INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Das dinâmicas culturais à cidadania ativa"

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Se Braga 25 mostrou uma cidade com público para a cultura, falta agora que a cidade e quem a governa aproveite o impulso para fazer de Braga não apenas um município relevante no panorama cultural português, mas também um exemplo de cidadania ativa. Esperando ainda por um balanço mais rigoroso e afinado no detalhe, os números já divulgados mostram que a Equipa de Missão respondeu ao desafio – pelo menos em quantidade, já que a qualidade é sempre aferida pelo critério de cada um de nós. Sem entrar nesse juízo e em subjetividades desnecessárias neste contexto, cumpre reconhecer que o milhão e meio de espetadores apontados como tendo participado nas mil e duzentas atividades propostas, mostram que existe público para dar continuidade a uma programação cultural diversificada, orientada para diferentes públicos, tendencialmente descentralizada, ou seja, abarcado todo o município e com potencial polarizador para toda a região.


Prémio de consolação, é certo, mas nem por isso menos relevantes para as cidades que chegaram à reta final da escolha da Capital Europeia da Cultura 2027 – Aveiro, Braga e Ponta Delgada – o encargo de construir uma programação que cubra um ano inteiro de atividades culturais deve servir, a todas elas, como oportunidade de transformação. É importante, por isso, que se encontre forma de dar continuidade ao que se iniciou, única maneira de assegurar que a excecionalidade de uma nomeação como capital nacional da cultura abriu portas que não devem ser fechadas. Nos meses que se seguem veremos se Braga viveu um fogacho cultural singular ou se iniciou um processo que coloque a cidade na rota de eventos culturais contemporâneos, alguns com forte potencial disruptivo, condição que habitualmente desagrada aos poderes instituídos.

 

Em momentos de forte polarização como aquele que vivemos, a cultura tanto pode ser um espaço de encontro como de confronto. O que traça a bissetriz entre estes dois posicionamentos é o exercício de uma cidadania esclarecida, madura e interventiva, estando Braga longe de ser um exemplo neste campo. Sabendo que há, por certo, discordâncias, pela minha parte vejo pouca mobilização para a intervenção no espaço público, um associativismo bem abaixo de desejado numa cidade de média dimensão e políticas públicas que dão pouca voz à cidadania.

 

É em face deste cenário que o balanço da Braga 25 não se deve restringir ao que se fez, mas também ao modo de dar continuidade ao projeto. Não havendo rutura entre o atual executivo e o precedente, essa continuidade parece fácil de alcançar. Trata-se, no entanto, de uma ilusão de facilidade. As condições para que a cultura ocupe um lugar central na vida corrente do município, e não seja apenas um fogacho num ano de exceção, são de natureza política mais que económica. Só se conseguem com um executivo que acredite que o empoderamento que a cultura permite aos seus públicos não é uma ameaça, mas uma mais-valia para toda a comunidade. Quando consideramos as dezenas de projetos que se associaram à Braga 25 vemos uma diversidade que não converge nos propósitos ou nas metodologias, mas que ainda assim se alinham numa mesma dinâmica de intervenção e numa vontade comum de ganhar uma voz que se faça ouvir no espaço comum.

Para lá da oferta de espetáculos e exposições que cativaram centenas de milhares de espetadores, a Braga 25 foi o espelho de uma cidade que se projeta para uma ambição de cosmopolitismo, sabendo que por detrás desse mesmo espelho vive uma outra cidade, uma cidade onde prepondera um certo conservadorismo provinciano que a marcou durante décadas. Estas duas faces, que ora se confrontam ora se entrelaçam, não vão desaparecer, importando encontrar a fórmula certa para fazer de Braga um exemplo de equilíbrio tenso, e por isso fecundo, entre identidade e disponibilidade para o que é novo e diferente. Esse é o caderno de encargos que a Braga 25 deixou e que se espera que quem governa o município ajude a concretizar.

                                                                                Luís Cunha

O futuro...

“Abre a tua Porta e deixa entrar”, que foi o lema da Braga 25, constituiu um convite à participação e celebração da cultura, na rua e de forma partilhada.

Espera-se, pois, que esta Capital Portuguesa da Cultura tenha criado vínculos culturais capazes de cumprir a Estratégia Cultural de Braga 2020-2030, conhecida por Braga Cultura 2030, lançada como pilar do desenvolvimento sustentável, que teve em vista “democratizar o acesso à cultura, valorizar o património local e integrar a criação contemporânea”. Espera-se que, até 2030, se concretize, finalmente, a “revitalização de espaços culturais, a democratização do acesso à cultura e um investimento sustentado”, preparando um futuro em que a cultura tenha, realmente, impacto no quotidiano das crianças, jovens e adultos. Onde o património seja, finalmente, valorizado, respeitando a sua identidade e originalidade, transformando-o em equipamento capaz de receber atividades culturais de relevo, nomeadamente o Cinema S. Geraldo, a Ínsula das Carvalheiras, o Teatro Romano, o Estádio 1º de Maio, o Complexo das Sete Fontes e o prometido espaço museológico da Fábrica Confiança. Esperamos que seja, finalmente, protegido e salvaguardado o valioso património arquitetónico do séc. XVIII, XIX e XX, tanto as fachadas como o interior dos edifícios: caixa de escadas; lanternins e claraboias; estuques decorativos, frescos ou outras pinturas, elementos decorativos ou ornamentais em granito, pavimentos, escadarias e outros; murais; madeiramentos ornamentais de caixilharias; painéis de azulejos, etc.

terça-feira, 17 de junho de 2025

ENTRE ASPAS: "Arquitetura para a vizinhança"


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É justo dizer que a programação da Braga 25 tem olhando a cidade de forma ampla, procurando incluir bairros e periferias urbanas, e mesmo quando essa inclusão é mais retórica que efetiva não deixa de ser um avanço face às políticas culturais a que o município nos habituou.






