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Falta contar a história ambiental do Vale de Lamaçães, localizado numa planície de inundação, conhecimento que continua a ser importante para a interpretação de problemáticas atuais e essencial para encontrar soluções que evitem o agravamento de problemas no futuro. Tal como falta conhecer os “caminhos da água” no presente, e falta saber qual a área verde por habitante disponibilizada pelo município, a quem reside no Vale de Lamaçães, e quais as metas definidas nesse âmbito.
Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães
Face às condicionantes existentes, espera-se que a área disponível da antiga Quinta da Arcela seja, em breve e na totalidade, integrada no futuro Parque Verde da Quinta da Arcela, associado a um Centro Interpretativo do Vale de Lamaçães. Um espaço dedicado à descoberta deste Vale - do granito à água, do milho ao pão, do solo à biodiversidade -, que permita conhecer memórias rurais e saberes tradicionais associados às antigas quintas e casas rurais e, inclua, também, um espaço com biblioteca dedicada a livros infantis sobre ambiente e biodiversidade.
Imagine a Estação Agrária, tanque e fontanário - inventariados em PDM -, bem como outros edifícios de raiz rural da antiga Quinta da Arcela, devidamente restaurados como espaço educativo dedicado à vida agrícola que ali existia. Um espaço que permita conhecer o passado, compreender o presente e evitar o agudizar de problemas para o futuro.
Por isso mesmo se espera que as decisões, em relação ao Parque Verde da Quinta da Arcela, resultem de uma ação articulada entre os Pelouros do Urbanismo, do Ambiente e do Património/Cultura, a nível político e técnico, com adoção de medidas que permitam a conservação do solo e flora autóctone que aí resistiu, a valorização da água e a promoção de biodiversidade, de acordo com o definido nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 6, nº 11, nº 13 e nº 15.
O futuro Parque Verde pode constituir um exemplo de articulação entre Pelouros municipais e, também, entre estes e o movimento de cidadãos que reivindica o Parque Verde na Quinta da Arcela.
O Vale de Lamaçães
Sendo uma planície de inundação do Rio Este, a que se juntam ribeiros e escorrências das linhas de água que percorrem as encostas de Nogueiró e do Bom Jesus, era no Vale de Lamaçães que se acumulavam e infiltravam as águas durante os períodos de cheia, deixando, invariavelmente, os campos de cultivo ensopados e o solo enlameado.
A toponímia desta freguesia – LAMAÇÃES – é uma evidência forte da lama que existia neste vale fértil que, no primeiro PDM de Braga (1994), foi definido como área de expansão urbana e habitacional, apesar das condicionantes ambientais existentes. Tal como o escudo da freguesia, que apresenta duas enxadas, também a toponímia atual lembra essa matriz rural associada às antigas quintas1: Arcela, Azenha, Bouça, Eira-Vedra, Gróias, Outeiro, Outeiral, Senra, Silvães, Torre, Via Cova, etc. O Minho Pitoresco, de José Augusto Vieira, datado de 1887 (pág. 54, Tomo II), associa a Freguesia de Lamaçães a “um solo tão fértil como pitoresco”.
Os elementos que caracterizavam esta paisagem rural desapareceram em poucas décadas: o granito das casas rurais, eiras e muros que separavam os campos; as ramadas e as árvores de fruto; os canais de rega e os ribeiros; até parte dos pinhais da encosta. A razão foi simples: expetativas de construção criadas por um PDM, a que se seguiu a aquisição de parcelas de solo por empresas do setor imobiliário. Um caso que exige reflexão.
Este é um Vale transformado em área residencial, onde a água da chuva nem sempre tem “caminho” para se infiltrar ou chegar ao rio Este. Numa área que era verde, e com muita água, ficou a faltar área verde para uso público e cursos de água para deleite da população. Um processo iniciado no final do séc. XX, que se tem prolongado até ao presente.
Poucas foram as casas rurais, tanques e fontanários que resistiram. Mas o valor patrimonial de alguns fontanários e tanques foi reconhecido no âmbito do PDM - Fonte de Águas Férreas (II 93), a Fonte e tanque da Quinta da Senra (II 413) e o Fontanário e Tanque junto à antiga Estação Agrária (II 414) –, razão pela qual estes bens culturais integram as Fichas de Património Inventariado.
A antiga Estação Agrária, com um tanque e um fontanário, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães, é uma evidência da atividade que predominava neste vale: a agricultura.
O projeto em curso no rio Este - limpeza, criação de zonas de lagoas e renaturalização das margens onde é possível -, que tem em vista aumentar a capacidade de retenção de água e reduzir o risco de cheias, é um excelente contributo para reduzir risco inundação em momentos de pluviosidade extrema. Mas será suficiente, se a área verde ainda existente, no Vale de Lamaçães, for ocupada com mais construções?
Os erros do passado, nomeadamente a eliminação dos ribeiros, bem como a construção em zonas críticas, precisam de soluções no presente. O Parque Verde público da Quinta da Arcela, reivindicado pelos moradores e previsto no PDM, é essencial para usufruto da população mas é, também, necessário para manter área de infiltração de água numa zona da cidade altamente povoada e demasiado impermeabilizada.
A área classificada em PDM como Espaço Verde (EV), na antiga Quinta da Arcela, exclui uma área verde significativa, junto à Escola EB 2/3 de Lamaçães. Tudo indica que é para esse espaço que a Câmara destina a construção de apartamentos a custos controlados, numa área já demasiado impermeabilizada! Não haverá outro local para esse efeito?

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