INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
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segunda-feira, 2 de junho de 2025

ENTRE ASPAS "Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo (ou das Convertidas)"

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Mandado construir por iniciativa do Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles, com o objetivo de albergar “mulheres pecadoras convertidas a Deus”, o Recolhimento de Santa Maria Madalena, vulgo Recolhimento das Convertidas, foi inaugurado no dia 25 de abril de 1722. Uma ironia com mais de trezentos anos, diria, que hoje mais parece um esgar. Uma ruína. E, todavia, a ironia ganha corpo se pensarmos num 25 de abril mais próximo, com cheiro a cravos e revolução, liberdade, igualdade e a conquista do direito ao voto pelas mulheres. Uma luta de séculos que importa não esquecer.

As paredes do Recolhimento falam de ausência de liberdade, de anátema social, de violência sobre o corpo das mulheres ou da sua rasura. De mulheres que, importa sublinhá-lo, não escolheram professar ordens ou a vida conventual, antes foram “recolhidas” e “convertidas” à força, de forma a manter o espaço público “limpo” do mal que elas representavam. Esta a nota de diferença de instituições como os Recolhimentos. Ao que tudo indica, o Recolhimento das Convertidas parece fazer parte dos chamados Asilos de Madalena (ou, na versão irlandesa, Lavandarias de Madalena), instituições criadas no século XVIII um pouco por toda a Europa e América do Norte, e que subsistiram até ao final do século XX. As Lavandarias de Madalena ganharam recentemente visibilidade com a publicação do livro Pequenas Coisas como Estas (2022), da irlandesa Claire Keegan, que dá a conhecer o drama de uma das vítimas destas instituições que se mantiveram ativas até ao final da década de oitenta do século XX. O livro viria a ser adaptado ao cinema por Enda Walsh e direção de Tim Mielants, em 2024.

 

Quando cheguei à cidade, em 1985, justamente no ano em que decorre a ação do filme, lembro-me de ver uma ou outra mulher à porta. Residentes ou visitantes, sobre elas nada sei. O que hoje lamento. Braga transbordava de edifícios conventuais e de espaços de clausura pelo que este era, para mim, apenas mais um. De resto, um edifício austero, discreto, sem outra nota digna de registo para além da pedra de armas do arcebispo, do emblema das convertidas e das janelas gradeadas do torreão.

 

Deu o sol muitas voltas à terra, e eu sem dar pelo edifício. Até que um dia o encontro com a obra de Maria Ondina Braga, nascida a dois passos do Recolhimento, me fez dar de caras com as paredes brancas de alvenaria e escutar as vozes para lá da alvura. O destino de solidão e de exílio destas mulheres assombraria para sempre a escritora que procurou dar corpo, voz, um nome, a este e a outros silêncios na sua escrita, às “histórias, sempre histórias do infortúnio das mulheres”, dos seus dramas ocultos, atravessados pela temática da miséria e da violência, do aborto clandestino e da desigualdade social. A história da “Mil-Homens” é apenas uma delas.

 

Recolhimento, oração e trabalho marcavam o compasso dos dias. A troco de um prato de comida, de um catre onde dormir e de reabilitação social, as mulheres viam-se confinadas ao mutismo e à clausura, impedidas de qualquer contacto com o exterior, como demonstra a grade de ferro que separa os fiéis na Capela de São Gonçalo (aberta ao culto geral) das “convertidas” que assistiam à missa: tão apertada a malha ou treliça de ferro que nem um dedo conseguiria passar e tocar o outro lado. Quando, pela primeira vez, transpus a porta do Recolhimento, estremeci, como se levasse um murro no estômago. Quem ainda hoje visitar o Recolhimento das Convertidas ficará impressionado, entre outras coisas, com a dupla porta do edifício e as sete chaves da porta interior, descobrindo que, mais do que uma expressão idiomática, “estar fechado a sete chaves” é antes o testemunho de um exílio forçado. Ou com o “Tronco”, cubículo em pedra, frio, húmido e sem luz, onde eram encerradas as mulheres que mereciam “castigo”. Ou com os instrumentos de penitência e de "conversão" - “haec sunt arma melitiae nostrae”- pintados no painel central do teto da Capela.

