INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2024 comemorou 47 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
Mostrando postagens com marcador ENTRE ASPAS 2024. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ENTRE ASPAS 2024. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de dezembro de 2024

ENTRE ASPAS "CONJUNTO EDIFICADO DA QUINTA DE S. JOSÉ (Fraião) SOB AMEAÇA Apesar de inventariado como património arquitetónico a proteger"

         PATRIMÓNIO INVENTARIADO EM RISCO

Um raro espaço rural, em plena cidade, que resistiu até ao séc. XXI. 

Por que razão a Câmara de Braga não lhe dá a atenção que seria de esperar, uma vez que lhe atribui distinção no Inventário de Património Arquitetónico que integra o PDM?


O Conjunto edificado da Quinta de S. José, em Fraião, foi distinguido como património arquitetónico, inventariado pela Câmara com o nº de inventário II 095, quer no Inventário de 2015, quer no PDM que vai entrar em discussão pública.

 

Braga tem, neste conjunto inventariado e envolvente, um precioso pulmão verde que se destaca no meio de uma área impermeabilizada, rodeado por torres de apartamentos. Inclui um espigueiro, muros e calçadas, a que não falta o castanheiro e outras árvores características nestes, já raros, espaços rurais. Encontra-se em plena área urbana, entre Fraião e Lamaçães.

 

Este conjunto rural é assinalado no ANEXO II - Zonas de proteção do património arquitetónico ou arqueológico inventariado e área urbana com proteção arqueológica, do Relatório do PDM (maio 2015). A Planta de Ordenamento - Património Classificado Inventariado - Sistema Patrimonial destaca a Quinta de S. José, bem como a respetiva zona de proteção, o que determina que a CMB dê uma atenção especial a este Conjunto e à sua envolvente. É o que impõe o PDM em vigor.

 

De salientar que, em 2024, a Quinta de S. José, e envolvente, encontra-se igualmente sinalizada, com o nº de inventário II 095, na Planta de Ordenamento “Salvaguardas Patrimoniais – Carta de Património Arquitetónico” do PDM, brevemente em discussão pública.

Qual a justificação para que esse conjunto se encontre em risco, uma vez que foi inventariado pela Câmara de Braga, como património arquitetónico a proteger, tanto em 2015 como em 2024? 

 

Em outubro passado, a ASPA foi alertada para a situação de risco de perda em que se encontrava o Conjunto da Quinta de S. José e, de imediato, alertou, por e-mail, os responsáveis na CMB pelo Património e pelo Urbanismo. Aguardamos resposta desde então.

 

A 27 de novembro, recebemos imagens que evidenciam a desmontagem do espigueiro, o que motivou novo e-mail aos referidos responsáveis na CMB pelo Património e Urbanismo, a quem perguntámos:

  • Se foi autorizada a desmontagem e retirada do espigueiro que integrava o Conjunto “Quinta de S. José”;
  • Se foi aprovado algum projeto para a área abrangida por esse Conjunto; 
  • Se ordenaram a fiscalização do espaço, depois da receção do e-mail da ASPA.

Ontem, 28 de novembro, recebemos novas imagens que evidenciam a ação de máquinas junto ao telhado e à casa. Quem autorizou?

 

A Planta de Ordenamento “Salvaguardas Patrimoniais - Carta de Património Arquitetónico”, do PDM que vai entrar em discussão pública, destaca este conjunto edificado com o número II 095. Assim, impunha-se que os serviços de Fiscalização da CMB fossem verificar as intervenções em curso neste conjunto edificado, pois os responsáveis pelo Património e Urbanismo receberam evidências de que o espigueiro já foi retirado e que o telhado indicia mexidas graves. Passaram 33 dias úteis desde o primeiro e-mail enviado à Câmara!

 

Será este um novo caso de INÉRCIA, por parte do Pelouro do Urbanismo, perante património arquitetónico do concelho de Braga? 

 

Perante a falta de resposta aos e-mails da ASPA, e as evidências que recebemos, poderá colocar-se uma nova questão: será que o Pelouro do Urbanismo licenciou obra para um local onde existe um conjunto inventariado no PDM de 2015 e, também, no PDM que brevemente vai entrar em discussão pública? A ser verdade, para que serve a inventariação do património edificado, se não for devidamente regulamentado, conforme era suposto ter acontecido depois da aprovação da versão atualizada do Regulamento, em agosto de 2021?

Caso não exista Regulamentação própria, como é devido, questionamos se essa eventual omissão, ao nível da gestão urbanística, poderá justificar todo e qualquer ato (exº demolições) sobre o património inventariado?

 

Perante este novo caso, questionamos mais uma vez:

QUEM GARANTE A SALVAGUARDA E PRESERVAÇÃO DOS VALORES DO PATRIMÓNIO EDIFICADO DO CONCELHO DE BRAGA?


OO texto publicado no Diário do Minho inclui um extrato de documento do PDM em vigor (2015), que especifica aspetos relativos a "recursos patrimoniais e respetivos espaços de proteção, especialmente a salvaguarda dos valores arquitetónicos, arqueológicos e urbanísticos, ..."


terça-feira, 5 de novembro de 2024

ENTRE ASPAS "DIA INTERNACIONAL DA GEODIVERSIDADE (6 outubro). Um longo caminho a percorrer"

Ampliar
Foi já há mais de dois anos que, neste mesmo espaço, se publicou um texto que abordava a geodiversidade e a necessidade de aumentar o conhecimento público sobre a sua importância. Foi nesse sentido que, em 2021, a UNESCO instituiu o Dia Internacional da Geodiversidade, que passou a ser celebrado anualmente a 6 de Outubro. Relembramos que a geodiversidade contempla a diversidade dos componentes não vivos do mundo natural, incluindo minerais, rochas, fósseis, formas de relevo, solos e os processos geológicos que lhes estão associados. A sua compreensão é crucial para entender as dinâmicas do planeta Terra.

As razões para a escolha recair sobre o dia 6 de Outubro foram três: 1) o primeiro documento conhecido em que o termo "geodiversidade" foi usado, com um significado semelhante ao que é utilizado atualmente,  foi publicado em Outubro de 1993; 2) as condições climáticas no início de Outubro, são, tanto no Hemisfério Norte quanto no Hemisfério Sul, suficientemente favoráveis  para que as comemorações deste dia possam decorrer ao ar livre; 3) aquando da decisão, era o único dia em Outubro que ainda não tinha sido proclamado como um dia internacional pela UNESCO ou pela ONU.

