INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

ENTRE ASPAS: PARQUE VERDE DA QUINTA DA ARCELA. Importância de um Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães

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O Vale de Lamaçães, que até ao início da década de 90, do século passado, era uma zona agrícola, foi transformado numa área residencial, pontuada por diversas superfícies comerciais e algumas escolas, onde falta um parque verde de proximidade já reivindicado por moradores.

Falta contar a história ambiental do Vale de Lamaçães, localizado numa planície de inundação, conhecimento que continua a ser importante para a interpretação de problemáticas atuais e essencial para encontrar soluções que evitem o agravamento de problemas no futuro. Tal como falta conhecer os “caminhos da água” no presente, e falta saber qual a área verde por habitante disponibilizada pelo município, a quem reside no Vale de Lamaçães, e quais as metas definidas nesse âmbito.

 

Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães

Face às condicionantes existentes, espera-se que a área disponível da antiga Quinta da Arcela seja, em breve e na totalidade, integrada no futuro Parque Verde da Quinta da Arcela, associado a um Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães. Um espaço dedicado à descoberta deste Vale - do granito à água, do milho ao pão, do solo à biodiversidade -, que permita conhecer memórias rurais e saberes tradicionais associados às antigas quintas e casas rurais e, inclua, também, um espaço com biblioteca dedicada a livros infantis sobre ambiente e biodiversidade.

Imagine a Estação Agrária, tanque e fontanário - inventariados em PDM -, bem como outros edifícios de raiz rural da antiga Quinta da Arcela, devidamente restaurados como espaço educativo dedicado à vida agrícola que ali existia. Um espaço que permita conhecer o passado, compreender o presente e evitar o agudizar de problemas para o futuro.

Por isso mesmo se espera que as decisões, em relação ao Parque Verde da Quinta da Arcela, resultem de uma ação articulada entre os Pelouros do Urbanismo, do Ambiente e do Património/Cultura, a nível político e técnico, com adoção de medidas que permitam a conservação do solo e flora autóctone que aí resistiu, a valorização da água e a promoção de biodiversidade, de acordo com o definido nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 6, nº 11, nº 13 e nº 15.

O futuro Parque Verde pode constituir um exemplo de articulação entre Pelouros municipais e, também, entre estes e o movimento de cidadãos que reivindica o Parque Verde na Quinta da Arcela.

 

O Vale de Lamaçães

Sendo uma planície de inundação do Rio Este, a que se juntam ribeiros e escorrências das linhas de água que percorrem as encostas de Nogueiró e do Bom Jesus, era no Vale de Lamaçães que se acumulavam e infiltravam as águas durante os períodos de cheia, deixando, invariavelmente, os campos de cultivo ensopados e o solo enlameado.

 A toponímia desta freguesia – LAMAÇÃES – é uma evidência forte da lama que existia neste vale fértil que, no primeiro PDM de Braga (1994), foi definido como área de expansão urbana e habitacional, apesar das condicionantes ambientais existentes. Tal como o escudo da freguesia, que apresenta duas enxadas, também a toponímia atual lembra essa matriz rural associada às antigas quintas1: Arcela, Azenha, Bouça, Eira-Vedra, Gróias, Outeiro, Outeiral, Senra, Silvães, Torre, Via Cova, etc. O Minho Pitoresco, de José Augusto Vieira, datado de 1887 (pág. 54, Tomo II), associa a Freguesia de Lamaçães a “um solo tão fértil como pitoresco”.

Os elementos que caracterizavam esta paisagem rural desapareceram em poucas décadas: o granito das casas rurais, eiras e muros que separavam os campos; as ramadas e as árvores de fruto; os canais de rega e os ribeiros; até parte dos pinhais da encosta. A razão foi simples: expetativas de construção criadas por um PDM, a que se seguiu a aquisição de parcelas de solo por empresas do setor imobiliário. Um caso que exige reflexão.

Este é um Vale transformado em área residencial, onde a água da chuva nem sempre tem “caminho” para se infiltrar ou chegar ao rio Este. Numa área que era verde, e com muita água, ficou a faltar área verde para uso público e cursos de água para deleite da população. Um processo iniciado no final do séc. XX, que se tem prolongado até ao presente.

Poucas foram as casas rurais, tanques e fontanários que resistiram. Mas o valor patrimonial de alguns fontanários e tanques foi reconhecido no âmbito do PDM - Fonte de Águas Férreas (II 93), a Fonte e tanque da Quinta da Senra (II 413) e o Fontanário e Tanque junto à antiga Estação Agrária (II 414) –, razão pela qual estes bens culturais integram as Fichas de Património Inventariado.

A antiga Estação Agrária, com um tanque e um fontanário, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães, é uma evidência da atividade que predominava neste vale: a agricultura.

 

O projeto em curso no rio Este - limpeza, criação de zonas de lagoas e renaturalização das margens onde é possível -, que tem em vista aumentar a capacidade de retenção de água e reduzir o risco de cheias, é um excelente contributo para reduzir risco inundação em momentos de pluviosidade extrema. Mas será suficiente, se a área verde ainda existente, no Vale de Lamaçães, for ocupada com mais construções?   

Os erros do passado, nomeadamente a eliminação dos ribeiros, bem como a construção em zonas críticas, precisam de soluções no presente. O Parque Verde público da Quinta da Arcela, reivindicado pelos moradores e previsto no PDM, é essencial para usufruto da população mas é, também, necessário para manter área de infiltração de água numa zona da cidade altamente povoada e demasiado impermeabilizada.

  

A área classificada em PDM como Espaço Verde (EV), na antiga Quinta da Arcela, exclui uma área verde significativa, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães. Tudo indica que é para esse espaço que a Câmara destina a construção de apartamentos a custos controlados, numa área já demasiado impermeabilizada! Não haverá outro local para esse efeito?


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