INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
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terça-feira, 17 de agosto de 2021

ENTRE ASPAS: A (falta de) geologia nas autarquias


Na sequência do entre aspas  anterior - "O Granito de Braga e Urbanismo" - pedimos a colaboração de José Brilha, Geólogo e Professor na Universidade do Minho, no sentido de se pronunciar sobre essa mesma matéria. Centrou-se na geodiversidade, "uma das componentes essenciais de qualquer território, mas provavelmente uma das que mais passa despercebida à sociedade". 
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Relembramos a imagem que ilustra este texto e respetiva legenda:
Os alertas que destacamos não dispensam a leitura do texto integral:

Nos últimos 20 anos, a população residente no concelho de Braga aumentou dos cerca de 165 mil habitantes para um pouco mais de 193 mil (segundo dados preliminares dos Censos 2021). Tendo em conta os 183 km2 de área do concelho, existem atualmente em média 1056 habitantes por km2. O aumento de população numa área geográfica que não se expande acarreta, invariavelmente, desafios a diversos níveis que devem ser devidamente respondidos pelos diversos agentes autárquicos.

Os aglomerados urbanos são sistemas complexos onde interagem componentes naturais (geodiversidade, biodiversidade e clima), antrópicas (habitações e outros edifícios, vias de comunicação e outras infraestruturas) e sociais (os residentes e visitantes). Só uma visão integrada destes sistemas permite uma gestão social e ambientalmente sustentável dos territórios. Para isso é essencial conhecer as características próprias de cada sistema e, principalmente, as suas interações que, frequentemente, são específicas para cada território. Um concelho como Braga não pode ser gerido com soluções idênticas às implementadas num concelho da ilha da Madeira, apenas para referir um exemplo. 

Dos vários sistemas referidos, irei centrar-me na geodiversidade, uma das componentes essenciais de qualquer território, mas provavelmente uma das que mais passa despercebida à sociedade. A geodiversidade compreende a variedade de elementos não vivos da natureza (minerais, rochas, fósseis, solos e processos que os formam) e que fornecem benefícios variados aos ecossistemas e, claro, a todos os seres humanos. As rochas, solos e minerais são o suporte da biodiversidade e de todos os edifícios e infraestruturas que construímos. As rochas armazenam a maior parte da água doce do planeta, suscetível de ser usada para abastecimento humano, fornecem os recursos geológicos imprescindíveis para o nosso desenvolvimento e bem-estar, assim como para dar resposta às atuais políticas de transição energética e descarbonização relacionadas com os efeitos das mudanças climáticas. A investigação científica em geociências permite conhecer os processos que decorrem há milhões de anos no nosso planeta, que continuam hoje e continuarão no futuro, facultando-nos tomar as melhores opções possíveis para uma adequada gestão dos nossos territórios. Alguns elementos da geodiversidade apresentam elevado valor cénico, convertendo as paisagens num atrativo turístico com impacto económico significativo. 

Durante os últimos anos, têm-se multiplicado iniciativas que promovem as chamadas "nature-based solutions". Este princípio consiste em planear e executar todas as intervenções que se pretendem fazer num território tendo em conta a dinâmica dos processos naturais, evitando soluções de engenharia "agressivas" sobre o meio ambiente que, ao tentarem resolver problemas no imediato, acabam por se tornar desastrosas no médio-longo prazo, em especial quando ocorrem fenómenos naturais de maior intensidade. Não podemos esquecer, e isto está perfeitamente registado na geodiversidade, que precipitações de grande intensidade causam subidas extraordinárias dos rios, episódios de alta e baixa temperatura atmosférica, oscilações do nível do mar, entre outros fenómenos naturais, que sempre aconteceram e certamente irão continuar a ocorrer no futuro.

O município de Braga, tal como muitos outros em Portugal, deve procurar as melhores soluções tendo em conta as características naturais do seu território. O conhecimento técnico e científico que existe, assim como a disponibilidade de geólogos especializados em planeamento e ordenamento do território, não permitem compreender que as autarquias continuem a desempenhar as suas atribuições na área ambiental com enormes fragilidades, comprometendo assim a qualidade de vida dos seus cidadãos.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

ENTRE ASPAS: "O Granito de Braga e Urbanismo"

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 "Francisco Sande Lemos alerta para uma série de evidências relativas ao material geológico encontrado em subsolo, no decurso de escavações arqueológicas, e coloca uma série de questões, muito pertinentes, relativas ao subsolo do Centro Histórico de Braga. É a visão do arqueólogo que, durante décadas, foi responsável pela gestão dos trabalhos arqueológicos em Braga.


"A cidade de Bracara Augusta, bem como a Braga Medieval e Barroca, foram edificadas sobre uma mancha rochosa com características específicas.

Assim, o subsolo de Braga é uma verdadeira caixa de surpresas, que deve ser gerida com o máximo cuidado, não só devido aos vestígios arqueológicos, mas também à variabilidade do granito e, ainda aos possíveis aquíferos. Num determinado ponto encontra-se a rocha dura a poucos metros do solo; noutro a arena granítica com uma espessura significativa.

Não admira, pois, que as intervenções na zona histórica da cidade possam colidir com uma mancha compacta de Granito de Braga como, por exemplo, se está a verificar na obra em curso entre as Ruas de São Vicente e Gabriel Pereira de Castro, no âmbito de um projecto que inclui pisos subterrâneos e que implicou o uso de explosivos. Terá sido uma surpresa? Ou já se previa?

Em Braga, os projectos para imóveis que contemplem parques ou pisos subterrâneos deveriam ser cuidadosamente ponderados e instruídos com estudos geológicos, de geofísica e de análise dos macro e micro impactos nos imóveis adjacentes, no caso de ser necessário recorrer a explosivos, mesmo com técnicas muito sofisticadas.

A estabilidade de um monumento como o Recolhimento da Convertidas deveria ser a primeira prioridade da Presidência da CMB e da Direcção Regional da Cultura do Norte. De resto, sendo Braga uma cidade de dimensão média, não seria mais prudente colocar de lado os parques subterrâneos na zona histórica da cidade, de uma vez por todas? Para além dos aspectos já enunciados, há também a questão da adaptação às alterações climáticas, que implica a necessidade urgente de reduzir o tráfego automóvel no centro das cidades. 

Que tal organizar uma rede de parques de estacionamento em redor da cidade e um sistema de autocarros eléctricos que, a intervalos certos, conduzam os visitantes e turistas (e sua bagagem), aos hotéis situados no Centro Histórico?"

Entre aspas anteriores sobre este assunto: