INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

domingo, 5 de abril de 2026

ENTRE ASPAS: "Um castro e uma pedreira: a história de um povoado esquecido"

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O património arqueológico do concelho de Braga justifica, com certeza, um cuidado especial. Sendo vários os sítios arqueológicos, importa refletir um pouco sobre o que correu bem, menos bem ou mal, as perdas e os ganhos. 





De facto, e graças a múltiplos trabalhos de investigação e conservação, alguns sítios arqueológicos em Braga foram preservados, embora a muito custo: desde logo as termas romanas, a domus das Carvalheiras (que finalmente terá um espaço museológico e um tratamento digno de extraordinário exemplar da cultura romana do norte de Portugal), a domus da Escola Velha da Sé ou ainda o balneário da Idade do Ferro, que se encontra devidamente preservado no piso -1 da estação de caminhos-de-ferro de Braga.

Ora, se estes e outros casos são de facto dignos de nota e de visita obrigatória, importa registar que pouco ou nada se fez relativamente ao Castro Máximo, na freguesia de S. Vicente. Comecemos pelo início.


Castro Máximo

Como deveria ser do conhecimento público, este sítio arqueológico foi delapidado por diversas vezes. Inicialmente, nos anos 30 e 60 do séc. XX, serviu como pedreira, para extração de granito, e, então, foi destruída boa parte do Monte do Castro, onde se situava o Castro Máximo. Contou, depois, com várias escavações arqueológicas, datáveis dos anos 50 e 70 do séc. XX. Em 2001, decorrente dos trabalhos para a construção do estádio municipal de futebol de Braga (conhecido como “A Pedreira”), foram registadas, no sopé deste sítio, várias estruturas arqueológicas e diversidade de materiais arqueológicos datáveis da Idade do Ferro.

As referências a este local recuam até ao ano de 873, no contexto da delimitação de Braga, mas, durante séculos, o conhecimento sobre este sítio arqueológico permaneceu fragmentado em achados ocasionais de estudiosos como Martins Sarmento e Albano Belino. A transição para uma arqueologia científica ocorreu no século XX, evoluindo de escavações metodologicamente incipientes na década de 1930, a observações de sobreposição de ocupações, nos anos 50, para investigações universitárias sistemáticas na década iniciada em 1970, nomeadamente em 1977 e 1978. Este longo percurso de valorização e estudo culminou em 1984, com a classificação oficial do sítio como Imóvel de Interesse Público, e a definição da respetiva Zona Especial de Proteção (ZEP), pela Portaria nº281/ 1985.

Finalmente, e a partir do ano de 2001, no momento em que começam a realizar as fundações para o novo estádio de futebol para o EURO 2004, foi dado o alerta, não só por parte de trabalhadores como de arqueólogos que observaram coroas de muros e materiais que foram aparecendo à medida que as máquinas avançavam e as terras eram revolvidas. Após o alerta ao Gabinete de Arqueologia da Câmara, os trabalhos foram suspensos de imediato para dar lugar a uma escavação de salvamento. Embora o sítio se encontrasse protegido por uma ZEP, desde 1985, não foi realizado acompanhamento arqueológico da obra, desde o início da intervenção de máquinas. Nas revisões mais recentes do Plano Diretor Municipal de Braga, o Castro Máximo encontra-se devidamente assinalado nas plantas de ordenamento relativas a património arqueológico.

A circunstância de terem aparecido estruturas datáveis da Idade do Ferro, praticamente no sopé do monte, virado ao rio Cávado, deixou todos surpreendidos, uma vez que isso não é de todo comum. Face a este facto, e à qualidade dos materiais exumados, nomeadamente o extraordinário pavimento, em argila decorada (que trataremos noutro texto), bem como os vestígios arqueológicos encontrados (diversos muros, partes de estruturas redondas preservadas, etc.), a decisão, “questionável”, do Instituto Português de Arqueologia (IPA), foi o de não conservar as ruínas, e, apenas, salvar o espólio e o referido pavimento. Entretanto, entre 2005 e 2021, ocorreram alguns trabalhos apenas de identificação e prospeção no local.


Assim, há perguntas que devem ser feitas:

  • por que razão não se salvaram os testemunhos arqueológicos prévios à fundação de Bracara Augusta?
  • como foi possível não existirem, na tutela do património, notas de campo, nem relatórios dessa intervenção de emergência? Independentemente da entidade ou pessoas afetas ao trabalho científico que foi realizado. Finalmente, o único “relatório” que existe está consubstanciado numa tese de mestrado que ordenou a informação existente; nesse trabalho foi estudado algum do espólio que foi exumado das escavações de 2001.
  • que razões justificaram a construção do estádio perto de um sítio arqueológico, ocupando área do Castro, quando a escassos metros há uma outra pedreira da qual não se regista qualquer atividade humana antiga? Ou seja, foram vários os responsáveis pelo que ali aconteceu.

Finalmente, caros Bracarenses e concidadãos, quando, hoje, ouvirem nas notícias: “… mais um jogo na pedreira… em Braga.”, pensem que ali, existe um sítio arqueológico importante, tendo em consideração o espólio notável que restou do Castro Máximo, que é tão relevante, cientificamente, como o da Citânia de Briteiros. Deste sítio arqueológico, que foi sendo destruído ano após ano, com a construção do estádio como golpe final, só sobrou, e apenas, uma parte do topo do Monte Castro.

O que existirá nessa área do Castro Máximo? Esse é assunto que ainda falta esclarecer.


O estádio ficou bonito e ganhou prémios. A cidade beneficiou claramente do turismo que este exemplar de arquitetura representa e, claro, beneficiou também o futebol do norte de Portugal. Mas fica a pergunta: se foi possível integrar outros vestígios arqueológicos em edificado contemporâneo, porque não se integrou estes vestígios no projeto do estádio?

Enfim, este campo de futebol não podia ter sido construído noutro local?

 

Nuno Oliveira

Arqueólogo. Investigador.