, foram enterrar o ano letivo a S. João da Ponte - nas fraldas do monte do Picoto.

Transitaram silenciosos desde a frente do liceu […] até ao local destinado para as cerimónias lutuosas.

Levavam uma gata preta num caixão gracioso de papel acartonado, exornado com coroas de cabos de cebola e réstias de alhos.

O turíbulo do incenso era uma tigela de louça de Prado, com apropriados cordões e enfeites de aparato lúgubre.

No local das cerimónias mortuárias houve discursos facetos de vários escolares, alusivos à gata que se enterrava, e eles auspiciavam galharda e risonhamente, como proteção às gatas que nos exames os poderiam reprovar.

Foi um enterro chistoso e novo na espécie aqui em Braga.


Este artigo de jornal revela vários aspetos que se vão manter ao longo dos oitenta anos que o Enterro da Gata, na sua primeira versão, durou e que, em boa medida, na sua atual forma, após a sua apropriação pelos estudantes da Universidade do Minho, se mantêm. Assim, o cortejo, com o seu desfile, o seu cómico cariz fúnebre e exorcizador das reprovações corporizadas na gata e os finais discursos estudantis, que se vieram a transformar na ritual proclamação do Testamento da Gata.   

Desde o fim do século XIX que há notícias dispersas de que na parte final do desfile este testamento era lido. Este documento sempre foi de crítica, inicialmente aos próprios estudantes e seus professores, evoluindo depois para uma crítica social e política às instituições e figuras da cidade e do país. Posteriormente, com a implantação do Fascismo salazarista, passou a ser exercida a censura sobre o texto e os quadros do próprio cortejo por parte de professores mandatados pelos reitores.

Em 1935 o Enterro foi proibido porque era impossível para as autoridades do Estado Novo, reitor incluído, controlar um cortejo que representava a alegria, a liberdade de expressão e a crítica mordaz dos estudantes do então Liceu Sá de Miranda. Mesmo entre eles, alguns, os que então dirigiam a Academia, colaboraram nessa proibição.

Em 1959, por razões não apuradas, foi autorizado o seu reatamento. Neste período, aquele que para o qual existe muita documentação, os testamentos tornaram-se, apesar da já referida censura, que nem sempre era respeitada nos momentos da leitura, em armas de contestação política ao Estado Novo e aos seus dirigentes locais, com textos de qualidade literária assinalável, destacando-se vários da autoria de José Manuel Mendes. Essa contestação também era visível em alguns dos quadros e dizeres exibidos no cortejo.

Muitos dos cartazes anunciando o Enterro, particularmente neste período, revelam uma saliente qualidade artística.

Em 1967 o Enterro não se realizou, por decisão do Conselho Pedagógico e Disciplinar do Liceu por respeito para com a doença do reitor Feliciano Ramos e, depois, por proibição liminar do mesmo Conselho, “ponderados os inconvenientes de toda a ordem que trazem essas festas” como é afirmado na sua reunião de 26 de janeiro de 1968. Nos dois anos seguintes o Enterro decorre novamente, mas em 1971 numa reunião geral da Academia Bracarense é decido não voltar a organizar os festejos, enquanto o Estado Novo não mudasse a sua natureza corporativa e imperial. Este foi o muito significativo ato final que pôs termo ao Enterro da Gata, enquanto ritual de manifestação pública dos estudantes liceais bracarenses.

 

Rodrigo Azevedo

segunda-feira, 4 de maio de 2026

ENTRE ASPAS: A marca de Picasso na Leica de Henrique Manuel


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Da amizade e admiração mútua resgata-se sempre a grata memória, isto porque a partilha dos afetos traduz-se sempre em bem-estar comum que todos podem desfrutar. Esta é a essência do património cultural. Vem a feliz rememoração a propósito do nosso amigo de infância Henrique Dreyer – assim conhecido pelo nome de sua Mãe desde os tempos do Liceu – há dias ter partilhado connosco o artigo de Paula Figueiredo (CMLisboa), na “Descendências Magazine” (Ed. 63, mar.2026), um texto evocativo do reconhecido fotógrafo e filantropo Henrique Manuel Botelho (1909-1990), bracarense de adoção, que está representado hoje no acervo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. 