Entrar no espaço reservado da capela é descobrir que as grades são a rasura do olhar e a impossibilidade do tato e da comunicação, de uma qualquer grafia migrante. Elas são a trama do silêncio, as linhas de uma invisível escrita da solidão. Percorrer os espaços íntimos, corredores, celas e jardins é viajar numa máquina do tempo, recuar a esse elegante século XVIII e vislumbrar pelo buraco da fechadura o avesso da sumptuosidade aristocrática, da religiosidade barroca, despojadas de doces cupidos e anjos celestiais, quando não do próprio Cristo saudoso de um calor mais humano. Apesar das ruínas de hoje, tudo permanece intacto, suspenso, como se o tempo tivesse poupado este oásis de silêncio no deserto da cidade, ele próprio cúmplice destas mulheres condenadas à burka invisível do anátema social.

 

É este espaço que urge agora salvar e preservar como espaço de memória para as gerações futuras. A proposta de criação da Casa da Memória da Mulher no Recolhimento das Convertidas merece todo o apoio, desde logo por se tratar de um espaço único (tanto quanto julgo saber) no país, tendo em conta que não foi adulterado ao longo do tempo. Pela carga simbólica, histórica e cultural de que se reveste, a futura Casa da Memória da Mulher legitimamente merece figurar ao lado de espaços congéneres europeus, como é o caso do Køn – Gender Museum (The Women’s Museum), em Aarhus, Dinamarca, um dos raros museus do mundo sobre a temática de género e igualdade, fundado em 1982, e um dos pontos de atratividade turística da cidade.

 

Depois de anos de abandono, que esta proposta conjunta de várias entidades e personalidades ligadas à cultura, ao património, à intervenção cidadã e à comunidade académica tenha finalmente avançado e sido apresentada às entidades com capacidade de intervir na matéria é um sinal de esperança. A sua concretização seria não apenas uma forma de prestar homenagem às mulheres de todos os tempos, mas também uma das melhores notícias no ano em que Braga se orgulha de ser Capital Nacional de Cultura e o Recolhimento das Convertidas completa mais de trezentos anos de história e de memória.                       

Isabel Cristina Mateus

Universidade do Minho/CEHUM

terça-feira, 20 de maio de 2025

ENTRE ASPAS: "Casa da Memória da Mulher no Recolhimento das Convertidas"

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O Recolhimento das Convertidas tem sido objeto de inúmeras agressões, no geral devidas ao descuido e ao descaso, sem que haja atuação da parte das entidades responsáveis no sentido de salvar este Monumento de Interesse Público, um memorial do barroco conventual, único, que manteve a sua autenticidade até ao séc. XXI.


Restou à comunidade e a entidades como a ASPA manifestarem-se de forma persistente junto de quem pode atuar no sentido de evitar a condenação definitiva do monumento, sublinhando a perda irreparável que significaria o seu desaparecimento, não só para Braga, mas também para o país.

Foram inúmeros os alertas junto da anterior tutela do património (DRCN e DGPC) e do Ministério de Administração Interna (MAI), acompanhados de imagens elucidativas. Os responsáveis por esses organismos não têm dúvidas, com certeza, que o Recolhimento das Convertidas se encontra em risco e que a Capela poderá não resistir por muito mais tempo. Uma janela aberta e vidros partidos foram motivo de alerta recente junto do MAI e do Património Cultural I.P.

 

Foi perante este cenário e ameaça de perda, que várias entidades e personalidades ligadas à cultura, ao património, à intervenção cidadã e à comunidade académica, se uniram no propósito de pôr fim à degradação galopante do edifício do Recolhimento das Convertidas, sugerindo às entidades públicas com capacidade de intervir – CIM Cávado e Câmara Municipal de Braga, Património Cultural IP e CCDR-Norte – a sua recuperação e reafectação a novas funcionalidades, como CASA DA MEMÓRIA DA MULHER.