Com a criação do Dia Internacional da Geodiversidade, pretendeu-se aumentar a conscientização sobre a parte não viva do mundo natural entre os responsáveis pela concepção e implementação de políticas públicas e entre o público em geral, principalmente no que diz respeito a uma utilização mais responsável dos recursos da geodiversidade, que são, em muitos casos, finitos e não renováveis a curto e médio prazo, assim como alertar para a necessidade de uma distribuição mais justa de seus benefícios. Saliente-se a importante contribuição da geodiversidade para a implementação dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030, do Acordo de Paris sobre o Clima e do Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Catástrofes. O Dia Internacional da Geodiversidade pode ter, ainda, um importante papel na conscientização dos agentes educativos e, consequentemente, no desejável incremento de iniciativas que tenham como objetivo preparar as gerações futuras para que compreendam o papel da geodiversidade na superação de desafios como a adaptação à mudança climática, a redução do uso de combustíveis fósseis, o fornecimento adequado de água e a produção de alimentos e energia.

O tema da geodiversidade tem ainda muito pouco desenvolvimento no enquadramento jurídico português. Uma pesquisa pela palavra geodiversidade no arquivo do Diário da República (DR) revela apenas 120 resultados; já relativamente à biodiversidade, surgem 5246 resultados. O termo foi utilizado, pela primeira vez, em 2005, no DR, no despacho de criação do Mestrado em Património Geológico da Universidade do Minho e, concretamente, no contexto de uma das suas disciplinas designada por Geodiversidade. A legislação produzida nas regiões autónomas dos Açores e Madeira introduz o termo geodiversidade de uma forma bastante mais regular quando comparando com a legislação produzida no território continental. Veja-se, por exemplo, em 2008, por ocasião da criação do Parque Natural da ilha de Santa Maria (Açores) e, em 2015, aquando da aprovação da orgânica da Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais na Madeira. A nível nacional, destaca-se a inclusão do termo geodiversidade na Estratégia Nacional de Educação Ambiental (em 2017), na Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030 (em 2018) e, mais recentemente, nos novos Estatutos das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (em 2023).

Estas utilizações pontuais não resolvem, no entanto, o problema de base: não existe em Portugal um plano estratégico para a gestão da geodiversidade na sua globalidade multifacetada. Refira-se, com pesar, que, no que respeita ao município de Braga, não existe um único documento no website da Câmara Municipal referente à geodiversidade. Sendo Braga uma das principais cidades do país, é lamentável que a geodiversidade permaneça ignorada nas políticas municipais de ordenamento do território, de gestão da água ou de educação. Assim, não nos espantemos que as inundações na cidade sejam uma constante, dada a crescente impermeabilização do solo e o soterramento de linhas de água de caudal considerável que poderiam mesmo fazer parte de uma gestão cuidada do uso da água no município. Contribuindo para esta situação, não se vislumbra a capacidade de implementar bacias de retenção que permitam recolher água, aumentando a sua infiltração e disponibilizando-a para uso dos seres vivos, o que faria aumentar e diversificar a biodiversidade. Não nos espantemos com o empobrecimento e erosão dos solos, dada a quase inexistência de arvoredo adequado na cidade e a falta de uma gestão adequada na envolvente, onde prolifera a monocultura de eucaliptos. Mas espantemo-nos como, com uma urbanização desorganizada nas encostas do Bom Jesus e do Sameiro, ainda não tenhamos tido graves problemas de deslocamentos de terras; por enquanto, ficamos pelo desastre dos incêndios e pela destruição da paisagem de uma área classificada.

Se queremos percorrer o necessário caminho para um futuro ambientalmente e socialmente mais sustentável para todos, é imprescindível a compreensão da necessidade do uso responsável dos elementos e processos que constituem a geodiversidade.

                                               Teresa Salomé Mota

                                               (Geóloga)

terça-feira, 22 de outubro de 2024

ENTRE ASPAS: FÓRUM DO PATRIMÓNIO. União e mobilização de ONG do Património Cultural Construído

Ampliar

No dia 26 de outubro vai decorrer, em Braga, a 7ª edição do Fórum do Património, com o tema PATRIMÓNIO, DEMOCRACIA E CIDADANIA. É um fórum de ONG do Património Cultural Construído que visa unir e mobilizar estas associações em torno de objetivos comuns, dando-lhes VOZ efetiva junto das entidades que gerem e tutelam o património, e assegurando, desta forma, a sua participação ativa nas decisões, tal como se espera de uma Democracia.

A organização local está a cargo da ASPA, e da Fundação Bracara Augusta, e tem a colaboração das cinco ONG promotoras do primeiro Fórum do Património (GECoRPA, APRUPP, APAI, APAC e APCH).

 

O Património faz parte do quotidiano das comunidades e é um testemunho da sua identidade, refletindo valores, tradições e costumes. A sua preservação mantém viva a memória coletiva e contribui para a coesão social, fortalecendo o sentimento de pertença a um local e a uma comunidade. É este objetivo maior, comum às diferentes ONG portuguesas do Património, o grande motor dos Fórum: promover a união de esforços em torno da salvaguarda do património, uma atividade permanente que envolve a participação de todos!

Embora seja o primeiro Fórum do Património realizado no Norte, Braga já foi palco de um Encontro Nacional de Associações de Defesa do Património Cultural e Natural, em 1981, organizado pela ASPA. 45 anos depois há problemas por resolver! O país continua a perder Património - material e imaterial – e, também, paisagem cultural, sendo urgente mudar este paradigma que perdura até aos dias de hoje.

Atendendo às problemáticas alvo e ao interesse manifestado, esta edição foi aberta a estudantes de ensino superior, a técnicos de autarquias e a profissionais autónomos que intervêm nesta área. É uma oportunidade, necessária, de formar e refletir sobre o Património construído em Portugal.

 

Pretende-se perceber qual o compromisso público no âmbito de uma estratégia nacional de salvaguarda do património, analisar o impacto do simplex urbanístico e do turismo no edificado com valor patrimonial e, também, sinalizar garantias para a proteção e salvaguarda do património cultural construído. Foi estruturado em quatro painéis, devidamente articulados para permitir um diagnóstico da situação atual e a tomada de posição das ONG sobre as problemáticas colocadas a debate: Estratégia Nacional de Salvaguarda do Património; Património, Qualificação e Ética; Intervenção no Património e Interesses Económicos; Gestão do Património Cultural.

