INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

ENTRE ASPAS: "Fragmentos de Identidade: o piso, único, que sobreviveu à destruição de um castro"


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Na sequência do texto publicado no dia 5 de abril, sobre o Castro Máximo, importa agora lembrar a única estrutura salva da destruição de 2001, no âmbito da construção do Estádio de Braga para o EURO 2004. A única anterior à época romana, que até agora foi possível preservar deste sítio arqueológico. 


Piso de uma habitação da Idade do Ferro

Este resto de piso decorado, com motivos geométricos, entre outros, foi encontrado no interior de uma estrutura arredondada, datável da Idade do Ferro, no sopé do Monte Castro. Importa clarificar um dado importante: é raro - mesmo muito raro - surgirem fragmentos e restos daquilo que se costuma chamar de material de construção, datável da Idade do Ferro. Para a época romana temos centenas de milhares de tégulas, imbrex, tijolos e outros elementos que faziam parte das construções e coberturas das estruturas romanas. Ora para a época anterior a Idade do Ferro, ou época castreja, o que podemos registar, em alguns casos, são pequenos fragmentos de reboco de parede (alguns decorados) que poderiam cobrir a parte interna das estruturas ou, ainda, restos pequenos de pisos. Estes fragmentos podem ter 5 ou 10 cm de comprimento, com alguma sorte.

Felizmente, para nós, o piso1 retirado do Castro Máximo é um exemplar único e absolutamente ímpar na arqueologia do noroeste português e - arrisco a dizê-lo - do norte de Portugal. Explico porquê:

  • Em primeiro lugar estava quase todo preservado in situ. Isso significa que estava no seu local original, quase intacto, algo que para quem estuda a Idade do Ferro não é de todo comum.
  • Em segundo lugar, trata-se de um piso ricamente decorado. Conhecem-se muitos fragmentos decorados em muitos outros povoados do mesmo período, mas de pequenas dimensões, não se conseguindo, por isso, grande leitura sobre a organização dos motivos decorativos, quando estes fragmentos estão decorados, o que é algo raro. Não é esse o caso, aqui.

De facto, este piso em argila cozida encontra-se decorado em quase toda a sua superfície. Esta não é uma simples superfície de barro cozido, mas sim uma obra de geometria e beleza intemporal. Imagine um 'tapete' de argila cozida, onde a mão de um artista da Idade do Ferro traçou um retângulo dominante, subdividido em quatro campos quadrangulares e, a emoldurar esta composição, a icónica 'espinha de peixe' — muito comum na cerâmica da Idade do Ferro —, que confere dinamismo ao conjunto. No interior de cada quadrado, o simbolismo ganha vida: meias-luas alternam com círculos perfurados, criando um ritmo visual que transforma o que seria um simples chão num espaço de arte e, porque não, de prestígio para quem o habitava.

Um piso a valorizar

Perante tamanha riqueza visual e importância científica, é incompreensível que este objeto, que é testemunho de modos de construção da Idade do Ferro, passe quase despercebido no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, desde 2007, na sala 1, sendo apresentado como mais um vestígio arqueológico. Porém, nota-se que a legendagem/informação sobre este extraordinário testemunho dos Brácaros continua em falta.

Quem observa esta peça no museu não sabe de onde veio, que uso teve, quem a usou e em que época, quais as dificuldades relativas à sua conservação, qual o processo de levantamento e retirada do seu contexto original...com o objetivo da sua salvaguarda e preservação. Assim, esta peça passa quase despercebida.

Reitero o que tenho dito em variados fóruns: se as pessoas não sabem o que estão a ver num espaço museológico, porque não lhes é facultada informação sobre cada peça exposta, corre-se o risco de o material não ter relevância histórica nem patrimonial e ser interpretado como algo sem importância, como se de ruído se tratasse. Num Museu de Arqueologia é essencial disponibilizar informação de forma acessível, sobre cada objeto, especificando a sua função, localização original e contexto em que foi descoberto, de modo a que o cidadão comum sinta curiosidade pela descoberta do seu próprio passado. Os museus, sobretudo os de arqueologia, têm o dever de democratizar o acesso ao conhecimento e à cultura.

 

Um objeto, sem história explicada, é apenas uma “pedra” muda. Mas, se for explicado o seu uso, a localização e o contexto em que foi encontrada, através de uma narrativa atrativa, que apele à imaginação, a “pedra” dá Voz aos nossos antepassados, neste caso as populações pré-romanas que habitaram Braga, pelo menos, desde o séc. III a I a.C.

 

Esta “pedra” é, realmente, parte do piso de uma habitação com cerca de 2300 anos, que foi salvo, ao contrário de outras estruturas, para construir um Estádio para o EURO 2004.

Nuno Oliveira

Arqueólogo. Investigador.

 

1 piso retirado do Castro Máximo e pormenor da decoração.


Em Braga temos vários testemunhos da Idade do Ferro ou “Cultura Castreja” - Castro de Santa Marta das Cortiças (Falperra), o Castro Máximo (São Vicente), o Castro do Monte das Caldas (Gondizalves), o Castro do Monte Redondo (Guizande e S. Pedro de Oliveira) e o Castro do Monte da Consolação (Nogueiró).  Deste último temos, apenas, placas a referir a existência de estruturas, contudo nunca foi escavado.

Ou seja, não temos um povoado fortificado, vulgo castro, para apresentar a residentes e a turistas! De resto, o que temos é uma série de percursos pedestres que passam por alguns sítios arqueológicos de Braga.

Esperamos que, em breve, seja estabelecido um calendário tendo em vista o estudo, conservação e abertura ao público de, pelo menos, um Castro. Qual será o primeiro?

Uma intervenção recente, realizada no Castro de Sabroso, em Guimarães, é um bom exemplo para Braga.                                                            

 

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