INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
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segunda-feira, 20 de maio de 2024

ENTRE ASPAS: "Divulgar Bracara Augusta/Braga"

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A Arqueologia é uma disciplina científica que se desdobra em inúmeras especialidades. Neste amplo quadro a Arqueologia Urbana é uma das áreas de investigação mais complexa, designadamente porque se realiza em cidades vivas, com tempos sobrepostos, incluindo o presente, pelo que implica uma íntima relação com a cidade. De outro modo, os resultados das intervenções ficam cingidos ao espaço restrito da divulgação científica, criando-se um fosso indesejável entre o passado e o presente.

As circunstâncias em que nasceu, em Braga, o primeiro salvamento de Arqueologia Urbana, iniciado em Portugal, constituem um marco. Em recente dissertação de doutoramento, aprovada na Faculdade de Letras de Lisboa, lê-se:

“O salvamento de Bracara Augusta foi a primeira grande experiência de salvamento de carácter institucional desenvolvida em Portugal (Silva, 2002a, p. 307). O movimento nasceu em contexto associativo em 1973, mas rapidamente foi integrado numa estrutura da administração central (Alves, 2019, p. 8-9), o Campo Arqueológico de Braga. Esta experiência constituiu um laboratório de experimentação para diversas soluções institucionais para a Arqueologia portuguesa, uma vez que ao Campo Arqueológico de Braga sucederam a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (Martins, 1989, p. 170), o SRAZ Norte (o primeiro a ser criado no IPPC), o Museu de D. Diogo de Sousa (Silva, 2002a, p. 314) e o serviço municipal de Arqueologia de Braga. Assim, em consequência deste projecto de salvamento, a cidade de Braga tornou-se, no final dos anos 70 e início dos 80, um dos mais importantes polos da Arqueologia portuguesa (Alves, 2019, p. 17)” (Jacinta Bugalhão in A Arqueologia em Portugal entre o final do século XX e o início do século XXI (1970 – 2014), Volume 1, p. 537).”

Na dissertação, a autora cita assiduamente o projecto de Bracara Augusta, e numerosa bibliografia, incluindo artigos publicados na revista Fórum, editada pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho (UM) ou na Mínia, editada pela ASPA.

O estudo das ruínas da urbe fundada por Paulo Fábio Máximo, em nome do Imperador Augusto, teve continuidade até ao presente. Estendeu-se, também, no tempo, no estudo do modo como da matriz romana se evoluiu para a cidade medieval.

Assim, ao longo de quase 50 anos, publicaram-se inúmeros textos científicos, em congressos, em revistas portuguesas e estrangeiras. Todos acessíveis no RepositoriUM (Universidade do Minho), ou em browsers científicos internacionais.

Porém, a verdade, é que este volume impressionante de informação, formado por centenas de trabalhos, não tem impacto na cidade, não é conhecida pelo público que a habita.

Na fase inicial do Projecto, estabeleceu-se uma relação com a cidade, através da Imprensa, da ASPA e da Biblioteca Pública de Braga. As sucessivas descobertas eram divulgadas em conferências que se realizavam no Museu Nogueira da Silva. O público que assistia a estas sessões era variado. Havia, porém, uma pessoa que raramente faltava: o Professor Lúcio Craveiro da Silva. O registo de todas estas conferências está disponível na revista Fórum, na secção dedicada às actividades promovidas pelo Conselho Cultural (UM), ao cuidado de Henrique Barreto Nunes. O conteúdo das mesmas também era divulgado quase sempre na citada revista, disponível “online”.

Ao tempo ainda não se tinham generalizado as redes sociais.

Porém, no contexto presente, em que os meios de comunicação se diversificaram com a Internet, perdeu-se a salutar práctica de divulgar as novas descobertas. Quebrou-se um elo importante entre a Arqueologia e a Cidade.

Talvez reconhecendo esse problema, a Unidade de Arqueologia da UM (UAUM) ainda chegou a editar boletins semestrais, que se ficaram por escassos três números.

Mas, em bom rigor, não cumpre à Unidade de Arqueologia a difusão extensiva do conhecimento adquirido, mas tão somente o da vertente científica. Assim preconizamos que volte a editar o boletim digital “online”, e abra uma página no Facebook e no Instragam, com o registo, mesmo sintético, dos trabalhos de campo e dos projectos em curso. E, quando ocorrem descobertas de maior relevo, conferências específicas como a que se realizou sobre achados na Rua da Senhora do Leite.

A divulgação na cidade compete também a duas entidades: o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga e o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (este no domínio das colecções do seu acervo). O GA da CMB, tendo acesso a toda a informação produzida, deve estar na primeira linha da divulgação. Ora o Gabinete de Arqueologia não está a atuar como primeiro interlocutor com a cidade. Porquê? Quem o tutela, ou seja o Presidente da autarquia, poderá responder. Talvez seja necessário definir uma nova estratégia e reforçar a referida entidade camarária com mais arqueólogas (os).

Lisboa, onde a Arqueologia Urbana se estruturou muito depois, é um exemplo a seguir. De facto, o Centro de Arqueologia da Câmara Municipal de Lisboa (abreviatura CAL) tem linhas de divulgação, a vários níveis. A científica, indispensável, organizando colóquios específicos. Mas também dá a conhecer os resultados em instâncias associativas, como a Associação dos Arqueólogos Portugueses ou a Sociedade de Arqueologia de Lisboa. Mas são as acções de divulgação dos resultados a nível do bairro que mais entrelaçam a sua actividade com a população. Sempre que, numa determinada área da cidade, se efectua uma intervenção, seja de emergência seja no quadro de um projecto de requalificação urbana, o CAL apresenta os resultados no bairro em que se interveio (a actividade do CAL é difundida no Facebook onde tem página própria).

O caminho está, pois, claramente definido. Basta a vontade da Presidência da CMB, e da Unidade de Arqueologia da UM, para o concretizar.

                                                                                   Francisco Sande Lemos

                                                                                   (Arqueólogo)

Imagens: sessão sobre Bracara Augusta, com Francisco Sande Lemos, no Museu Nogueira da Silva. Arquivo HBN.

 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ENTRE ASPAS "O Século de Ouro" e "Clarificação de conceitos"

Na Idade Moderna, a cidade de Braga era como Meca: todos a procuravam. 
Eduardo Pires de Oliveira explica-nos o motivo desse interesse.
Diário do Minho - 20 março 2017
Braga foi, sobretudo, um enorme alfobre de artistas, muitos deles absolutamente excepcionais, que nos deixaram um sem fim de obras-primas. 
Este é o 13º texto desta série 


Os textos anteriores, da série "Aprender História Descobrindo a Cidade", podem ser consultados neste mesmo blogue.

segunda-feira, 20 de março de 2017

APRENDER HISTÓRIA DESCOBRINDO A CIDADE

Como contributo para o conhecimento da História local e para a promoção de uma cidadania crítica, atenta e atuante, demos início, em 2015, a uma série de entre aspas designada "Aprender História Descobrindo a Cidade de Braga". 
Esta série é dirigida a estudantes, respetivas famílias, bracarenses curiosos sobre a História local e turistas. Também às escolas, uma vez que os textos disponibilizados constituem recursos para o ensino da História contextualizada em Braga.
Tem em vista facultar informações sobre as diferentes fases da História do concelho de Braga e criar condições para visitas autónomas a locais que comprovam a importância de Braga, ao longo dos tempos,  no noroeste Peninsular. 
Esta série inicia na Pré-História Recente (IV/III milénio a.C.) e termina no séc. XXI.

Com a colaboração de especialistas na matéria iremos percorrer períodos importantes da História da cidade/concelho, facultar informação essencial à sua compreensão e apresentar propostas de visitas aos locais.
Textos publicados:

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ENTRE ASPAS "D Diogo de Sousa: da cidade medieval à urbe aberta"

D. Diogo de Sousa, tomando como palco central a cidade de Braga, marca a transição da cidade medieval, cintada nos seus limites feudais e no alcance imediato da sua catedral, para uma urbe aberta, interdependente com o seu território envolvente e com o mundo. 

Este é o 9º texto da série "Aprender História Descobrindo a Cidade".

Diário do Minho - 19 set 2016
Há dezasseis anos, aquando das comemorações do bimilenário da cidade de Braga (2000) evocando D. Diogo de Sousa (1461-1532), por indisponibilidade daquele que continua a ser o seu principal referente de conhecimento, o Professor Avelino Jesus da Costa, fomos convocados a refletir sobre a figura e a obra do arcebispo. De imediato concluímos que D. Diogo mobilizava a “convergência de mentalidades, de saberes e de desígnios que ultrapassam os comedimentos evocativos da memória individual e recriam ainda, com oportuno motivo, o tema de uma lição sempre actual”. A sua figura representa hoje um dos mitos maiores de vasta galeria de antístites que governou espiritual e secularmente a cidade. Uma personalidade mundividente, fértil de relações e de acontecimentos, que garante o referencial de uma época, mais do que um pretexto que não passa indiferente ao investigador ou escolar, que se possa omitir em guia turístico ou reportagem jornalística. D. Diogo de Sousa é o ponto de partida e de chegada do conhecimento e da compreensão do Renascimento em Braga.
É verdade que Braga, na viragem do século XV para o XVI e no contexto do noroeste peninsular, tinha perdido o protagonismo demográfico para outras cidades litorais, que prosperavam das viagens marítimas de longo curso e dos contactos distantes, conservando contudo a herança romana de se constituir como um polo religioso e temporal de um vasto território, o mesmo que hoje, excluído o Douro vestibular, corresponderia ao Norte de Portugal. Para além da atávica expressão de cerca 5 mil habitantes citadinos, confirmados pela famosa vista de Braun (1594), a prelatura de D. Diogo (1505-32) vem relançar o seu principal potencial, isto é, o poder da sua atracção simbólica, emanado da longa história, no plano espiritual e administrativo; e na prolixidade e difusão das suas gentes pelo mundo.
 D. Diogo traz consigo uma nova atitude, um diferente modo de estar, que resulta do seu altruísmo de príncipe, da sua erudição e cosmopolitismo, aos quais não é estranha a condição de cortesão e figura próxima dos reis D. João II (1481-95) e D. Manuel (1495-1521). Estudou em Évora; Lisboa, então o cais da Europa; Salamanca; Paris. Relacionou-se com alguns dos mais reputados humanistas, como Henrique Caiado; Cataldo Sículo e André de Resende. Integra as embaixadas ao Papa por designação dos mesmos monarcas, onde toma contacto directo com a matriz e o grande teatro do Renascimento, designadamente, as grandes obras urbanas de Roma e Florença.
O arcebispo, tomando como palco central a cidade de Braga, marca a transição da cidade medieval, cintada nos seus limites feudais e no alcance imediato da sua catedral, para uma urbe aberta, interdependente com o seu território envolvente e com o mundo. Um dos seus legados mais perenes será, naturalmente, o mecenato urbanístico, pelo que ainda hoje não é possível compreender a individualidade do centro histórico de Braga sem conhecer a sua obra. Como nos diria Lewis Mumford (1960), esta situar-se-á na transição do localismo feudal com o centralismo expansivo, entre a omnipresença de Deus e da sua Igreja e o centralismo absoluto da construção do estado moderno. Perante a subsistência dos traços antecedentes do tecido urbano começa então a implantar-se a antevisão ordenadora da disciplina e da ordem urbana, de algum modo, abrindo portas à aplicação dos princípios vitruvianos: firmitas, utilitas, venustas (firmeza, utilidade e beleza).
A expressão com maior alcance da sua obra inscreve-se, pois, ao nível da infraestrutura urbana, naquilo que hoje em dia se designaria de obras públicas. Note-se, a expensas próprias e das rendas da mitra, D. Diogo encetou uma política de mecenato que não tem qualquer paralelo na história conhecida de Braga. Veja-se a abertura e a rectificação de vias e praças, os novos equipamentos colectivos, e reforma dos existentes, passando pelo abastecimento de água à cidade e o arranjo do espaço público. Entre as mais estruturantes, que ainda hoje desempenham um papel crucial na cidade, salientaríamos a abertura da rua Nova, que muito justamente detém o seu nome, sendo ampla e rectilínea de acordo com o padrão da época. Esta via está associada também a um novo rasgamento na muralha (arco da porta nova, 1512), com a finalidade de melhorar o sistema de comunicação rodado entre os pontos principais da cidade e articular os mercados existentes em três pequenas praças do intramuros. Neste contexto, surgiriam outras intervenções do mesmo tipo, como a rua de São João, a partir das traseiras da Sé, a actual rua do Cabido, etc. Também promoverá o alargamento e a rectificação de outros espaços viários existentes, como a antiga rua nova (hoje tramo norte da Frei Brandão), a praceta fronteira à catedral, bem como no seu enfiamento, e a rua de Maximinos (hoje troço da D. Paio Mendes). Todavia, dentro do mesmo doutrinário renascentista, não seria de menor importância o estabelecimento de um anel de Campos, exterior à muralha medieval, dando origem àquelas que hoje são as principais praças de Braga (ex. av. Central/praça da República; campo da Vinha; Hortas; Largo Carlos Amarante, etc…). Também, e ainda no plano das infraestruturas, D. Diogo promoveu a reestruturação do sistema de abastecimento de águas à cidade de Braga. Dotando a cidade com uma nova rede de fontanários, melhorando e reformando os pontos de captação e distribuição existentes, levando a linfa mais longe e em melhor qualidade (ex. a fonte de Sousa; dos Granjinhos; da Cónega; Nª Sª a Branca; etc.).
(continua)

Miguel Bandeira

                                                                                                                                                                    

Para saber mais: