INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

Em 2012 a ASPA comemorou 35 anos de intervenção em Braga. Criou, nessa data, este blogue.
Em 2017 comemorou 40 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

SETE FONTES

DEZEMBRO DE 2013
O novo executivo municipal suspende o PDM na área da ZEP das Sete Fontes.
Foi dado o 1º passo e há, finalmente, a esperança para o Monumento Nacional.

JUNHO DE 2015
O PDM aprovado na Assembleia Municipal de Braga prevê área de construção em ZEP do Monumento Nacional.
Novamente um futuro incerto para o Complexo das Sete Fontes?!

MARÇO de 2016
Publicada a Declaração nº16/2016, de 3 de março, que revoga o despacho que aprovou a constituição de faixa de reserva "non aedificandi" para o lanço da EN 103-Variante de Gualtar, entre o Nó do Hospital e o Nó Norte (Nó do Fojo).
É o fim da variante que atravessaria o Complexo das Sete Fontes e tanto preocupava os defensores do Monumento Nacional.

JULHO 2018
A CMB apresenta às associações e aos proprietários dos terrenos, o "Ponto da Situação e a Estratégia Executória para o Complexo Ecomonumental das Sete Fontes".

Março 2019
Sessão pública "Salvaguarda e Execução do Parque Ecomonumental das Sete Fontes. Apresentação dos estudos: hidrogeológicos, arqueológicos, urbanísticos e paisagísticos"

Fevereiro de 2020
Apresentação e discussão pública do Plano de Urbanização e do Projeto do Parque das Sete Fontes

Agosto de 2020
CMB adquiriu primeiros terrenos para a construção do Parque das Sete Fontes.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

ENTRE ASPAS: "Ara a Ocaere: desafio para um percurso pela Via Nova ou Jeira""

Local onde pode observar a Ara a Ocaere, no Museu D. Diogo de Sousa (Braga)

Texto ampliado: 


O Museu Regional de Arqueologia de D. Diogo de Sousa anunciou, recentemente, a doação pela família Braga da Cruz da ara dedicada à divindade indígena de nome Ocaere. Este monumento epigráfico foi descoberto no século XVIII durante obras na igreja matriz de Campos de Gerês, sendo já referido por Contador de Argote em 1732/34. Mais tarde ficou na posse de M. Braga da Cruz que a divulgou, com maior detalhe, em 1972. Admite-se como mais provável que a ara integrasse um santuário romano sito no lugar de O Sagrado, na veiga da aldeia, junto ao traçado da via de Bracara Augusta a Asturica Augusta e entre as milhas XXVII e XVIII. Amílcar Guerra, conhecido epigrafista e investigador de paleo-linguística, afirma que de Ocaere derivou a designação tradicional da via, A Xeira, e o próprio nome da serra, O Xurés.

O contexto é assaz interessante. A VIA NOVA (ou Jeira), depois de ter contornado, pelas vertentes norte, a Serra de Santa Isabel ou de Bouro, desce a Covide, lugar que teve origem num extenso povoado romano, talvez uma mansio. Da veiga de Covide sobe para a de Campos de Gerez. Ora, neste ponto, abre-se uma eloquente panorâmica sobre o majestoso maciço ocidental da Serra de O Xurés, que se ergue até 1235 metros no Alto do Leonte. Por outro lado, é a partir de Campos de Gerês que a via se interna na montanha, prosseguindo pelas encostas oeste da mesma, ao longo do vale do rio Homem (afluente do Cávado) até à Portela homónima. Depois, desce até à mansio Aquis Originis (Lobios, Galicia), mas pelas vertentes noroeste da serra, ao longo do rio Caldo (bacia do Lima).

Em O Sagrado realizaram-se trabalhos arqueológicos, em diferentes campanhas, os quais exumaram os alicerces de uma igreja românica e sepulturas de inumação (em redor), bem como tramos de muros romanos do Alto Império. Os materiais, incluindo capitéis e os muros, indicam que o templo cristão foi edificado sobre um santuário mais antigo. Santuário que, opinamos, poderia albergar, entre outros (talvez ainda escondidos nos muros da igreja matriz), o altar do deus Ocaere. A igreja românica foi demolida na Idade Moderna (século XVII) e a pedra utilizada na construção da actual igreja matriz de Campos de Gerês.

Na verdade, o lugar de O Sagrado é um ponto de eleição que anunciava aos caminhantes o subsequente trajecto da VIA NOVA pela Serra do Gerês/Xurés. A veiga de Campos de Gerês possui uma visibilidade notável.

