INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
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quarta-feira, 27 de maio de 2026

VISITA GUIADA AO MUSEU DA ESCOLA SECUNDÁRIA SÁ DE MIRANDA (MESM)


 

Esta é uma oportunidade para conhecer instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal. Trata-se de um acervo multidisciplinar, que reune materiais diversificados, sendo o mais antigo de 1858.   



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segunda-feira, 9 de março de 2026

ENTRE ASPAS: "Museu da Escola Sá de Miranda: Património Científico e Recurso Educativo"

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Enquadramento Histórico

O acervo do Museu da Escola Sá de Miranda (MESM) integra o património histórico acumulado desde a fundação do Liceu Nacional de Braga, em 1836, instalado no edifício dos Congregados e frequentado maioritariamente por jovens provenientes da burguesia rural e de concelhos limítrofes. Este espólio foi posteriormente enriquecido, em 1921, com a incorporação do conjunto de materiais provenientes do Colégio do Espírito Santo, que funcionara na atual localização da escola entre 1872 e 1910. A partir de 1921, o mesmo espaço passou a acolher o Liceu Sá de Miranda, assegurando a continuidade da sua vocação formativa e científica no quadro do ensino liceal português.

Na sequência das reformas educativas iniciadas em 1836, o ensino liceal conheceu um processo de modernização curricular marcado pela crescente valorização das ciências naturais, da física e da química. Apesar das limitações materiais que caracterizaram grande parte do século XIX, foram progressivamente instituídos gabinetes científicos dotados de instrumentos, coleções e dispositivos experimentais destinados à observação direta e à demonstração dos fenómenos naturais. É neste enquadramento institucional e pedagógico que se compreende a constituição do espólio atualmente preservado, cuja análise permite reconstituir práticas pedagógicas, orientações curriculares e dinâmicas de atualização científica no decurso da história do ensino liceal.

Acervo e Prática pedagógica experimental do Ensino Liceal

Ao longo de mais de um século, a Escola reuniu instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal, constituindo um acervo multidisciplinar, com objetos provenientes de fabricantes internacionais, que abrange domínios como biologia, física, química, geologia, paleontologia, geografia, eletrotecnia, etnografia, história, matemática e línguas. O exemplar mais antigo data de 1858, uma bobina de Ruhmkorff, testemunho da introdução precoce de dispositivos eletromagnéticos no ensino experimental.

O conjunto de materiais preservados evidencia a centralidade da observação direta e da demonstração experimental na cultura pedagógica liceal. Enquanto suportes materiais de ensino, estes recursos testemunham o papel da experimentação e da visualização na construção e transmissão do conhecimento científico em contexto escolar.

Atualmente, o MESM integra cerca de 900 objetos inventariados e 1040 mapas parietais, constituindo um conjunto representativo da cultura material do ensino experimental em Portugal. O processo de inventariação encontra-se ainda em desenvolvimento, prevendo-se a documentação de um número significativo de itens ainda não tratados museologicamente. No seu conjunto, o espólio constitui um sistema material de mediação do conhecimento científico, documentando a consolidação e institucionalização do ensino experimental entre os séculos XIX e XX.

Processo de musealização

Instituído em 2010, na sequência da requalificação do edifício escolar, o MESM visa assegurar a conservação, estudo e valorização do seu espólio histórico. O processo de musealização assenta na inventariação sistemática, catalogação e organização museológica do acervo, sustentadas por investigação científica, bem como em ações de conservação preventiva, registo fotográfico, documentação técnica e disponibilização de conteúdos no site institucional.

O MESM compreende um Salão de Exposição, núcleos distribuídos pelo Salão Nobre, Biblioteca Pereira Caldas, Sala de Geografia, Direção do Agrupamento e diferentes átrios, bem como uma reserva museológica constituída por armazém e arquivo.

Para além da sua função patrimonial, o MESM constitui um recurso pedagógico ativo. A exposição é regularmente visitada por turmas de diferentes níveis de ensino, proporcionando experiências de aprendizagem direta. No domínio das ciências naturais, os espécimes taxidermizados permitem a observação comparativa de características morfológicas e fenómenos como o dimorfismo sexual. Paralelamente, turmas da área de artes utilizam o espaço museológico como ambiente de observação e prática de desenho, explorando formas, volumes e texturas das peças expostas.

Trata-se de um projeto em desenvolvimento contínuo, que articula preservação patrimonial, investigação histórica e mediação pedagógica. A integração de recursos digitais, designadamente códigos QR que permitem o acesso às fichas técnicas dos exemplares, bem como exposições temporárias e publicações em formato de Newsletter, reforça a dimensão científica e comunicativa do espaço.

O MESM encontra-se aberto à comunidade educativa e ao público em geral, promovendo o acesso alargado ao património científico e pedagógico que preserva. A visita é de entrada livre, decorrendo em horário regular entre as 09h30 e as 17h30, nos dias úteis.

Ao evidenciar a relevância pedagógica, científica e patrimonial dos acervos escolares, o MESM contribui para a valorização da cultura material da educação e para a sensibilização das instituições de ensino quanto à necessidade de identificar e preservar coleções frequentemente armazenadas em condições precárias e suscetíveis de degradação. O projeto confere visibilidade ao espólio musealizado, à ampliação do Museu e à sua integração no currículo, afirmando-se como referência no domínio do património educativo e no estudo da materialidade do ensino científico. 