A nossa Braga sempre foi um cais, ainda que seco, de muitas partidas e chegadas, de longo curso e de surpreendentes adventos, ligando distâncias remotas, gentes e aventuras improváveis, e tantas vezes revelando protagonistas imprevistos.

O texto, “Pela Lente de Henrique Manuel Botelho” enaltece a obra fotográfica de um autor ainda hoje pouco conhecido, nascido em Vila Pouca de Aguiar no início do século passado, que discorreu pela amplitude do mundo, desde o Alvão e Alturas do Barroso, expedicionando pela hoje tão cobiçada Gronelândia, passando pelo cosmopolitismo das grandes capitais, seus salões e os cabarets parisienses, até ao contacto com as maiores celebridades da época, com quem privou, até “atracar” em Braga, em meados  dos anos de 1950. Qual navegante que trilhou os sete mares, aqui se estabeleceu com a Família, desenvolvendo uma atividade de antiquário até ao final da vida, ligado aos livros raros, às gravuras e aos mapas. Aquele transmontano contador de histórias fantásticas, na pequena cidade clerical de província, no País de nevoeiros.

Mas, mais do que o amador da cousa amada, a sensibilidade, a acuidade do seu olhar, e certamente, também, a influência de seu primo, o reputado fotógrafo e comandante naval, António José Martins, bem como, incontornavelmente, as amizades que travou ao longo da vida e pelo mundo das artes e da cultura, nos ajudam a compreender melhor o artista. Do plano da vivência internacional, releve-se a proximidade a figuras como Pablo Picasso (1954), o realizador italiano Roberto Rossellini e a atriz americana Shirley Temple, com quem privou. No Portugal enclausurado do regime ditatorial e da grande guerra, de que mentalmente se libertou, conviveu com as nossas vedetas, como as grandes atrizes, Laura Alves e Beatriz Costa, ou ainda, a erudita violoncelista portuense, Madalena Sá e Costa, bem como o distinto ceramista Jorge Colaço, e tantos outros com quem interagiu e fotografou, sobretudo, entre as décadas de trinta e cinquenta. São tudo razões ponderáveis que nos explicam o autodidatismo apurado e que marcam indelevelmente a elevada competência técnica e artística que desenvolveu.

Pessoalmente, salientaríamos a expressividade do objeto e a diversidade dos temas da sua obra fotográfica. Arriscaríamos mesmo, relevar o trabalho de modulação contrastante na iluminação da maior parte das suas imagens, o jogo dramatizado de claros e escuros, especialmente conseguido nos espécimes a preto & branco. Mas foi pelo ecletismo experimental dos estilos e das técnicas, das opções estéticas e da variedade dos motivos que captou, que tornam único o trabalho de Henrique Manuel. Que melhor nos ajudam a perceber o modo como suplantou o estatuto primordial de amador. Como nota, A. Pomar (2002) desde “o mais acabado gosto tardopictural do ruralismo nacional”, imbrincado à época do Estado Novo, de fortes ligações à terra, pelas personagens e pela paisagem, à expressividade do retrato, ao documento etnográfico dos costumes, aos ensaios modernistas de alguns enquadramentos, mesmo da experiência da cor até à inscrição cinematográfica do seu único filme conhecido, “Porto, Cidade Remota e Pitoresca”. Revelam-se igualmente a variação de escala, que se espraia entre as naturezas-mortas, os horizontes com alinhamentos de árvores, os caminhos, numa única expressão, a paisagem cultural. Mais não bastasse, ao classicismo temático o autor juntou o pioneirismo do nu artístico feminino em Portugal. Abordagem que o coloca numa trajetória única, desvinculado de grupos, correntes, permitindo-lhe a esse propósito fazer improváveis considerações comparativas como aquela que compara a mulher portuguesa, “precocemente emurchecida”, à “graciosidade das gentis desportistas alemãs ou norte-americanas”, modelos por natureza.