Neste sentido, assegurada a recuperação do edifício, são propostos três eixos fundamentais de estruturação do projeto:

  • Criação de um Espaço de Memória do Recolhimento das Convertidas.
  • Aproximação à comunidade académica, através da promoção de investigação, estudo e divulgação da condição feminina, em Braga, em Portugal, na Europa e no Mundo.
  • Abertura à comunidade: espaços e iniciativas. 

A criação da CASA DA MEMÓRIA DA MULHER pressupõe uma reabilitação que respeite a autenticidade deste memorial do barroco conventual e que salvaguarde o património edificado, associando-lhe o património imaterial decorrente da memória do que foi este espaço e das memórias de quem o habitou.  Esse contexto muito especial permitirá diferentes valências e uma panóplia alargada e regular de atividades que contribuirão, com certeza, para o enriquecimento da oferta cultural e educativa na cidade, apelando a um amplo envolvimento da comunidade.

Tendo a ASPA avançado com esta proposta, foi com enorme satisfação que viu associar-se à mesma a CIVITAS Braga, a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), a APAV (Associação de Apoio à Vítima), o Tin.Bra (Academia de Teatro de Braga), a Associação Cultural SUONART e o Grupo de Cantares Tradicionais Mulheres do Minho, bem como elementos da comunidade. Estamos certos de que, a breve prazo, outras entidades e personalidades se juntarão na subscrição desta proposta que, neste momento, já reúne o apoio de de subscritores de diversas áreas - movimento associativo e cultural, comunidade académica, etc. –, bem como de diversas organizações e sensibilidades políticas.

As entidades e personalidades subscritoras entregaram à CIM - Cávado, ao Património Cultural I.P. e à CCDR-N Cultura e Património, bem como à Senhora Ministra da Cultura e ao ICOMOS, as razões e o sentido da proposta de criação, no Recolhimento das Convertidas, da CASA DA MEMÓRIA DA MULHER.

Espera-se que, a breve prazo:

  • A tutela do Património realize uma avaliação técnica da situação em que se encontra o Recolhimento das Convertidas e a Capela da São Gonçalo, para que sejam definidas soluções para a sua conservação e restauro, com respeito pela autenticidade deste memorial do barroco conventual, de modo a garantir a preservação do espírito do lugar.
  • Seja concluído o processo de permuta, entre a CIM Cávado e o Estado Português, de modo a que o Recolhimento das Convertidas passe, definitivamente, para a propriedade da CIM Cávado.
  • Que a CIM Cávado, com o contributo do Património Cultural IP, organize o projeto de reabilitação do edifício tendo em vista a criação da CASA DA MEMÓRIA DA MULHER.
  • Que o Património Cultural I.P. e a CCDR N encontrem fontes de financiamento, para que a conservação e restauro se concretize, permita salvar o monumento e dar-lhe um uso público como polo Cultural e Educativo ao serviço da comunidade.

Neste momento, em que o monumento está em risco, é essencial a união de esforços, por parte destas entidades públicas, para o salvar. Tal como foi necessária a união de organizações da sociedade civil para organizar esta proposta de transformação do Recolhimento das Convertidas em CASA DA MEMÓRIA DA MULHER, para o salvar e dinamizar, com uso público, de modo a permitir a sua entrega às gerações vindouras.                                                                                                                                                                                                ASPA

Passaram já três séculos desde que, em 25 de abril de 1722, foi inaugurado o Recolhimento das Convertidas e 13 anos desde a sua classificação como Monumento de Interesse Público (Portaria nº 665/2012). Um tempo longo que culmina na agonia lenta deste memorial do barroco conventual, um elemento patrimonial valioso pelo que representa e pela sua singularidade que, apesar de ter resistido à ruína plena, poderá sucumbir se nada for feito para o salvar.

Nascido num 25 de abril, dia em que se comemora a Liberdade, este edifício representa bem o mote escolhido este ano para a celebração do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, comemorado a 18 de abril: Património Resiliente Face a Catástrofes e Conflitos. Mote que foi o ponto de partida para este projeto.

Para salvar o Recolhimento das Convertidas e a Capela de São Gonçalo é imprescindível o empenho do novo Governo, bem como dos deputados eleitos por Braga, para a Assembleia da República. O interesse público assim o exige!