 O Painel 1 - Estratégia Nacional de Salvaguarda do Património -, moderado por João Pedro Cunha Ribeiro, tem como oradores João Soalheiro (Presidente do C.A. do Património Cultural I.P.), Jorge Sobrado (Vice-Presidente da CCDR N Cultura e Património) e Guilherme D`Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura).". O desenvolvimento de políticas públicas no âmbito da administração central, regional e local, exige a clara definição de uma Estratégia Nacional de Salvaguarda do Património, que deve contar com a ativa participação dos cidadãos no processo, apostando na formação de públicos e numa perceção mais alargada, por parte da Sociedade, da importância estratégica do Património Cultural.

O painel 2 - Património, Qualificação e Ética –, moderado por Alice Tavares, tem como oradores Dulce Lopes (Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra), Avelino Oliveira (Presidente da Ordem dos Arquitetos) e Fernando de Almeida Santos (Bastonário de Ordem dos Engenheiros). A demolição e descaracterização dos centros antigos, mesmo que enquadrada na Lei, não pode continuar a ser uma prática comum na reabilitação do património edificado. A necessidade de qualificações específicas e responsabilidade ética para atuar no Património constituem, por isso, desafios para técnicos e autarquias, que devem estar preparados para os confrontos que a Lei atual lhes coloca. Em particular, o que se deve esperar destes agentes na defesa do Património, em face do Simplex?

O painel 3 - Intervenção no Património e Interesses Económicos -, moderado por Miguel Bandeira, tem como oradores António Baeta (Turismo de Portugal), José Miguel Sardinha (Advogado) e Vítor Cóias (Grémio do Património - GECoRPA). O uso sustentável do património cultural, incluindo o da sua vertente construída - urbana e rural -, pressupõe políticas económicas esclarecidas e dispositivos legais dissuasores e eficientes. Respeitando a integridade do Património Cultural, investe-se no seu verdadeiro valor ambiental, social e económico, reconhece-se a identidade de cada cidade/concelho e país, ações fundamentais para a formação da memória coletiva e para uma maior coesão social, presente e futura. Encontrar o equilíbrio entre a utilização do património para fins económicos/financeiros e a salvaguarda sustentável dos valores que lhe são inerentes é o grande desafio que se coloca a quem define e executa tais políticas. 

O painel 4 - Gestão do Património Cultural –, moderado por Alexandra Cerveira Lima, tem como oradores Maria Manuel Oliveira (Escola de Arquitetura/Universidade do Minho), Filipe Ferreira (AOF), Luís Raposo (PP Cult) e Ana Paula Amendoeira (Vice-Presidente do ICOMOS). Importa olhar, numa breve aproximação, as políticas patrimoniais neste percurso de 50 anos de Democracia e, neste contexto, abordar o papel das entidades da Administração Pública, a eficácia da legislação de enquadramento, os instrumentos e práticas de salvaguarda e o lugar da sociedade civil, designadamente das associações de defesa do património. O Projeto e obra de conservação, valorização e promoção do Convento de São Francisco de Real, em Braga, aprofunda e enriquece a análise, e dá o mote para uma outra reflexão: a da prática e pensamento do arquiteto face aos valores patrimoniais.

 

Este Fórum do Património terá, no mesmo auditório, responsáveis pela tutela do Património, organismos que intervêm no património, profissionais que projetam para o património, outros que executam obra no património e, obviamente, as ONG do património cultural construído, que reivindicam a sua proteção e salvaguarda e exigem uma atuação firme, da parte dos organismos a quem compete garantir a proteção do Património local e nacional.


A UNIÃO FAZ A FORÇA! 


Mais informação: https://www.forumdopatrimonio.org/forum-24/

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

ENTRE ASPAS "A INÉRCIA É INIMIGA DO PATRIMÓNIO! A recente “limpeza” na envolvente do Complexo das Sete Fontes.

A INÉRCIA É INIMIGA DO PATRIMÓNIO, PORQUE O COLOCA EM RISCO!

O recente abate de árvores autóctones na envolvente do Sistema Hidráulico Setecentista (Complexo das Sete Fontes), sem que houvesse uma atuação rápida e eficaz por parte do Município de Braga de modo a impedir/proibir a “limpeza” iniciada por proprietário/a do terreno, é motivo de apreensão por parte de quem lutou, durante anos ou décadas, para que o monumento fosse classificado e  a respetiva ZEP devidamente protegida e que aguarda, há mais de uma década, que o Parque Verde Eco Monumental seja disponibilizado à população. Destacam-se instituições e pessoas que integraram o movimento "Salvemos as Sete Fontes", nomeadamente a ASPA e a Jovem Coop, a Junta de Freguesia de S. Vítor, representada por Firmino Marques e, mais recentemente, por Ricardo Silva e, também, Miguel Bandeira, tanto ao nível associativo como político.


Tratando-se de um Monumento Nacional que está protegido pela Lei do Património e, ainda, pelo Plano de Urbanização das Sete Fontes, que teve em vista a criação do Parque Verde que os bracarenses tanto desejam, não se compreende que só ao terceiro dia da “limpeza” o Município tenha notificado o proprietário, com a necessária intervenção da Polícia, para que o abate fosse definitivamente proibido e a máquina abandonasse a envolvente do monumento.

Foram vários os alertas. Desde início, por parte da ASPA e também, segundo as noticias, pela JF de S. Victor, por cidadãos e, mesmo, por elementos do pelouro do Ambiente, razão pela qual se estranha que o pelouro do Urbanismo não desencadeasse, ao primeiro dia da “limpeza”, o processo administrativo previsto nestas circunstâncias. A ASPA insistiu junto dos responsáveis que a notificação do Município, junto da PSP, fosse apresentada com base no definido no artº 10º do Regulamento do Plano de Urbanização das Sete Fontes, relativo a “Alterações topográficas e abate de árvores”, que especifica o seguinte “Sem prejuízo da legislação em vigor, relativa ao corte de arvoredo, apenas são permitidas alterações topográficas ou abate de árvores que cumpram as condições estabelecidas em licenciamento municipal ou desde que exista expresso reconhecimento, pela CMB, da conveniência funcional dessa alteração.”.


