INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

terça-feira, 30 de junho de 2026

ENTRE ASPAS. "Festas de São João: persistência e mudança"

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Festejos de São João em Braga. Depois da leitura da noite (como nos conventos?), tomávamos chá em silêncio. Depois, eu à janela a observar as minhas colegas de liceu, para cá e para lá na Avenida, com vestidos a estrear.

Tremulavam grisetas. Os velhotes do asilo Conde de Agrolongo alugavam cadeiras a senhoras e cavalheiros da sociedade. As tílias rescendiam. E, ao soar da meia-noite na torre dos Congregados, trás, as cataratas de luz, o fogo-de-artificio. O quarto ali todo ouro, prata e furta-cores. O quarto e as copas das árvores que os pardais sobrevoavam assustados. No jardim, as minhas ex-colegas suspendiam o passeio para, de pescoço esticado, apreciarem lá em cima a artificiosa chuva de pérolas, de relâmpagos, de pranto.

Vinha, em seguida, o fogo-chinês: luminárias de bonecos de papel, subindo em círculo, rumo ao céu: o cavaleiro andante, o frade crúzio, a dama de saia de balão. (…).

À girândola final, um aparatoso estrépito sobre a cidade esventrada e verde, a vez das orvalhadas.

Descíamos antão a guilhotina da janela. De acordo com a tradição, orvalhadas a desoras traziam humores ruins… E dávamos as boas-noites.

                                                           Maria Ondina Braga, Vidas Vencidas, 1998

Esta evocação dos festejos de São João saída da pena de Maria Ondina Braga, renomada autora da cidade, cada vez mais reconhecida fora dela, é um bom ponto de partida para olhar a festa e a sua patrimonialização.

À palavra património associam-se, de forma mais ou menos imediata, ideias e valores que parecem vetores indiscutíveis para a consagração e reconhecimento dos objetos merecedores dessa chancela. Ideias como as de preservação e transmissão são centrais a um entendimento do que é o património, através delas se valorizando o contínuo temporal que faz dos bens culturais elos que ligam as diferentes gerações parecendo elidir o tempo. Do mesmo modo, valores como os da antiguidade, autenticidade e identidade, são quase sempre convocados quando se trata de defender o património. Ora, projetar uma defesa implica esperar um ataque, sendo em torno desta linguagem bélica que a narrativa do património se complica um pouco: Não há nunca quem ataque o património de forma aberta e declarada, muito embora existam refregas de onde o património sai ferido. Do mesmo modo, situações há em que a defesa cega do que se entende por património produz mais dano que benefício, desde logo quando o retira das coisas vivas para lhe dar o destaque próprio dos mausoléus.

Em relação à matéria tangível, seja um edifício, um monumento, ou uma paisagem, a ideia de preservação deve orientar o discurso e a prática patrimonialista. O ponto crítico, neste caso, é o do modelo de preservação, de restauro ou de renovação, matéria sensível que não cabe abordar neste apontamento. Centremo-nos antes na festa, sublinhando como a natureza intangível desta matéria nos obriga a sair do princípio geral da mera preservação. Se queremos pensar a festa no fio do tempo que gere os processos de patrimonialização, temos aqui que introduzir dois vetores fundamentais, o da dinâmica que mantém a festa viva e a do perigo de a asfixiar através da sua cristalização.

Voltemos à evocação que nos deixou Ondina Braga. Facilmente percebemos mudanças e continuidades, tanto na topografia que define o «para cá e para lá» da longa noite de São João, como nos eventos que caracterizam a festa. Doente, e por isso impossibilitada de se juntar às colegas de liceu, condenada a apreciar a festa da janela, a escritora pôde registar sinais, acordes, cores, modos de festejar de uma forma não implicada. De alguma forma fez o que se espera que seja feito por quem está encarregado de promover a sua patrimonialização. Note-se que, ao contrário de um monumento, a festa não se encerra num movimento de preservação, ao contrário, ela vive num permanente ajustamento entre a memória que nos transporta ao seu passado e a realidade social e cultural que marca o tempo em que a festa é levada à cena.

Trata-se de um ajustamento que se exige aos agentes que promovem a festa e a organizam, bem como àqueles que visam o seu reconhecimento como património cultural imaterial, um equilíbrio nem sempre fácil de alcançar. Se o empenho e o entusiasmo, às vezes temperados com bairrismo, e nem sempre na dose certa, são indispensáveis no processo, devem, ao mesmo tempo, ser capazes de se distanciar da festa, olhando-a como Ondina Braga fez, a uma distância que permita perceber que a festa é de quem a vive, e é quem a vive que deve desenhar o seu porvir.

Neste sentido, o passado da festa não pode ser o seu futuro, muito embora esse futuro não exista sem um passado que a legitime no fio do tempo, que permita essa ligação, real ou imaginada, pouco importa, entre gerações. Quem hoje assiste à dança do Rei David, à representação dos Pastores ou ao desfile do Carro das Ervas, sente-se transportado para o passado, pode fechar os olhos e imaginar que a seu lado tem pais, tios ou avós, os entes queridos que partiram mas que um dia assistiram àquelas mesmas encenações. Essa é uma espécie de magia que a festa permite. Importa considerar, no entanto, a outra face: a aceitação do que muda e a compreensão de que essa mudança é indispensável, pois só ela impede que a festa cristalize e morra de velhice. O que se cede em magia ganha-se em valor de uso, permitindo que as comunidades que vivem a festa continuem a fazer dela um instrumento importante nos processos de produção e reprodução social. O São João de Braga é, desde há muitos e muitos anos, importante para a cidade. Continua a sê-lo e assim promete continuar enquanto resistir tanto ao excesso de mudança, que transformaria a festa num mero cartaz turístico, como à febre a imutabilidade, que alguns confundem com patrimonialização.

Luís Cunha

(Antropólogo. Associado da ASPA).

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