A Equipa do Museu da Escola Sá de Miranda

 

As coleções científicas escolares são património científico nacional.

Espera-se que o testemunho do MESM seja um exemplo para outras escolas, de modo a que preservem e dêem visibilidade a material que evidencia a cultura escolar de épocas passadas.

                                  ASPA

  

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Colecções Científicas Escolares: património esquecido que é fonte de conhecimento"


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Nas últimas décadas, a investigação histórica tem demonstrado um interesse crescente pelo estudo das instituições escolares para além dos textos legais e dos discursos pedagógicos. Deste modo, a cultura material escolar - da qual fazem parte, por exemplo, os objetos científicos utilizados em sala de aula - passou a ser vista como fonte fundamental para compreender as práticas de ensino, as metodologias adoptadas e o modo como o conhecimento foi apropriado em diferentes contextos históricos.

Em Portugal, as coleções científicas escolares começaram a ser organizadas a partir da segunda metade do século XIX, acompanhando as reformas educativas que visavam modernizar o ensino secundário. Os liceus, criados pela reforma de Passos Manuel (1836), tinham como objetivos principais formar cidadãos instruídos e preparar os estudantes para o ensino superior, num contexto de crescente valorização das ciências naturais com o intuito de aproximar o seu ensino dos princípios experimentais da ciência.

Ao longo do século XIX e no início do século XX, a pedagogia defendia que o ensino prático, experimental e visual era essencial para a compreensão dos fenómenos naturais. O uso de espécimes reais, modelos de diversos tipos, instrumentos de medição, preparações para microscópicos e coleções mineralógicas e geológicas era considerado indispensável para um ensino eficaz. Destacam-se neste contexto os chamados “museus escolares” ou “gabinetes de história natural”, que constituíam espaços de aprendizagem onde os alunos podiam observar, manipular e interpretar o mundo natural a partir dos objetos e instrumentos disponíveis. As coleções escolares não eram encaradas como meros recursos complementares e sim como verdadeiras estruturas pedagógicas que moldavam os modos de ensinar e aprender ciência.

Por volta de 1900, mais de 70% das escolas do ensino secundário em Portugal possuíam coleções de história natural formadas devido a compras centralizadas feitas pela Estado, por doações de instituições científicas (por exemplo a Escola Politécnica de Lisboa e os Serviços Geológicos), por contribuições individuais (professores, antigos alunos, famílias e comunidades) ou devido à iniciativa individual de professores e alunos (construção de herbários, taxidermização de animais) [1]. Assinala-se assim a existência de uma rede de cooperação educativa e científica que envolveu universidades, instituições científicas, escolas e sociedade civil.

 

O Museu da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, possui notáveis coleções deste tipo, remontando o seu acervo a meados do século XIX, quando o Liceu de Braga foi instalado no antigo Convento dos Congregados. Verifica-se que, tal como em instituições congéneres, também as coleções científicas aí existentes foram sendo reunidas através de aquisições do Estado, de doações de entidades locais e de ofertas por parte de antigos alunos e outros. Atualmente, este museu possui cerca de 2000 peças já inventariadas - entre as quais animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, minerais e objetos etnográficos -, com muitas outras ainda por inventariar e classificar. Parte deste acervo encontra-se exposto no Museu, aberto ao público durante o horário escolar; o restante constitui as reservas que se encontram distribuídas por vários espaços da escola.

 

Apesar da sua relevância histórica e científica, a maioria das coleções científicas escolares encontrou-se durante décadas em estado de abandono, desorganização e invisibilidade institucional. A partir de finais da década de 1980, legislação e iniciativas da responsabilidade do Ministério da Educação - com destaque para o Inventário e Digitalização do Património Museológico da Educação e respetiva divulgação on-line - e a aprovação de diversos projetos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tentaram inverter a situação, promovendo a inventariação, preservação e valorização do património científico escolar. No entanto, a ausência de políticas públicas consistentes e a falta de pessoal especializado nas escolas dos diversos níveis de ensino, mais do que dificultado o progresso desta missão, conduziu à sua estagnação, com a consequência óbvia deste património correr o risco de voltar a tornar-se invisível para as autoridades competentes, a comunidade escolar e o público em geral.

É prioritário entender estes acervos como património científico nacional, com valor para a memória coletiva e para a investigação histórica e constituindo (ainda) uma importante fonte de conhecimento para o ensino das ciências. É necessário que este património seja contemplado em projetos educativos, museológicos e de investigação interdisciplinares a vários níveis institucionais, projetos esses que podem e devem ser apoiados pelos órgãos locais de governo. Investir na valorização do património científico escolar é contribuir para que uma parte da nossa memória coletiva não se desvaneça, para que a reconstrução histórica seja mais plural, material e participativa, e para a formação de uma consciência crítica sobre o legado material da ciência e da educação em Portugal.

 

                                                                                   Teresa Salomé Mota

(Historiadora da ciência)

                                                                                  

 

[1] Gomes, Inês, “The scientific heritage of Portuguese secondary schools: a historical approach”, Pedagogica Historica, 54 (4), 468-484.