Um avivar de memória

 O esforço elevado, por parte do anterior Vereador do Urbanismo - Miguel Bandeira - e, também, da Arquiteta Fátima Pereira, que lhe dava assessoria, bem como da equipa liderada pelo Engº. Jorge Carvalho, responsável pela elaboração do Plano de Urbanização que vai permitir a criação do Parque Verde das Sete Fontes, resultou na publicação desse Plano, em Diário da República, a 24 de setembro de 2021. Assim, o atual vereador do Urbanismo recebeu uma herança que teria permitido a construção de um Parque Verde por etapas, conforme previsto, uma vez que uma parte significativa estava sob gestão do Município de Braga desde 2021. A salvaguarda do monumento estava acautelada e os moldes da execução do parque definidos no estudo prévio aprovado para o Parque Urbano. Esta etapa do salvamento do Complexo das Sete Fontes não foi processo fácil, mas foi um sucesso sob o ponto de vista de planeamento e proteção do património, na medida em que implicou a suspensão do PDM anterior, que previa índice de urbanização máximo na ZEP das Sete Fontes, bem como a negociação com a Infraestruturas de Portugal para retirar a variante à EN 103 por Gualtar e, ainda, a opção por Unidades de Execução Urbanística que lançou o paradigma da perequação no concelho de Braga e que garante a cedência de área verde para o Parque Eco Monumental das Sete Fontes. O restauro do Sistema Hidráulico Setecentista também foi realizado na gestão de Miguel Bandeira.

 

Em 2024, custa acreditar que o atual responsável pelo Complexo das Sete Fontes, e respetiva equipa, não conhecesse(m) o Plano de Urbanização das Sete Fontes nem a Lei do Património. Se conheciam as Leis que são o suporte para a notificação... terá sido por inércia que só avançaram ao terceiro dia da “limpeza”, após insistência por parte da ASPA e alerta público por parte do Presidente da JF de S. Victor, de cidadãos e, até, de elementos do Pelouro do Ambiente?

 

Esperamos que o alerta público provocado por este abate de árvores autóctones, num Monumento Nacional que dará lugar a um Parque Verde que se quer para breve, tenha contribuído para que os proprietários de terrenos nas Sete Fontes percebam que não podem intervir nesta área como se de um terreno qualquer se tratasse.

Tudo indica que, nos últimos três anos, as Sete Fontes foram esquecidas e, talvez por isso, foram afastados os parceiros determinantes para a salvaguarda deste bem cultural.

Será cumprida a promessa feita, em 2013, de criação de um Parque Verde Eco Monumental nas Sete Fontes?

 

A recente “limpeza” na envolvente do Complexo das Sete Fontes deixou avisos a todos: políticos, proprietários e população que, desta vez, se mostrou atenta e aproveitou as redes sociais para denunciar o abate.

 

Não podemos esquecer que a Salvaguarda das Sete Fontes é uma vitória da CIDADANIA, mas exige uma atuação firme e informada por parte de quem é responsável por este dossiê.

 

A inércia é inimiga do Património, porque o coloca em risco!

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

ENTRE ASPAS "O VALOR DO PATRIMÓNIO IMATERIAL"

O VALOR DO PATRIMÓNIO IMATERIAL
O modelo económico que se consolidou na Europa a partir do séc. XVIII, estendendo-se depois a todo o planeta, assenta em vários pilares. Um dos mais relevantes é o da atribuição de um valor de mercado a todos os bens materiais suscetíveis de ser transacionados, incluindo a terra, ficando apenas salvaguardados aqueles que pelo seu valor simbólico contribuem para afirmar identidades coletivas – certos castelos, palácios, catedrais. Os bens intangíveis, muitas vezes associados a sentimentos e afetos, como os que se expressam em festas e celebrações, laicas e profanas, acabaram igualmente, por adquirir valor de mercado, neste caso mediado pela matriz do património cultural. Temos, assim, uma ideia nova, indissociável da afirmação da burguesia, primeiro comercial, logo industrial: certos bens têm valor patrimonial pelo que representam, de tal forma que toda a comunidade nacional se deve implicar na sua preservação.

É partindo deste quadro que devemos entender uma boa parte dos debates contemporâneos acerca do património. Quando está em causa a preservação de um bem patrimonial material (palácio, palacete, casebre ou paisagem), é frequente o confronto entre os interesses adquiridos por privados e um certo entendimento daquilo que é o interesse comum. Na legitimação do interesse privado pesa não apenas a sacralidade da propriedade mas também uma invenção da modernidade: a transformação dos bens fundiários em mercadorias transacionáveis e geradoras de mais-valias. A ideia de interesse comum sustenta-se, por seu lado, numa outra ideia moderna: a de que a preservação do património cultural é indispensável aos processos de reprodução social das comunidades de que é parte. Ilustrações vivas desta tensão não faltam, também na cidade de Braga – desde a valorização hoteleira do edifício contíguo ao Recolhimento das Convertidas, com construção de novos edifícios em Zona Especial de Proteção do Monumento, ao utilitarismo imobiliário da Fábrica Confiança – mas consideremos, desta vez, de que forma a referida tensão se observa quando falamos de património imaterial.

Pensemos em festas que são hoje parte importante da vida da cidade, seja o S. João, a Braga Romana ou a Semana Santa. Ainda que ninguém seja proprietário das festas, ao contrário do que sucede com algum do património construído, nem por isso a tensão entre interesse privado e público deixa de se manifestar, pois nem mesmo o património intangível escapa ao mercado e à inscrição numa folha de cálculo do interesse financeiro. Queremos com isto dizer que o valor da Semana Santa ou do S. João é indissociável da sua configuração enquanto produto que tem valor de mercado. Quantas pessoas traz à cidade? Quanto dinheiro despendem em alojamento, comida e frivolidades? Quem beneficia com esta crescente e esmagadora turistificação do património que a todos pertence?

Importa, então, destacar dois aspetos. O primeiro chama-nos a atenção para o facto de que a valorização do património cultural, feita quase sempre através de dinheiros públicos, tende a favorecer determinados segmentos da comunidade, sejam eles agentes individuais ou coletivos. O segundo aspeto é ainda mais importante. Alerta-nos para o risco de o discurso patrimonialístico poder conduzir a uma desvalorização real do património enquanto recurso de que as comunidades necessitam para o funcionamento dos processos indispensáveis à sua existência e reprodução. Nos processos de patrimonialização já em curso ou ainda em desejo, como Semana Santa ou no S. João de Braga, é fundamental ponderar a relação entre a sua valorização no mercado turístico e o risco de romper a sua relação com o tecido social que faz a cidade. Risco gerado pelos interesses do mercado, que gere mais facilmente um património cristalizado, semantizado de acordo com quadros de reconhecimento globais (onde se inclui a UNESCO), do que um património vivo e dinâmico, capaz de ligar passado, presente e futuro. Esta tessitura de um tempo contínuo que o património cultural nos oferece é indispensável à vida de qualquer comunidade, sendo fundamental resistir à sua erosão, mesmo quando esta é determinada por processos históricos que parecem tão imparáveis como o da mercadorização dos valores a que vimos assistimos.

Classificação e reconhecimento

Sendo antiga e tendo conhecido várias vidas, o reconhecimento de bens patrimoniais relevantes para as comunidades é indissociável da emergência dos nacionalismos oitocentistas, que tanto deram destaque à memória plasmada em monumentos, quanto ao que o povo expressava nas artes populares ou no folclore. Mais tarde, no final da II Guerra Mundial, a UNESCO assumiu um papel de relevo na preservação do património cultural, começando por dar atenção ao património construindo, para depois atender à paisagem (1972) e mais tarde ao património imaterial (2003). Na Convenção que o consagra, entende-se por património imaterial: “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural”, ao mesmo tempo que se tipificam cinco áreas de intervenção: Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vetor do património cultural imaterial; Artes do espetáculo; Práticas sociais, rituais e eventos festivos; Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza e o universo; Aptidões ligadas ao artesanato tradicional.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

ENTRE ASPAS " OS ANJINHOS ESTÃO À CHUVA. Casa nº 161 da Rua de S. Vicente"

Ampliar

A observação atenta do Mappa das Ruas de Braga (1750) permite-nos identificar esta casa na Rua dos Chãos de Sîma (atual Rua de S. Vicente), alçado norte, com o número de referência 49 de casa foreira ao Cabido da Sé de Braga. Também está assinalada na Planta de Goullard, datada de 1883-84.  
Estes documentos são essenciais à sinalização do edificado que resistiu até ao séc. XXI, relativamente ao qual se espera uma atenção especial por parte do Município de Braga.

A casa manteve elementos que permitem afirmar que se trata de um exemplar quase único da arquitetura do séc. XVIII, nomeadamente o recorte das janelas e as "namoradeiras" de granito; a pintura de teto com moldura oval, assente em tábuas de madeira e um teto em masseira, ambos no 1º piso; a entrada com escadas e lajes em granito. Também apresenta painel interior de azulejos e um vão de escada em madeira até ao 2º piso e, no logradouro, um fontanário em granito ladeado de bancos e, ainda, painéis de azulejo.

Rua dos Chãos de Sîma (hoje Rua de S. Vicente)

Mappa das  Ruas de Braga (1750). 



Em defesa do património...

Em agosto de 2024, fomos alertados para a obra iniciada no nº 161, o que motivou a atuação da ASPA junto do Presidente da CMB e do Vereador do Urbanismo, com envio de documentos que atestam a importância patrimonial desta casa, construída no séc. XVIII e que manteve, até 2024, os testemunhos da arquitetura original. O telhado e beiral foram retirados em agosto e na semana passada foram retiradas as traves de teto, em madeira, de 2º piso, ficando a casa sem proteção contra a chuva, apesar do valor patrimonial da pintura e do teto em masseira, ambos em madeira.

 

A ASPA solicitou informação sobre o modo como está previsto integrar os testemunhos da arquitetura original, bem como as medidas preventivas adotadas no sentido da proteção desta pintura do sec. XVIII e teto de madeira em que está assente e, ainda, o tipo de obra autorizada e condicionantes impostas para garantir a salvaguarda de cada um dos testemunhos da arquitetura original referidos, de acordo com o definido no Artigo B-3/10º do Título III - SALVAGUARDA E REVITALIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO - do Código Regulamentar de Braga.

Também referimos a ausência do Aviso de obra que, entretanto, foi colocado.

 

Sabendo que a chuva é um dos piores inimigos das pinturas e das madeiras, contactámos a Divisão de Gestão Urbanística da CMB, sendo-nos garantido que o arquiteto responsável faz visitas regulares à obra e já alertou para que protegessem a pintura de teto e os outros tetos em madeira, bem com os restantes elementos patrimoniais a salvaguardar. Também deu garantias da integração dos elementos em granito e painel interior de azulejos da entrada, bem como do fontanário, pequenos painéis de azulejos do logradouro e parte da escadaria em madeira. Ficámos a saber que o atual projeto, para esta casa do séc. XVIII, prevê a construção de sete T1 e quatro pisos, sendo o último em forma de mansarda virada à rua de S. Vicente.

Antes, em 2016, foi colocada publicidade na fachada desta casa, que anunciava a “Venda de edifício com projeto aprovado para T1, T2 e T3”. O então vereador do Urbanismo despachou no sentido de os valores patrimoniais atrás enunciados serem integrados no projeto criando condicionantes que, felizmente, impediram a demolição integral do interior, conforme previsto.

 

Pintura oval do teto 

Esta pintura, na sala principal, é assente em tábuas de madeira e tem uma moldura oval com um friso composto por um feixe de folhas douradas e, no centro, um grupo de anjinhos (putti). Pelos motivos naturais, o estilo e o facto de ser pintada em madeira, trata-se, seguramente, de uma pintura do século XVIII, exemplo raro, hoje em dia, da decoração de uma casa de habitação da época.

A importância patrimonial desta pintura foi confirmada no dia 25 de agosto, pela Doutora Giuseppina Raggi, reputada especialista em História de Arte (Universidade de Coimbra), no contexto da celebração dos 300 anos da Pintura do Salão Nobre do Palácio dos Biscainhos. Saliente-se que, nessa mesma celebração, foi destacada a importância histórico patrimonial da pintura de tetos em Braga, da mesma época, nomeadamente o da Igreja do Salvador e o da Capela de S. Gonçalo, no Recolhimento das Convertidas. 

 

Importa ter presente que a salvaguarda e valorização de elementos da arquitetura original de edifícios – interior e frente de rua – é sinal do valor atribuído ao Património e à Cultura e é essencial à preservação da identidade de cada cidade. Por isso mesmo a ASPA pediu a classificação da rua de S. Vicente, em 2017, o que, infelizmente, não se concretizou.

Relembramos que o regulamento de SALVAGUARDA E REVITALIZAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO foi sujeito a discussão pública, em 2020, na qual a ASPA participou mas, desde então, não foi divulgada nem publicada a versão final.

 

Assim, a ASPA espera uma atenção redobrada, por parte da Divisão de Urbanismo da Câmara de Braga, em relação à obra em curso, conforme nos foi garantido na reunião realizada na quinta-feira passada. Pelo que é indispensável, efetivamente, o acompanhamento e fiscalização da obra, na fase crítica em que se encontra, uma vez que a casa está sem telhado e sem cobertura do 2º piso, correndo-se o risco de expor à chuva a pintura do séc. XVIII, o teto em masseira e outros, também de madeira, resultando em danos irreversíveis. Também esperamos o acompanhamento, no âmbito de demolição autorizada e da posterior integração dos elementos decorativos, de modo a garantir que se mantenham como testemunho da arquitetura do séc. XVIII.

sábado, 17 de agosto de 2024

ENTRE ASPAS "IMPRESSÕES SOBRE A CIDADE. Os arquivos fotográficos de Manuel Carneiro e Arcelino de Azevedo"






JÁ VISITOU A EXPOSIÇÃO?  Termina no próximo sábado, 31 de agosto.

Aproveite para conhecer a imagem urbana de Braga, de final do séc. XIX até meados do séc. XX.
 






Ampliar

Decorridos quase cinquenta anos da criação do Centro de Documentação Fotográfica (Fototeca do Museu Nogueira da Silva), tardava a realização de uma grande exposição, agora concretizada, sobre dois dos importantes arquivos ali preservados, a exposição “Na Sublimação do Tempo: Braga nos Arquivos Fotográficos de Carneiro e Arcelino”, a decorrer até 31 de agosto, na Galeria do Paço e na Galeria do Jardim no Museu Nogueira da Silva.


No final da década de 70, do séc. XX, a ASPA recebeu os Arquivos Fotográficos, de Manoel Carneiro e Arcelino de Azevedo, que retratam a cidade de Braga, Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo e outras zonas do Minho. Estes espólios,  que incluem grande número de negativos em vidro (de Manoel Carneiro), encontram-se à guarda do Museu Nogueira da Silva/Universidade do Minho, no âmbito de um protocolo que a Universidade estabeleceu com a ASPA em 1987. 

Esta exposição fotográfica, patente ao público até 31 de agosto, mostra-nos uma grande variedade de elementos que permitem:

  • o estudo desse período da história de Braga, através das praças e das ruas, do edificado e de monumentos, de equipamentos urbanos, do vestuário, do mobiliário e adornos,  das festas e romarias, dos transportes, das vivências urbanas e rurais, dos desportos, dos brinquedos, etc. -,  registadas por Manoel Carneiro e Arcelino;
  • descobrir património arquitetónico que se perdeu e, também, o que foi conservado e valorizado;
  • identificar períodos da história urbana de Braga em que se perdeu e/ou valorizou património;
  • descobrir períodos da governança da cidade, e respetivos políticos, que marcaram a imagem urbana, tanto em termos positivos como negativos.
Também facilita a reflexão sobre o presente, uma vez que incentiva à identificação de perdas e ganhos devidos a decisões políticas atuais, no que ao Património arquitetónico diz respeito.
Neste e no próximo "Entre Aspas" poderá descobrir em que contexto chegaram estes ar arquivos fotográficos à mão da ASPA, quem contribuiu para a sua preservação e divulgação. Caso a fotografia antiga lhe interesse, em termos académicos, ficará a  a conhecer artigos já publicados sobre estes arquivos fotográficos.

Esta exposição está patente ao público no Largo do Paço e Museu Nogueira da Silve, até 31 de agosto. 


Mais informação sobre este assunto:

  • Mateus, Luís Manuel (1982), “Museologia da fotografia em Braga e (porque não?) no País inteiro”, MINIA, nº 6, ASPA, pp. 74-75
  • Mateus, Luís Manuel (dez. 1980-jan. 1981), “Centro de documentação fotográfica constituído em Braga”, História, nº 26-27, Publicações Projornal, Lda.ª, pp. 82-86
  • Mateus, Luís Manuel (1990). "Museus e arquivos de fotografia. Que fazer com 150 anos de património fotográfico". Actas do I Encontro Nacional sobre o Património Industrial (1986), Vol. II, pp. 429-436.
  • Manoel Carneiro : um fotógrafo na transição do século / [ed .lit.] Câmara Municipal de Braga – Museu da Imagem. Braga: Câmara Municipal de Braga – Museu da Imagem, D.L. 2009. – 60 p. : il. ; 21 cm. – (Colecção do museu ; 14). – ISBN 978-972-8611-17-0
  • Manoel Carneiro (2017)
  • Araújo, Nuno Borges de, A fotografia e o postal ilustrado: origens e influências
ENTRE ASPAS: 

domingo, 28 de julho de 2024

ENTRE ASPAS: "Conservatório de Música Calouste Gulbenkian"

Ampliar
Para relembrar a importância do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, na formação artística, científica e humanística de várias gerações de estudantes, pedimos a colaboração de duas pessoas com ligação a esta escola: Cristina Fernandes, filha do arquiteto Domingos Fernandes, co-autor do projeto de arquitetura que deu origem ao edifício que hoje conhecemos; e Ana Maria Caldeira, que foi diretora desta Escola durante largos anos e conhece bem as etapas que permitiram a concretização de um sonho, da professora Adelina Caravana, que teve início na Praça Mouzinho de Albuquerque, há quase 65 anos. Um sonho que permitiu a construção de um edifício emblemático que garantiu espaços dedicados às várias áreas disciplinares, proporcionou vivências marcantes e memórias duradoiras. Permitiu que Braga tenha, hoje, músicos com prestígio internacional, em orquestras e espaços de espetáculo de referência a nível mundial.

A memória descritiva deste projeto surpreendeu-nos pela sensibilidade demonstrada, pelos arquitetos Manuel D´Ávila e Domingos Fernandes, relativamente às disciplinas artísticas e suas necessidades em termos de espaços e características sonoras, nomeadamente a criação de biblioteca-discoteca, com sala de leitura e cabine de audição de discos, salas para audição e gravação de discos, sala de ballet, salas para Artes Plásticas e espaços de exposição, diversos espaços destinados a espetáculo, no interior e no exterior, articulados com salas de aula das restantes disciplinas do currículo, sem esquecer área verde para garantir o bem-estar dos utilizadores. Revelam, ainda, um cuidado especial quando referem a importância da orientação solar para o edifício e, ainda, do desnível do terreno como vantagem para que o auditório tivesse as características desejadas em termos sonoros e de espaço.