Ora, foi precisamente em Braga, em setembro de 2002 - vai fazer 25 anos! - que o então Museu da Imagem resgatou do esquecimento Henrique Manuel e o essencial da sua obra, com uma Exposição de “fotografias” coordenada por Rui Prata e Isa Dreyer-Botelho, filha do artista e também fotógrafa. Esta exposição, com uma réplica nesse mesmo ano em Lisboa, foi acompanhada por um digno catálogo prefaciado por Margarida Medeiros, de cuja capa se recuperou a imagem com técnica a bromóleo, “Perfil judaico”, a mesma que anos antes cumprira essa finalidade na Foto Revista, dirigida por A. Cunha Machado entre 1937 e 1939.

Henrique Manuel Botelho começou por se revelar na década de trinta do século XX, precisamente através da colaboração que manteve com a imprensa ilustrada, sendo particularmente notado na capital por participar nos dois primeiros salões internacionais de arte fotográfica (1937 e 38). Desde então mereceu reconhecimento no estrangeiro, ganhou prémios, e fez contactos frequentes por essa Europa fora, tendo vindo a casar com uma jovem austríaca, de quem teve dois filhos. Ao mesmo tempo nunca esqueceu as suas raízes transmontanas, vindo a promover a fotografia artística em Vidago e Pedras Salgadas onde, para lá do seu próprio chalé de vendas sazonais, deixou particular memória de cosmopolitismo na exposição de meia centena de fotografias no Vidago Palace, em 1937, repetindo mais tarde, no Casino das Pedras, em 1952, participando assim, ativamente, da difusão da modernidade no interior norte do País.

Enfim, um grato abraço ao Henrique Dreyer-Botelho por esta oportuna partilha, que nos permitiu revisitar o rico património cultural da fotografia em Braga, percorrer pela mão de seu Pai, Henrique Manuel Botelho, um itinerário artístico português. Curiosamente, também, na feliz coincidência da recente homenagem a Henrique Botelho (1956-2024), médico e fotógrafo homónimo, também ele radicado em Braga, há dias celebrado com a publicação de um livro retrospetivo – Meia Vida - organizado por Alfredo Cunha (DST, 2026).

É verdade, ainda que se conheceram nesta cidade, que permanentemente não para de nos surpreender com as suas histórias, que nos une para lá dos tempos numa irmandade comum, sentido final do nosso património cultural que vale a pena insistentemente cultivar, preservar e revisitar. Porque, afinal, o que importa mesmo são as pessoas… São os pequenos retalhos luminosos prenhes de intemporalidade e de arte como a que o(s) Henrique(s) Botelho(s) tão generosamente nos oferece(m).

Miguel S. M. Bandeira

Associado da ASPA

segunda-feira, 20 de abril de 2026

ENTRE ASPAS: "Fragmentos de Identidade: o piso, único, que sobreviveu à destruição de um castro"


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Na sequência do texto publicado no dia 5 de abril, sobre o Castro Máximo, importa agora lembrar a única estrutura salva da destruição de 2001, no âmbito da construção do Estádio de Braga para o EURO 2004. A única anterior à época romana, que até agora foi possível preservar deste sítio arqueológico. 


Piso de uma habitação da Idade do Ferro

Este resto de piso decorado, com motivos geométricos, entre outros, foi encontrado no interior de uma estrutura arredondada, datável da Idade do Ferro, no sopé do Monte Castro. Importa clarificar um dado importante: é raro - mesmo muito raro - surgirem fragmentos e restos daquilo que se costuma chamar de material de construção, datável da Idade do Ferro. Para a época romana temos centenas de milhares de tégulas, imbrex, tijolos e outros elementos que faziam parte das construções e coberturas das estruturas romanas. Ora para a época anterior a Idade do Ferro, ou época castreja, o que podemos registar, em alguns casos, são pequenos fragmentos de reboco de parede (alguns decorados) que poderiam cobrir a parte interna das estruturas ou, ainda, restos pequenos de pisos. Estes fragmentos podem ter 5 ou 10 cm de comprimento, com alguma sorte.

