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Nas últimas décadas, a investigação histórica tem demonstrado um interesse crescente pelo estudo das instituições escolares para além dos textos legais e dos discursos pedagógicos. Deste modo, a cultura material escolar - da qual fazem parte, por exemplo, os objetos científicos utilizados em sala de aula - passou a ser vista como fonte fundamental para compreender as práticas de ensino, as metodologias adoptadas e o modo como o conhecimento foi apropriado em diferentes contextos históricos.
Em Portugal, as coleções científicas escolares começaram a ser organizadas a partir da segunda metade do século XIX, acompanhando as reformas educativas que visavam modernizar o ensino secundário. Os liceus, criados pela reforma de Passos Manuel (1836), tinham como objetivos principais formar cidadãos instruídos e preparar os estudantes para o ensino superior, num contexto de crescente valorização das ciências naturais com o intuito de aproximar o seu ensino dos princípios experimentais da ciência.
Ao longo do século XIX e no início do século XX, a pedagogia defendia que o ensino prático, experimental e visual era essencial para a compreensão dos fenómenos naturais. O uso de espécimes reais, modelos de diversos tipos, instrumentos de medição, preparações para microscópicos e coleções mineralógicas e geológicas era considerado indispensável para um ensino eficaz. Destacam-se neste contexto os chamados “museus escolares” ou “gabinetes de história natural”, que constituíam espaços de aprendizagem onde os alunos podiam observar, manipular e interpretar o mundo natural a partir dos objetos e instrumentos disponíveis. As coleções escolares não eram encaradas como meros recursos complementares e sim como verdadeiras estruturas pedagógicas que moldavam os modos de ensinar e aprender ciência.
Por volta de 1900, mais de 70% das escolas do ensino secundário em Portugal possuíam coleções de história natural formadas devido a compras centralizadas feitas pela Estado, por doações de instituições científicas (por exemplo a Escola Politécnica de Lisboa e os Serviços Geológicos), por contribuições individuais (professores, antigos alunos, famílias e comunidades) ou devido à iniciativa individual de professores e alunos (construção de herbários, taxidermização de animais) [1]. Assinala-se assim a existência de uma rede de cooperação educativa e científica que envolveu universidades, instituições científicas, escolas e sociedade civil.
O Museu da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, possui notáveis coleções deste tipo, remontando o seu acervo a meados do século XIX, quando o Liceu de Braga foi instalado no antigo Convento dos Congregados. Verifica-se que, tal como em instituições congéneres, também as coleções científicas aí existentes foram sendo reunidas através de aquisições do Estado, de doações de entidades locais e de ofertas por parte de antigos alunos e outros. Atualmente, este museu possui cerca de 2000 peças já inventariadas - entre as quais animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, minerais e objetos etnográficos -, com muitas outras ainda por inventariar e classificar. Parte deste acervo encontra-se exposto no Museu, aberto ao público durante o horário escolar; o restante constitui as reservas que se encontram distribuídas por vários espaços da escola.
Apesar da sua relevância histórica e científica, a maioria das coleções científicas escolares encontrou-se durante décadas em estado de abandono, desorganização e invisibilidade institucional. A partir de finais da década de 1980, legislação e iniciativas da responsabilidade do Ministério da Educação - com destaque para o Inventário e Digitalização do Património Museológico da Educação e respetiva divulgação on-line - e a aprovação de diversos projetos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tentaram inverter a situação, promovendo a inventariação, preservação e valorização do património científico escolar. No entanto, a ausência de políticas públicas consistentes e a falta de pessoal especializado nas escolas dos diversos níveis de ensino, mais do que dificultado o progresso desta missão, conduziu à sua estagnação, com a consequência óbvia deste património correr o risco de voltar a tornar-se invisível para as autoridades competentes, a comunidade escolar e o público em geral.
É prioritário entender estes acervos como património científico nacional, com valor para a memória coletiva e para a investigação histórica e constituindo (ainda) uma importante fonte de conhecimento para o ensino das ciências. É necessário que este património seja contemplado em projetos educativos, museológicos e de investigação interdisciplinares a vários níveis institucionais, projetos esses que podem e devem ser apoiados pelos órgãos locais de governo. Investir na valorização do património científico escolar é contribuir para que uma parte da nossa memória coletiva não se desvaneça, para que a reconstrução histórica seja mais plural, material e participativa, e para a formação de uma consciência crítica sobre o legado material da ciência e da educação em Portugal.
Teresa Salomé Mota
(Historiadora da ciência)
[1] Gomes, Inês, “The scientific heritage of Portuguese secondary schools: a historical approach”, Pedagogica Historica, 54 (4), 468-484.

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