Este projeto, com três núcleos distintos, demonstra a importância do conhecimento interdisciplinar por parte dos arquitetos, em articulação com a pessoa que sonhou o uso a dar a este equipamento educativo destinado ao ensino artístico: a professora Adelina Caravana.

Espera-se que o espírito que presidiu à criação deste espaço educativo seja respeitado por muito e muitos anos...


O ensino artístico especializado da música em regime integrado em Braga

O Conservatório Regional de Braga nasce a 7 de novembro de 1961 como uma instituição de tipo associativo e de caráter particular, com o empenho e força de vontade da sua fundadora, Prof. Adelina Caravana e o extraordinário apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que forneceu os instrumentos musicais. Com o desenvolvimento que atingiu no campo musical, a fundadora consegue que a Fundação a apoie mais, com um edifício novo capaz de albergar o seu projeto, porque as instalações que possuía eram insuficientes e antigas. A sua persistência e audácia concretizam-se num projeto encomendado aos arquitetos Manuel d’Ávila e Domingos Fernandes. A Fundação Calouste Gulbenkian assume a construção de um edifício de raiz, que foi inaugurado a 31 março de 1971, reconhecendo-lhe o seu importante papel na descentralização da cultura musical.

Com novas instalações e por vontade expressa do presidente da Fundação e da diretora da escola, o Conservatório passa a ter novas perspetivas: acrescenta várias áreas no domínio artístico e preconiza nos seus planos curriculares que os alunos, a par dos seus cursos de arte, poderiam terminar o curso liceal, assim como frequentar de seguida o curso superior de piano. O edifício estava pensado para albergar todas estas vertentes de ensino, com salas para aulas individuais de instrumento, para coros ou orquestras e salas para a formação geral, laboratório para as ciências, biblioteca, sala de dança, um grande auditório com uma capacidade de 300 lugares e um palco com uma acústica excelente, para além de um outro pequeno auditório (90 lugares) com vista para um jardim, através de uma parede em vidro no palco, a partir do qual se observa um pequeno auditório, ao ar livre, em granito. Foi criado um edifício único, uma construção soberba e impactante na cidade de Braga, que sempre albergou um projeto educativo de sucesso: uma escola de ensino artístico especializado da música em regime integrado, em que os alunos passam a ter todas as disciplinas do seu currículo escolar no mesmo edifício.

A partir de outubro de 1971, a Fundação transfere para o Ministério da Educação Nacional estas instalações com o nome de Escola Piloto de Educação Artística, por ser considerada uma experiência ímpar de âmbito pedagógico e artístico. Passou a ser uma escola oficial e gratuita, com ensino pré-primário, primário, ciclo preparatório e liceal e várias secções: música, com cursos complementares e curso superior de piano; ballet; artes plásticas e fotografia; arte dramática. Com o desenrolar do tempo e as sistemáticas alterações curriculares, muitas destas valências foram desaparecendo, reafirmando-se cada vez mais o ensino especializado da música.

Atualmente, a Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga assume-se como uma escola de elevado nível técnico e artístico fazendo justiça ao seu Projeto Educativo e à sua essência.

                                                           Ana Maria Caldeira

 

Testemunho vivo do investimento no ensino artístico integrado

O Conservatório Regional de Braga congregava em si os valores sublimes que estão na base de uma sociedade: transmissão de conhecimento sistémico, multidisciplinar e inclusivo, integrando a música, as artes plásticas e as artes performativas, a par das demais áreas do conhecimento humanístico e científico de cada plano curricular.

Este desígnio esteve na base da concepção arquitectónica do edifício, a par de outras referências como a envolvente e a orientação solar, expressas através das palavras dos autores do projecto num texto publicado em 1971, ao referirem que "A composição formal do edifício do Conservatório Regional de Braga, foi [...] condicionada pela mancha do terreno proposto, rodeado de arruamentos e pela orientação solar. Dentro de essas premissas houve que articular os vários núcleos de actividades pedagógicas, núcleos [...] com vida independente embora interligados entre si e formando o conjunto do edifício. [...] o corpo do Conservatório compreende as salas de aula com um laboratório de línguas, vários gabinetes de estudo de instrumentos musicais, biblioteca, discoteca, um pequeno auditório para 100 lugares, sala de "ballet" e ginástica rítmica, a entrada principal e um amplo espaço polivalente seguido de 300 lugares sentados em anfiteatro. Este espaço destina-se aos espectáculos de concertos, "ballet" ou até exposições, substituindo assim o tradicional recinto criado especificamente para tais funções, normalmente com esporádica ocupação temporária.

Assim, destina-se-lhe uma vida permanente como sala de convívio e reunião de alunos, [...] apetrechado de modo a permitir a sua transformação, "por montagem", em palco, com as dimensões mais aconselháveis à utilização que se pretenda, desde a simples conferência, ao concerto de câmara, até ao grande concerto, espectáculos de "Ballet", coros, etc., [...] ainda a montagem de exposições.

O núcleo de Artes Plásticas [...], compreendendo salas para pintura e salas para escultura ou cerâmica às quais se anexam várias salas de tecnologia que permitem multiplicar as actividades para outros ramos de preparação plástica. Este grupo de salas [...] em 2 níveis, permitindo a análise em perspectiva do trabalho executado, foi projectado com relativa independência, pois que se destina simultaneamente aos alunos do Conservatório, do Ciclo Preparatório e ainda a alunos externos, em regime extraordinário, que nele queiram desenvolver ou cultivar as suas tendências artísticas.

Sob o ponto de vista estético, o princípio adoptado é o resultante da própria forma da célula base, estritamente funcional, dos volumes dos vários núcleos que constituem o Conservatório e baseia-se na tradução tão franca quanto possível da estrutura, tratamento das superfícies fechadas e abertas, de acordo com a finalidade proposta para cada dependência. [...] procurou-se que a conservação exterior do edifício fosse a menor possível, optando-se pelo betão simplesmente descofrado em toda a estrutura aparente e o tijolo prensado nos panos fechados. Essa célula base com a forma hexagonal que constitui as aulas foi estudada de modo a tirar o máximo rendimento do movimento da luz solar e, a permitir a maior liberdade pedagógica na composição do equipamento escolar, de acordo com as múltiplas idades dos alunos e a finalidade de cada uma dessas aulas. [...]" (1).