O Festival de Arquitetura e Arte – Forma de Vizinhança insere-se nesse espírito de abrangência, propondo diferentes intervenções arquitetónicas que visam valorizar o espaço público em urbanizações que nos últimos cinquenta anos cresceram e modificaram a cidade. Tem curadoria e direção artística da Space Transcribers, sendo um dos promotores a empresa municipal FazCultura.

Coerente no conceito e generoso na extensão, o Festival conta com oito intervenções, que vão das Parretas à zona da Makro, das Fontainhas à Quinta da Capela, passando ainda pelo Fujacal, pelas Hortas Urbanas de S. Vicente, da Quinta da Armada e da Quinta da Lameira. Projetadas para decorrer entre junho e novembro do corrente ano, as intervenções foram pensadas num modelo dinâmico, com possibilidade de mudar de forma durante o processo, pelo que é prematuro ajuizar desde já o seu impacto. Tal como marcamos presença na cerimónia de abertura deste Festival, a ASPA não deixará de acompanhar o seu desenvolvimento.

Vale a pena sublinhar que um Festival com estas características se ajusta à ideia de uma cidade dinâmica, em movimento e transformação, contrariando aquela espécie de “provincianismo braguista” que demasiadas vezes enclausura a cidade no seu Centro Histórico, deleitando-se na contemplação nostálgica de uma imaginação de cidade que pouco tem a ver com a cidade real em que nos cabe viver. Ainda assim, dando como boa a ideia e o ponto de partida do projeto, há aspetos que merecem discussão e crítica.

Um primeiro aspeto tem a ver com o uso e abuso da retórica de participação. Sucedeu na cerimónia de apresentação do Festival, tanto pela voz dos curadores como no discurso de Olga Pereira, vereadora e representante do município. Proclamações contentes acerca do envolvimento e participação cidadã no projeto ou da auspiciosa devolução do espaço público às comunidades, soam bem a alguns e enganarão outros tantos, mas são manifestamente exageradas. Uma intervenção arquitetónica numa praça não devolve espaço à comunidade, apenas transforma o que já existia e era usado - nos melhores casos valorizando-o, nos piores casos enchendo-o de tralha e erguendo barreiras que não faziam ali falta nenhuma. Quanto à participação cidadã, reconheça-se a dificuldade: se em bairros onde existem associações ativas, sejam elas de moradores ou outras, a interlocução é possível, em bairros com elevada rotação de moradores e com baixos índices de participação em assuntos comuns, as dificuldades aumentam. Posso, neste ponto, servir como testemunha: enquanto habitante de um bairro contemplado por uma das obras arquitetónicas, em nenhum momento fui informado do projeto que ali estava em curso nem jamais fui convocado para discutir fosse o que fosse. Percebida a dificuldade, assinale-se o abuso retórico, mais grave por provir de um governo municipal que pouco fez nesta matéria, por exemplo dispensando-se de promover a criação de associações de moradores ou optando por um modelo de orçamento participativo que reduz o debate ao espaço virtual evitando os encontros e confrontos reais que fomentam a cidadania.

Ainda que decorra do primeiro, o segundo aspeto que gostaria de sublinhar é de natureza mais genérica, remetendo para a caracterização dos públicos da cultura que um evento como o Braga 25 pretende alcançar. Também aqui importa distinguir a retórica do que de facto acontece. Se o discurso produzido para o Festival de Arquitetura e Arte sublinha a abrangência, não é preciso um olhar especialmente atento para se perceber uma significativa homogeneidade no público que se dispôs a acompanhar a visita aos espaços intervencionados. Maioritariamente jovem e de look alternativo, poderia ser caracterizado por um alinhamento desalinhado, esdrúxulo conceito que pretende sinalizar um desalinhamento face à cidade tomada pelo capitalismo financeiro e um alinhamento com processos de gentrificação urbana, imaginando que dela há-de sair uma cidade mais verde, mais sustentável, mais humana. Claro que não há nenhum problema com este alinhamento, mas ele é revelador de como uma certa forma de promover cultura segmenta mais do que une. Importa que a Braga 25 seja uma oportunidade de criar um ecossistema cultural mais rico e diversificado, contrariando uma certa monocultura, na qual a proclamada abrangência e participação raramente sai do papel ou do discurso.

Reconheço a dificuldade em chegar a certos públicos, mas é justamente em razão dessa dificuldade que se deveria fazer caminho aproveitando o impulso da Braga 25. Claro está que a dificuldade em fazer chegar a alguns públicos mensagens mais complexas ou estruturadas não se esgota na cultura, sendo real também no ecossistema político. Se é verdade que este Festival dá um passo no sentido certo ao pensar uma cidade descentrada, é certo também que não se desviou um milímetro do urbano que constitui a malha consolidada da cidade, deixando intocadas as áreas problemáticas, aquelas onde a cidade se move por ação de agentes que não encaixam nem no perfil hipster de quem tem protagonismo no Festival, nem no perfil distanciado e neutro da média burguesia que habita os bairros intervencionados.

                                        Luis Cunha, Instituto de Ciências Sociais, U.M.