Felizmente, para nós, o piso1 retirado do Castro Máximo é um exemplar único e absolutamente ímpar na arqueologia do noroeste português e - arrisco a dizê-lo - do norte de Portugal. Explico porquê:

  • Em primeiro lugar estava quase todo preservado in situ. Isso significa que estava no seu local original, quase intacto, algo que para quem estuda a Idade do Ferro não é de todo comum.
  • Em segundo lugar, trata-se de um piso ricamente decorado. Conhecem-se muitos fragmentos decorados em muitos outros povoados do mesmo período, mas de pequenas dimensões, não se conseguindo, por isso, grande leitura sobre a organização dos motivos decorativos, quando estes fragmentos estão decorados, o que é algo raro. Não é esse o caso, aqui.

De facto, este piso em argila cozida encontra-se decorado em quase toda a sua superfície. Esta não é uma simples superfície de barro cozido, mas sim uma obra de geometria e beleza intemporal. Imagine um 'tapete' de argila cozida, onde a mão de um artista da Idade do Ferro traçou um retângulo dominante, subdividido em quatro campos quadrangulares e, a emoldurar esta composição, a icónica 'espinha de peixe' — muito comum na cerâmica da Idade do Ferro —, que confere dinamismo ao conjunto. No interior de cada quadrado, o simbolismo ganha vida: meias-luas alternam com círculos perfurados, criando um ritmo visual que transforma o que seria um simples chão num espaço de arte e, porque não, de prestígio para quem o habitava.

Um piso a valorizar

Perante tamanha riqueza visual e importância científica, é incompreensível que este objeto, que é testemunho de modos de construção da Idade do Ferro, passe quase despercebido no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, desde 2007, na sala 1, sendo apresentado como mais um vestígio arqueológico. Porém, nota-se que a legendagem/informação sobre este extraordinário testemunho dos Brácaros continua em falta.

Quem observa esta peça no museu não sabe de onde veio, que uso teve, quem a usou e em que época, quais as dificuldades relativas à sua conservação, qual o processo de levantamento e retirada do seu contexto original...com o objetivo da sua salvaguarda e preservação. Assim, esta peça passa quase despercebida.

Reitero o que tenho dito em variados fóruns: se as pessoas não sabem o que estão a ver num espaço museológico, porque não lhes é facultada informação sobre cada peça exposta, corre-se o risco de o material não ter relevância histórica nem patrimonial e ser interpretado como algo sem importância, como se de ruído se tratasse. Num Museu de Arqueologia é essencial disponibilizar informação de forma acessível, sobre cada objeto, especificando a sua função, localização original e contexto em que foi descoberto, de modo a que o cidadão comum sinta curiosidade pela descoberta do seu próprio passado. Os museus, sobretudo os de arqueologia, têm o dever de democratizar o acesso ao conhecimento e à cultura.

 

Um objeto, sem história explicada, é apenas uma “pedra” muda. Mas, se for explicado o seu uso, a localização e o contexto em que foi encontrada, através de uma narrativa atrativa, que apele à imaginação, a “pedra” dá Voz aos nossos antepassados, neste caso as populações pré-romanas que habitaram Braga, pelo menos, desde o séc. III a I a.C.

 

Esta “pedra” é, realmente, parte do piso de uma habitação com cerca de 2300 anos, que foi salvo, ao contrário de outras estruturas, para construir um Estádio para o EURO 2004.

Nuno Oliveira

Arqueólogo. Investigador.

 

1 piso retirado do Castro Máximo e pormenor da decoração.


Em Braga temos vários testemunhos da Idade do Ferro ou “Cultura Castreja” - Castro de Santa Marta das Cortiças (Falperra), o Castro Máximo (São Vicente), o Castro do Monte das Caldas (Gondizalves), o Castro do Monte Redondo (Guizande e S. Pedro de Oliveira) e o Castro do Monte da Consolação (Nogueiró).  Deste último temos, apenas, placas a referir a existência de estruturas, contudo nunca foi escavado.

Ou seja, não temos um povoado fortificado, vulgo castro, para apresentar a residentes e a turistas! De resto, o que temos é uma série de percursos pedestres que passam por alguns sítios arqueológicos de Braga.

Esperamos que, em breve, seja estabelecido um calendário tendo em vista o estudo, conservação e abertura ao público de, pelo menos, um Castro. Qual será o primeiro?

Uma intervenção recente, realizada no Castro de Sabroso, em Guimarães, é um bom exemplo para Braga.