Cristina Fernandes

Arquitecta. Filha de Domingos Fernandes

 

(1) in "Binário – Arquitectura. Construção. Equipamento" n.º 150, Março 1971.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

ENTRE ASPAS "Lavadouros públicos - Espaços de memória do urbano e do rural"


Ampliar

Os lavadouros, fontanários e tanques de rega estão intrinsecamente ligados ao uso quotidiano da água e ao encontro de várias gerações, sobretudo antes da sua distribuição ao domicílio. Desde finais do séc. XIX / princípios do séc. XX eram utilizados pela população, substituindo os rios, onde as mulheres iam lavar a roupa. Em Portugal como na generalidade dos países do sul da Europa.

O filme “A Aldeia da Roupa Branca” (1939), com a famosa Beatriz Costa, conta-nos o dia-a-dia e a vida das lavadeiras da periferia de Lisboa, fazendo-nos entrar abertamente no domínio da vida popular, dos seus costumes, saberes e formas de estar…

A água surge-nos como elemento marcadamente feminino: lavar, cozinhar e cuidar. Ir à procura das mulheres é ir à procura dos espaços públicos do seu quotidiano como os lavadouros e fontanários. São lugares de trabalho, mas também locais que as libertam do fechado espaço doméstico e familiar, onde interagem com outras mulheres da vizinhança, permitindo-lhes a sociabilidade que a taberna e, mais tarde, os cafés reservavam aos homens. São os seus locais de permanência no espaço exterior, de socialização, que utilizam para trocar opiniões, discutir, pedir conselhos ou escutar e alimentar os falatórios da sua comunidade. Não sendo bem-vindas nos cafés nem as ruas feitas para a sua permanência, as mulheres das classes populares, tendo de sustentar as necessidades das crianças e da sua família, fazem também funcionar a cidade nos locais que lhes são atribuídos.

Limitadas no exercício dos seus direitos cívicos, era no espaço ambivalente do trabalho doméstico e da sociabilidade feminina que se modelava socialmente a vida das pessoas, com verdades e mentiras, inúmeras vezes como se de tribunais populares se tratasse, apesar da ausência do réu…

Sendo uma representação física da desigualdade entre homens e mulheres no espaço público, os lavadouros eram uma presença marcante da vida da comunidade e uma manifestação do funcionamento das suas dinâmicas sociais. São cenários de esforço físico, mas também de reprodução da maternidade, permitindo a guarda de crianças e a sociabilização.

Se, inicialmente, as lavadeiras iam lavar nos rios ou nas bacias de água alimentadas por fontes, em condições pouco confortáveis e higiénicas, com o passar do tempo foram-se estabelecendo regulamentos e construídos lavadouros públicos com melhores condições, alguns com cobertura, proteções contra o vento ou mesmo recintos individualizados no espaço comum. Trata-se de uma consciência coletiva que se foi afirmando e reivindicando, nomeadamente na imprensa local, e à qual os municípios tiveram de responder.

 

O bacilo da tuberculose tornou-se um motor de preocupações de que nos dá eco a imprensa local a partir dos primórdios do séc. XX. As páginas dos jornais enchem-se de queixas quanto ao abastecimento de água, à falta de esgotos e aos cheiros fétidos que provinham das fossas fixas.

A partir da segunda metade do séc. XX, estes lugares de higiene pública e convivência comunitária começam a diminuir, mas a lavagem da roupa à mão continua a ser uma prática ao longo do século. Os bairros sociais, dos anos 50 e 60, incentivam o papel da mulher tradicional e das suas práticas. Constroem-se lavadouros e secadouros nestes bairros, que continuam a ser os lugares privilegiados de sociabilização das mulheres. Mesmo com a revolução do 25 de abril de 1974, que trouxe uma transformação radical aos direitos das mulheres e da sociedade portuguesa em geral, o abandono dos lavadouros de uso público e dos tanques no espaço doméstico foi lento e progressivo. Situações de crise como a que se viveu em 2008, em que se tornou necessário poupar água e luz, vieram-nos recordar que a todo o momento poderemos voltar a retomar estas práticas e estes equipamentos.

A criação de lavandarias automáticas, sobretudo para estudantes, hotéis, turistas e habitantes, é recente. Os lavadouros públicos e os tanques domésticos foram dando lugar às máquinas de lavar, primeiro unifamiliares, depois coletivas e automáticas. Mas, ainda assim, os novos espaços vão-se tornando igualmente locais de reencontro e, de alguma forma, trazem de novo o trabalho doméstico para o espaço público. Agora como espaços mistos, já sem a divisão do trabalho pelo género, ao contrário dos lavadouros públicos onde a presença masculina podia existir, mas apenas de modo excepcional. Como aquela memória contada num lavadouro do nosso concelho, de um viúvo que ia também lavar a sua roupa, pondo a gravata por cima do ombro para não a molhar…

 

Os lavadouros públicos, hoje maioritariamente abandonados, são locais do nosso património cultural que remetem a vínculos e à memória popular das mulheres e das crianças que as acompanhavam. São espaços de outro tempo económico, testemunhos de vivências que já não existem, mas que estão presentes nas memórias e nos afetos que constituem a verdadeira alma desses lugares. São documentos de uma história maioritariamente oral, que tendem a desaparecer com o crescimento das cidades, o turismo e as pessoas mais idosas. Por isso importa falar com elas e compreender as suas memórias, dar valor a estes espaços comunitários que tendem a ser esquecidos.

A preservação das memórias dos lavadouros públicos representa um novo modo de qualificar a transformação urbana, apelando à recuperação dos valores que lhes estão ligados. Podem aí realizar-se performances artísticas, pela ligação dos lavadouros às artes e à comunidade, como as fotos o demonstram. A sua recuperação tem de ser bem pensada, e está a sê-lo com acção da empresa de águas AGERE, das juntas de freguesia e de outros organismos públicos. Saliente-se a inventariação e estudo promovido e coordenado pela Fundação Bracara Augusta, em colaboração com a Univ. do Minho. Urge conservar estes espaços que valorizam a presença da água, dando-lhes novos usos, com programas públicos que envolvam jardins-de-infância, escolas ou lares seniores. Há todo um trabalho à volta destes espaços, como modo de registar e arquivar os testemunhos, frágeis, em vias de desaparecimento, mas que são essenciais para compreender a construção e a evolução da cidade, nas suas componentes materiais e imateriais. Mais não bastasse, é uma forma de trazer à luz a presença esquecida das mulheres no espaço público e a sua contribuição na vida urbana.