A partir da veiga de Campos, na Primavera e no Verão, as encostas verdejantes da serra convidavam o caminhante de outrora a desfrutar da sombra do arvoredo, formado por Quercus Robur e Ilex Aquifolium, e todo o sub-bosque desta floresta de folha caduca. Ao tempo, talvez fosse mais extensa, mas ainda hoje se conserva a esplêndida Mata de Albergaria, que a Via Nova atravessa entre as milhas XXIX e XXXIV. No Outono, as folhas caídas sobre o piso da via marcavam um novo ciclo estacional. E no Inverno, os cumes, por vezes revestidos pela neve, recomendavam o agasalho e prudência. Felizmente, entre Campos de Gerez e Lobios existia uma mutatio, na milha XXX, onde os cavalos podiam descansar e os viajantes beber um vinho e comer umas “tapas”. Os mais desprevenidos seriam informados que, daí em diante, iriam atravessar sucessivas pontes, a maior das quais sobre o rio Homem, cruzando assim em segurança o caudal, muitas vezes tumultuoso. Talvez no Verão pudessem refrescar-se com um mergulho nas poças de água transparente do curso de água. No Inverno, mesmo que chovesse impiedosamente e o frio apertasse, sabiam que no final da descida, passada a Portela do Homem (fronteira de duas civitates, a de Bracara e a dos Querquenni), podiam acolher-se na mansio de Aquis Originis, aí tomar um banho quente nas termas (cujas ruínas ainda se conservam), seguindo-se uma boa refeição e, finalmente, repousar durante uma noite, para a jornada seguinte. Entre Covide e Lobios distam 11 milhas, ou seja, cerca de 16 quilómetros, um dia de viagem perfeitamente acessível, sob a protecção de Ocaere. A cavalo seria possível cumprir a distância entre Bracara e Aquis Originis numa única etapa. Porém, o favor dos deuses recomendava uma breve paragem no santuário de O Sagrado, para uma oração.

Deve assinalar-se que raramente cai neve no traçado da Via Nova entre os locais supracitados. A neve e o gelo coroam, por vezes, os picos adjacentes, mas o traçado da via ao longo dos vales do Homem e do Rio Caldo nunca passa 750 metros. A água, pelo contrário, é abundante. Por isso, as pontes e as calçadas para facilitar a travessia de ribeiros de menor caudal, assim como as condutas ao longo da Via. O sistema de drenagem da Via Nova, mantido ao longo de muitos séculos, é uma componente essencial de uma notável obra de engenharia. Obra magna em que se juntaram o notável conhecimento romano e o saber tradicional dos indígenas no trabalho da pedra, do granito (revelado na construção das unidades habitacionais dos castros ou nos banhos dos grandes povoados, como o da Pedra Formosa da Citânia de Briteiros).

Retomando a viagem na mansio de Aquis Originis, é de assinalar que a próxima etapa não era muito distante (14 milhas), ficava em Bande, também junto a uma fonte termal, em Aquis Querquennis (milha LIII a Bracara; a distância gravada nos marcos é sempre referida à sede do conventus). Próximo de Baños de Bande foi levantado um acampamento militar, numa encruzilhada de caminhos tradicionais, já na bacia do rio Lima. Ora, sobranceiro a Aquis Querquennis, levanta-se um pequeno templo, visigótico, ou do séc. VIII, de onde se desfruta uma panorâmica excepcional sobre os contrafortes setentrionais da Serra do Gerês. Nesta capela, dita de Santa Comba de Bande, foi encontrada uma ara. Porém, anepígrafe. Também seria dedicada a Ocaere? Se assim fosse, teríamos uma dualidade semelhante à da Serra do Larouco, onde se conservam dois santuários, situados em pontos opostos da montanha, um, a sudeste, em Portugal, em Vilar de Perdizes; outro na Galiza, a noroeste, em Baltar. Nos dois pontos, ambos em veigas e confrontando com a montanha, encontraram-se aras dedicadas a Larauco. Neste caso a ligação entre o nome latino e o actual não levanta dúvidas.

Convidamos, pois, os leitores a visitar o Museu D. Diogo de Sousa, o Museu da Geira e a percorrer a via entre Campos de Gerez e Lobios.

