INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2023 comemorou 46 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

ENTRE ASPAS "Lavadouros públicos - Espaços de memória do urbano e do rural"


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Os lavadouros, fontanários e tanques de rega estão intrinsecamente ligados ao uso quotidiano da água e ao encontro de várias gerações, sobretudo antes da sua distribuição ao domicílio. Desde finais do séc. XIX / princípios do séc. XX eram utilizados pela população, substituindo os rios, onde as mulheres iam lavar a roupa. Em Portugal como na generalidade dos países do sul da Europa.

O filme “A Aldeia da Roupa Branca” (1939), com a famosa Beatriz Costa, conta-nos o dia-a-dia e a vida das lavadeiras da periferia de Lisboa, fazendo-nos entrar abertamente no domínio da vida popular, dos seus costumes, saberes e formas de estar…

A água surge-nos como elemento marcadamente feminino: lavar, cozinhar e cuidar. Ir à procura das mulheres é ir à procura dos espaços públicos do seu quotidiano como os lavadouros e fontanários. São lugares de trabalho, mas também locais que as libertam do fechado espaço doméstico e familiar, onde interagem com outras mulheres da vizinhança, permitindo-lhes a sociabilidade que a taberna e, mais tarde, os cafés reservavam aos homens. São os seus locais de permanência no espaço exterior, de socialização, que utilizam para trocar opiniões, discutir, pedir conselhos ou escutar e alimentar os falatórios da sua comunidade. Não sendo bem-vindas nos cafés nem as ruas feitas para a sua permanência, as mulheres das classes populares, tendo de sustentar as necessidades das crianças e da sua família, fazem também funcionar a cidade nos locais que lhes são atribuídos.

Limitadas no exercício dos seus direitos cívicos, era no espaço ambivalente do trabalho doméstico e da sociabilidade feminina que se modelava socialmente a vida das pessoas, com verdades e mentiras, inúmeras vezes como se de tribunais populares se tratasse, apesar da ausência do réu…

Sendo uma representação física da desigualdade entre homens e mulheres no espaço público, os lavadouros eram uma presença marcante da vida da comunidade e uma manifestação do funcionamento das suas dinâmicas sociais. São cenários de esforço físico, mas também de reprodução da maternidade, permitindo a guarda de crianças e a sociabilização.

Se, inicialmente, as lavadeiras iam lavar nos rios ou nas bacias de água alimentadas por fontes, em condições pouco confortáveis e higiénicas, com o passar do tempo foram-se estabelecendo regulamentos e construídos lavadouros públicos com melhores condições, alguns com cobertura, proteções contra o vento ou mesmo recintos individualizados no espaço comum. Trata-se de uma consciência coletiva que se foi afirmando e reivindicando, nomeadamente na imprensa local, e à qual os municípios tiveram de responder.

 

O bacilo da tuberculose tornou-se um motor de preocupações de que nos dá eco a imprensa local a partir dos primórdios do séc. XX. As páginas dos jornais enchem-se de queixas quanto ao abastecimento de água, à falta de esgotos e aos cheiros fétidos que provinham das fossas fixas.

A partir da segunda metade do séc. XX, estes lugares de higiene pública e convivência comunitária começam a diminuir, mas a lavagem da roupa à mão continua a ser uma prática ao longo do século. Os bairros sociais, dos anos 50 e 60, incentivam o papel da mulher tradicional e das suas práticas. Constroem-se lavadouros e secadouros nestes bairros, que continuam a ser os lugares privilegiados de sociabilização das mulheres. Mesmo com a revolução do 25 de abril de 1974, que trouxe uma transformação radical aos direitos das mulheres e da sociedade portuguesa em geral, o abandono dos lavadouros de uso público e dos tanques no espaço doméstico foi lento e progressivo. Situações de crise como a que se viveu em 2008, em que se tornou necessário poupar água e luz, vieram-nos recordar que a todo o momento poderemos voltar a retomar estas práticas e estes equipamentos.

A criação de lavandarias automáticas, sobretudo para estudantes, hotéis, turistas e habitantes, é recente. Os lavadouros públicos e os tanques domésticos foram dando lugar às máquinas de lavar, primeiro unifamiliares, depois coletivas e automáticas. Mas, ainda assim, os novos espaços vão-se tornando igualmente locais de reencontro e, de alguma forma, trazem de novo o trabalho doméstico para o espaço público. Agora como espaços mistos, já sem a divisão do trabalho pelo género, ao contrário dos lavadouros públicos onde a presença masculina podia existir, mas apenas de modo excepcional. Como aquela memória contada num lavadouro do nosso concelho, de um viúvo que ia também lavar a sua roupa, pondo a gravata por cima do ombro para não a molhar…

 

Os lavadouros públicos, hoje maioritariamente abandonados, são locais do nosso património cultural que remetem a vínculos e à memória popular das mulheres e das crianças que as acompanhavam. São espaços de outro tempo económico, testemunhos de vivências que já não existem, mas que estão presentes nas memórias e nos afetos que constituem a verdadeira alma desses lugares. São documentos de uma história maioritariamente oral, que tendem a desaparecer com o crescimento das cidades, o turismo e as pessoas mais idosas. Por isso importa falar com elas e compreender as suas memórias, dar valor a estes espaços comunitários que tendem a ser esquecidos.

A preservação das memórias dos lavadouros públicos representa um novo modo de qualificar a transformação urbana, apelando à recuperação dos valores que lhes estão ligados. Podem aí realizar-se performances artísticas, pela ligação dos lavadouros às artes e à comunidade, como as fotos o demonstram. A sua recuperação tem de ser bem pensada, e está a sê-lo com acção da empresa de águas AGERE, das juntas de freguesia e de outros organismos públicos. Saliente-se a inventariação e estudo promovido e coordenado pela Fundação Bracara Augusta, em colaboração com a Univ. do Minho. Urge conservar estes espaços que valorizam a presença da água, dando-lhes novos usos, com programas públicos que envolvam jardins-de-infância, escolas ou lares seniores. Há todo um trabalho à volta destes espaços, como modo de registar e arquivar os testemunhos, frágeis, em vias de desaparecimento, mas que são essenciais para compreender a construção e a evolução da cidade, nas suas componentes materiais e imateriais. Mais não bastasse, é uma forma de trazer à luz a presença esquecida das mulheres no espaço público e a sua contribuição na vida urbana.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

ENTRE ASPAS "RECOLHIMENTO DAS CONVERTIDAS. Um imperativo de consciência pela defesa do património cultural"

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Em março de 2019, como elemento do Conselho Estratégico para a Regeneração Urbana de Braga (CERPUB), a ASPA manifestou-se negativamente no que diz respeito à solução arquitetónica e urbanística constante do Pedido de Informação Previa (PIP) do Hotel Plaza Central, designação inicial do hotel. Enviou as razões da decisão ao senhor Presidente da Câmara Municipal de Braga, e partilhou através de um “entre aspas”, publicado a 29 de abril de 2019. Foram várias as tomadas de posição e “entre aspas”, de 2019 a 2024, sob o ponto de vista patrimonial e ambiental.


Era uma vez uma cidade que vai ser capital portuguesa da cultura (2025) e que é candidata a capital verde europeia (2026). Que tem um monumento barroco, da primeira metade do século XVIII - Recolhimento de Santa Maria Madalena ou das Convertidas - na sua praça mais central, classificado de interesse público.

Nesta cidade, conhecida por “Capital do Barroco”, assistimos à construção de uma unidade hoteleira de volumetria desproporcionada e pastiche, contigua ao monumento, a poucos metros da sua Cerca e em plena Zona Especial de Proteção. ZEP que, segundo a Portaria nº 665/2012, de 7 de novembro, “tem em consideração a sua implantação numa área da cidade perfeitamente consolidada, onde outros edifícios com interesse arquitetónico contribuem para a valorização do imóvel e a sua fixação visa salvaguardar alguns dos imóveis da frente urbana da Avenida Central, bem como toda a Rua de São Gonçalo que, por ser bastante estreita, estabelece uma relação direta com o imóvel.”.

 

Que exemplaridade pode esta cidade dar aos seus jovens, às entidades avaliadoras europeias do património e ambiente, e à cidadania, com uma obra paredes meias com um monumento protegido e que motivou pedido de embargo da DRCN (junto da CMB)? Obra que impermeabilizou parte deste quarteirão urbano e irá aumentar a concentração de trânsito no centro histórico, apesar de a cidade se ter comprometido a reduzir as emissões de CO2 em 55%, até 2030!

