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Festejos de São João em Braga. Depois da leitura da noite (como nos conventos?), tomávamos chá em silêncio. Depois, eu à janela a observar as minhas colegas de liceu, para cá e para lá na Avenida, com vestidos a estrear.
Tremulavam grisetas. Os velhotes do asilo Conde de Agrolongo alugavam cadeiras a senhoras e cavalheiros da sociedade. As tílias rescendiam. E, ao soar da meia-noite na torre dos Congregados, trás, as cataratas de luz, o fogo-de-artificio. O quarto ali todo ouro, prata e furta-cores. O quarto e as copas das árvores que os pardais sobrevoavam assustados. No jardim, as minhas ex-colegas suspendiam o passeio para, de pescoço esticado, apreciarem lá em cima a artificiosa chuva de pérolas, de relâmpagos, de pranto.
Vinha, em seguida, o fogo-chinês: luminárias de bonecos de papel, subindo em círculo, rumo ao céu: o cavaleiro andante, o frade crúzio, a dama de saia de balão. (…).
À girândola final, um aparatoso estrépito sobre a cidade esventrada e verde, a vez das orvalhadas.
Descíamos antão a guilhotina da janela. De acordo com a tradição, orvalhadas a desoras traziam humores ruins… E dávamos as boas-noites.
Maria Ondina Braga, Vidas Vencidas, 1998
Esta evocação dos festejos de São João saída da pena de Maria Ondina Braga, renomada autora da cidade, cada vez mais reconhecida fora dela, é um bom ponto de partida para olhar a festa e a sua patrimonialização.
À palavra património associam-se, de forma mais ou menos imediata, ideias e valores que parecem vetores indiscutíveis para a consagração e reconhecimento dos objetos merecedores dessa chancela. Ideias como as de preservação e transmissão são centrais a um entendimento do que é o património, através delas se valorizando o contínuo temporal que faz dos bens culturais elos que ligam as diferentes gerações parecendo elidir o tempo. Do mesmo modo, valores como os da antiguidade, autenticidade e identidade, são quase sempre convocados quando se trata de defender o património. Ora, projetar uma defesa implica esperar um ataque, sendo em torno desta linguagem bélica que a narrativa do património se complica um pouco: Não há nunca quem ataque o património de forma aberta e declarada, muito embora existam refregas de onde o património sai ferido. Do mesmo modo, situações há em que a defesa cega do que se entende por património produz mais dano que benefício, desde logo quando o retira das coisas vivas para lhe dar o destaque próprio dos mausoléus.
Em relação à matéria tangível, seja um edifício, um monumento, ou uma paisagem, a ideia de preservação deve orientar o discurso e a prática patrimonialista. O ponto crítico, neste caso, é o do modelo de preservação, de restauro ou de renovação, matéria sensível que não cabe abordar neste apontamento. Centremo-nos antes na festa, sublinhando como a natureza intangível desta matéria nos obriga a sair do princípio geral da mera preservação. Se queremos pensar a festa no fio do tempo que gere os processos de patrimonialização, temos aqui que introduzir dois vetores fundamentais, o da dinâmica que mantém a festa viva e a do perigo de a asfixiar através da sua cristalização.
Voltemos à evocação que nos deixou Ondina Braga. Facilmente percebemos mudanças e continuidades, tanto na topografia que define o «para cá e para lá» da longa noite de São João, como nos eventos que caracterizam a festa. Doente, e por isso impossibilitada de se juntar às colegas de liceu, condenada a apreciar a festa da janela, a escritora pôde registar sinais, acordes, cores, modos de festejar de uma forma não implicada. De alguma forma fez o que se espera que seja feito por quem está encarregado de promover a sua patrimonialização. Note-se que, ao contrário de um monumento, a festa não se encerra num movimento de preservação, ao contrário, ela vive num permanente ajustamento entre a memória que nos transporta ao seu passado e a realidade social e cultural que marca o tempo em que a festa é levada à cena.
Trata-se de um ajustamento que se exige aos agentes que promovem a festa e a organizam, bem como àqueles que visam o seu reconhecimento como património cultural imaterial, um equilíbrio nem sempre fácil de alcançar. Se o empenho e o entusiasmo, às vezes temperados com bairrismo, e nem sempre na dose certa, são indispensáveis no processo, devem, ao mesmo tempo, ser capazes de se distanciar da festa, olhando-a como Ondina Braga fez, a uma distância que permita perceber que a festa é de quem a vive, e é quem a vive que deve desenhar o seu porvir.
Neste sentido, o passado da festa não pode ser o seu futuro, muito embora esse futuro não exista sem um passado que a legitime no fio do tempo, que permita essa ligação, real ou imaginada, pouco importa, entre gerações. Quem hoje assiste à dança do Rei David, à representação dos Pastores ou ao desfile do Carro das Ervas, sente-se transportado para o passado, pode fechar os olhos e imaginar que a seu lado tem pais, tios ou avós, os entes queridos que partiram mas que um dia assistiram àquelas mesmas encenações. Essa é uma espécie de magia que a festa permite. Importa considerar, no entanto, a outra face: a aceitação do que muda e a compreensão de que essa mudança é indispensável, pois só ela impede que a festa cristalize e morra de velhice. O que se cede em magia ganha-se em valor de uso, permitindo que as comunidades que vivem a festa continuem a fazer dela um instrumento importante nos processos de produção e reprodução social. O São João de Braga é, desde há muitos e muitos anos, importante para a cidade. Continua a sê-lo e assim promete continuar enquanto resistir tanto ao excesso de mudança, que transformaria a festa num mero cartaz turístico, como à febre a imutabilidade, que alguns confundem com patrimonialização.
Luís Cunha
(Antropólogo. Associado da ASPA).

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