Esta é uma oportunidade para conhecer instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal. Trata-se de um acervo multidisciplinar, que reune materiais diversificados, sendo o mais antigo de 1858.
A ASPA (Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural) foi fundada em 1977, em Braga, tendo como área prioritária de intervenção o distrito de Braga e Viana do Castelo.Tem, como principais acções: a defesa da cidade romana de Bracara Augusta, a luta pela reintegração do Mosteiro de Tibães no património nacional, a classificação e salvaguarda do Complexo das Sete Fontes, a defesa do Recolhimento das Convertidas e a valorização das Zonas Especiais de Proteção.
Esta é uma oportunidade para conhecer instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal. Trata-se de um acervo multidisciplinar, que reune materiais diversificados, sendo o mais antigo de 1858.
Na sequência das reformas educativas iniciadas em 1836, o ensino liceal conheceu um processo de modernização curricular marcado pela crescente valorização das ciências naturais, da física e da química. Apesar das limitações materiais que caracterizaram grande parte do século XIX, foram progressivamente instituídos gabinetes científicos dotados de instrumentos, coleções e dispositivos experimentais destinados à observação direta e à demonstração dos fenómenos naturais. É neste enquadramento institucional e pedagógico que se compreende a constituição do espólio atualmente preservado, cuja análise permite reconstituir práticas pedagógicas, orientações curriculares e dinâmicas de atualização científica no decurso da história do ensino liceal.
Ao longo de mais de um século, a Escola reuniu instrumentos científicos, modelos didáticos e espécimes utilizados no ensino liceal, constituindo um acervo multidisciplinar, com objetos provenientes de fabricantes internacionais, que abrange domínios como biologia, física, química, geologia, paleontologia, geografia, eletrotecnia, etnografia, história, matemática e línguas. O exemplar mais antigo data de 1858, uma bobina de Ruhmkorff, testemunho da introdução precoce de dispositivos eletromagnéticos no ensino experimental.
O conjunto de materiais preservados evidencia a centralidade da observação direta e da demonstração experimental na cultura pedagógica liceal. Enquanto suportes materiais de ensino, estes recursos testemunham o papel da experimentação e da visualização na construção e transmissão do conhecimento científico em contexto escolar.
Atualmente, o MESM integra cerca de 900 objetos inventariados e 1040 mapas parietais, constituindo um conjunto representativo da cultura material do ensino experimental em Portugal. O processo de inventariação encontra-se ainda em desenvolvimento, prevendo-se a documentação de um número significativo de itens ainda não tratados museologicamente. No seu conjunto, o espólio constitui um sistema material de mediação do conhecimento científico, documentando a consolidação e institucionalização do ensino experimental entre os séculos XIX e XX.
Processo de musealização
Instituído em 2010, na sequência da requalificação do edifício escolar, o MESM visa assegurar a conservação, estudo e valorização do seu espólio histórico. O processo de musealização assenta na inventariação sistemática, catalogação e organização museológica do acervo, sustentadas por investigação científica, bem como em ações de conservação preventiva, registo fotográfico, documentação técnica e disponibilização de conteúdos no site institucional.
O MESM compreende um Salão de Exposição, núcleos distribuídos pelo Salão Nobre, Biblioteca Pereira Caldas, Sala de Geografia, Direção do Agrupamento e diferentes átrios, bem como uma reserva museológica constituída por armazém e arquivo.
Para além da sua função patrimonial, o MESM constitui um recurso pedagógico ativo. A exposição é regularmente visitada por turmas de diferentes níveis de ensino, proporcionando experiências de aprendizagem direta. No domínio das ciências naturais, os espécimes taxidermizados permitem a observação comparativa de características morfológicas e fenómenos como o dimorfismo sexual. Paralelamente, turmas da área de artes utilizam o espaço museológico como ambiente de observação e prática de desenho, explorando formas, volumes e texturas das peças expostas.
Trata-se de um projeto em desenvolvimento contínuo, que articula preservação patrimonial, investigação histórica e mediação pedagógica. A integração de recursos digitais, designadamente códigos QR que permitem o acesso às fichas técnicas dos exemplares, bem como exposições temporárias e publicações em formato de Newsletter, reforça a dimensão científica e comunicativa do espaço.
O MESM encontra-se aberto à comunidade educativa e ao público em geral, promovendo o acesso alargado ao património científico e pedagógico que preserva. A visita é de entrada livre, decorrendo em horário regular entre as 09h30 e as 17h30, nos dias úteis.
Ao evidenciar a relevância pedagógica, científica e patrimonial dos acervos escolares, o MESM contribui para a valorização da cultura material da educação e para a sensibilização das instituições de ensino quanto à necessidade de identificar e preservar coleções frequentemente armazenadas em condições precárias e suscetíveis de degradação. O projeto confere visibilidade ao espólio musealizado, à ampliação do Museu e à sua integração no currículo, afirmando-se como referência no domínio do património educativo e no estudo da materialidade do ensino científico.
A Equipa do Museu da Escola Sá de Miranda
As coleções científicas escolares são património científico nacional.
Espera-se que o testemunho do MESM seja um exemplo para outras escolas, de modo a que preservem e dêem visibilidade a material que evidencia a cultura escolar de épocas passadas.
ASPA
Nas últimas décadas, a investigação histórica tem demonstrado um interesse crescente pelo estudo das instituições escolares para além dos textos legais e dos discursos pedagógicos. Deste modo, a cultura material escolar - da qual fazem parte, por exemplo, os objetos científicos utilizados em sala de aula - passou a ser vista como fonte fundamental para compreender as práticas de ensino, as metodologias adoptadas e o modo como o conhecimento foi apropriado em diferentes contextos históricos.
Em Portugal, as coleções científicas escolares começaram a ser organizadas a partir da segunda metade do século XIX, acompanhando as reformas educativas que visavam modernizar o ensino secundário. Os liceus, criados pela reforma de Passos Manuel (1836), tinham como objetivos principais formar cidadãos instruídos e preparar os estudantes para o ensino superior, num contexto de crescente valorização das ciências naturais com o intuito de aproximar o seu ensino dos princípios experimentais da ciência.
Ao longo do século XIX e no início do século XX, a pedagogia defendia que o ensino prático, experimental e visual era essencial para a compreensão dos fenómenos naturais. O uso de espécimes reais, modelos de diversos tipos, instrumentos de medição, preparações para microscópicos e coleções mineralógicas e geológicas era considerado indispensável para um ensino eficaz. Destacam-se neste contexto os chamados “museus escolares” ou “gabinetes de história natural”, que constituíam espaços de aprendizagem onde os alunos podiam observar, manipular e interpretar o mundo natural a partir dos objetos e instrumentos disponíveis. As coleções escolares não eram encaradas como meros recursos complementares e sim como verdadeiras estruturas pedagógicas que moldavam os modos de ensinar e aprender ciência.
Por volta de 1900, mais de 70% das escolas do ensino secundário em Portugal possuíam coleções de história natural formadas devido a compras centralizadas feitas pela Estado, por doações de instituições científicas (por exemplo a Escola Politécnica de Lisboa e os Serviços Geológicos), por contribuições individuais (professores, antigos alunos, famílias e comunidades) ou devido à iniciativa individual de professores e alunos (construção de herbários, taxidermização de animais) [1]. Assinala-se assim a existência de uma rede de cooperação educativa e científica que envolveu universidades, instituições científicas, escolas e sociedade civil.
O Museu da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, possui notáveis coleções deste tipo, remontando o seu acervo a meados do século XIX, quando o Liceu de Braga foi instalado no antigo Convento dos Congregados. Verifica-se que, tal como em instituições congéneres, também as coleções científicas aí existentes foram sendo reunidas através de aquisições do Estado, de doações de entidades locais e de ofertas por parte de antigos alunos e outros. Atualmente, este museu possui cerca de 2000 peças já inventariadas - entre as quais animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, minerais e objetos etnográficos -, com muitas outras ainda por inventariar e classificar. Parte deste acervo encontra-se exposto no Museu, aberto ao público durante o horário escolar; o restante constitui as reservas que se encontram distribuídas por vários espaços da escola.
Apesar da sua relevância histórica e científica, a maioria das coleções científicas escolares encontrou-se durante décadas em estado de abandono, desorganização e invisibilidade institucional. A partir de finais da década de 1980, legislação e iniciativas da responsabilidade do Ministério da Educação - com destaque para o Inventário e Digitalização do Património Museológico da Educação e respetiva divulgação on-line - e a aprovação de diversos projetos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tentaram inverter a situação, promovendo a inventariação, preservação e valorização do património científico escolar. No entanto, a ausência de políticas públicas consistentes e a falta de pessoal especializado nas escolas dos diversos níveis de ensino, mais do que dificultado o progresso desta missão, conduziu à sua estagnação, com a consequência óbvia deste património correr o risco de voltar a tornar-se invisível para as autoridades competentes, a comunidade escolar e o público em geral.
É prioritário entender estes acervos como património científico nacional, com valor para a memória coletiva e para a investigação histórica e constituindo (ainda) uma importante fonte de conhecimento para o ensino das ciências. É necessário que este património seja contemplado em projetos educativos, museológicos e de investigação interdisciplinares a vários níveis institucionais, projetos esses que podem e devem ser apoiados pelos órgãos locais de governo. Investir na valorização do património científico escolar é contribuir para que uma parte da nossa memória coletiva não se desvaneça, para que a reconstrução histórica seja mais plural, material e participativa, e para a formação de uma consciência crítica sobre o legado material da ciência e da educação em Portugal.
Teresa Salomé Mota
(Historiadora da ciência)
[1] Gomes, Inês, “The scientific heritage of Portuguese secondary schools: a historical approach”, Pedagogica Historica, 54 (4), 468-484.