 

Onde está o jardim interior que constitui área de cedência pública ao Município mas, para o qual, não existe acesso desde início? Será que o único objetivo é a intenção de desmembrar a Cerca do Recolhimento para dar servidão à logística do hotel, através da rua de S. Gonçalo, com apropriação de património cultural público?! Essa intenção não nos passou despercebida no projeto inicial, que também anunciava 110 quartos e 35 lugares de garagem, entre outros espaços habituais numa unidade hoteleira desta dimensão.

Depois do erro urbanístico consumado, será que o edificador tem em vista tornar-se num generoso mecenas, prontificando-se a fazer aquilo que as entidades públicas não foram capazes de fazer até agora? Desejará o monumento, ou parte dele, para tornar mais “in” a oferta hoteleira que edificou com entrada junto à Capela do monumento?! Isso seria mais um atentado ao património de todos os bracarenses, uma feia reescrita da história em pretender apagar a memória da condição feminina e a luta dura das mulheres pela sua dignidade e emancipação!

 

O Recolhimento revela deterioração, visível do exterior, o que obrigou à caridade dos hoteleiros meeiros em caiar uma parede para a fotografia da cerimónia da inauguração. Esqueceram a outra parede?!

Perturba, porque recorda a pobreza de que ainda há memória, a miséria feminina desprotegida, mas sobretudo, a exploração da mulher aos níveis mais baixos que a história nos testemunha. As Convertidas são uma memória viva e continuada de um passado que não pode ser mitigado ou esquecido. De facto, a pobreza recorda-nos a população mais desprotegida, nomeadamente doentes, crianças e mulheres carenciadas; não casa bem com a hotelaria, pois sabemos que a magia dos hotéis é fazer-nos sentir ricos e bem tratados.

 

Quem habita esta cidade saberá que o valor do Recolhimento das Convertidas, a Capela de São Gonçalo e a Cerca e os seus altos muros valem por todo o seu conjunto? Uma integralidade à qual deve ser adicionada a intangibilidade da memória constituída pela sua função contínua de cerca de 300 anos! Importa lembrar que este conjunto é uma pérola do barroco conventual, único em Portugal e, por isso mesmo, o Estado Português lhe atribuiu a classificação de Monumento de Interesse Público.

Os corredores estreitos e as celas exíguas, bem como o coro-alto, separado por crivaria, onde as mulheres assistiam à missa que decorria na Capela de São Gonçalo, sem serem vistas, permite-nos construir um imaginário de vivências dessas mulheres, desde o início do séc. XVIII, que estavam afastadas da vida urbana que rolava fora de muros. O seu quotidiano, bem como o isolamento a que estavam sujeitas, e o modo como ocupavam a sequência de dias e noites, têm sido motivo de estudo por académicos e artistas.  Toda uma atmosfera frágil que gera um ambiente único, mesmo a nível europeu, permitindo aos visitantes viajar no tempo, sentirem-se privilegiados por poder desfrutar, também, desse património imaterial, que nenhuma simulação, multimédia, ou artificialidade hoteleira é capaz de substituir.

O termo “Convertidas” está, pois, associado a sofrimento, tristeza e isolamento!

 

Desafiamos cada bracarense a chegar às suas próprias conclusões.

Neste momento será possível afirmar que a ZEP foi respeitada?

Será possível afirmar que foi respeitada a segurança, integridade e monumentalidade, bem como a cércea do Recolhimento das Convertidas?

A Capela de São Gonçalo encontra-se segura? Então, porque motivo ainda não são permitidas as visitas?

 

Lembramos que compete ao atual Executivo Municipal e ao Património Cultural, I.P., respeitar a classificação desta pérola do barroco conventual.

 

A defesa do Recolhimento das Convertidas, da Capela de São Gonçalo e da Cerca de muros altos que protege este conjunto com distinção de âmbito nacional, é um sonho de muitos bracarenses. O monumento é património dos bracarenses e de Portugal, constituindo um genuíno repositório da história da exploração da mulher, pelo que deve ser preservado pela sua memória material e imaterial para resgate às futuras gerações.

Salvemos o nosso património!