Francisco Sande Lemos

Nota: a imagem que acompanha este texto pertence à fototeca do Museu D. Diogo de Sousa e é da autoria de Manuel Santos.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

ENTRE ASPAS: "Férias, Turismo e Património"

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São necessárias políticas publicas que protejam a população local, preservem o património e promovam um turismo sustentável. Essas políticas são absolutamente antagónicas à ideia de que uma cidade é uma marca. Braga não é uma marca turística, por muitos elogios que receba do Guardian ou por prémios de mercado que lhe outorguem. Uma cidade, Braga, é um espaço urbano onde vivem munícipes dotados de direitos, com as marcas da história do seu património material e imaterial e os sinais da modernidade da abertura para o mundo, para a diversidade e os outros.


Com o Verão, as cidades enchem-se de turistas. Sinal de uma certa forma de cosmopolitismo, o turismo de massas intensificou-se com a facilitação da mobilidade internacional, os voos de baixos custos, a acessibilidade da informação e a curiosidade inerente ao conhecimento de outros povos, costumes, sítios e monumentos. Para além das óbvias vantagens económicas – e os países do sul da Europa, que aliam um bom clima a um património ambiental e cultural reputado, são disso particularmente beneficiários – o turismo pode contribuir para a criação de uma consciência global assente no reconhecimento da diversidade dos povos e no respeito pelas diferentes culturas.

Estamos longe já da prática do turismo como um privilégio de muitos poucos. Historicamente, viajar por outros países e contactar com outros povos constituiu um sinal de distinção, talvez exponenciado na “belle époque” com as visitas prolongadas de intelectuais, artistas e aristocratas a Atenas e às ilhas gregas, a Pompeia, a Roma e outras cidades italianas, a Salzburgo e Viena e a vilegiatura nas praias da Côte d’Azur. Apesar de prevalecerem as desigualdades, também neste aspeto a democratização do acesso ao turismo, por efeito dos programas de turismo social ou de formas mais económicas de permanência (pelo campismo, por exemplo), ajudou fortemente à massificação das viagens e das férias no exterior. Contrariamente a algumas correntes de opinião elitistas e exclusivistas, nada há a opor a essas formas de turismo.

O património constitui um dos principais fatores de atração turística. De algum modo, os museus e outros espaços patrimoniais ganham a sua visibilidade e, em muitos casos, a sua viabilidade pelo acesso turístico.

No entanto, há alguns efeitos perversos na intensificação do turismo de massas. Em primeiro lugar, a pressão sobre os centros históricos, nomeadamente aqueles de maior valor patrimonial, pode levar, sem medidas públicas adequadas, a riscos de manutenção de edifícios e sítios de maior vulnerabilidade. Em alguns casos, tem sido mesmo necessário controlar o acesso, de forma a impedir a sobrecarga de locais de grande atratividade (por exemplo, ruínas arqueológicas, edifícios muito antigos, lugares ambientais em risco). Efeito pernicioso maior é o da gentrificação das cidades, em consequência da substituição das populações tradicionalmente residentes por equipamentos hoteleiros e apartamentos de alojamento local. Também é grave a descaraterização das tradições e a subordinação ao gosto uniformizado das hordas de turistas: quantos restaurantes cederam ao hambúrguer e ao frango assado, já agora, com a “cor típica” do bacalhau e do pastel de nata, abdicando dos pratos tradicionais?

As perversões do turismo de massas acabam por trazer consequências funestas para o próprio turismo. A descaraterização de algumas cidades, o excesso de população em algumas alturas do ano, a indiferenciação das formas de vida, hábitos e costumes e a subordinação a um gosto globalizado, e, em casos mais graves ainda, a dysneilandização de alguns centros históricos (Barcelona é um exemplo usualmente referido) tem provocado tensões com as populações locais e o afastamento de parte do turismo (o mais culto e o mais exigente) para outras paragens mais autênticas e exóticas.

Por tudo isto, são necessárias políticas publicas que protejam a população local, preservem o património e promovam um turismo sustentável. Essas políticas são absolutamente antagónicas à ideia de que uma cidade é uma marca. Braga não é uma marca turística, por muitos elogios que receba do Guardian ou por prémios de mercado que lhe outorguem. Uma cidade, Braga, é um espaço urbano onde vivem munícipes dotados de direitos, com as marcas da história do seu património material e imaterial e os sinais da modernidade da abertura para o mundo, para a diversidade e os outros.

As políticas públicas para o turismo devem seguir certos princípios elementares:

Primeiro, só é bom para o turismo o que igualmente for bom para a população local; segundo, não podem ser sacrificadas as populações mais pobres ou vulneráveis aos interesses turísticos, seja no domínio da habitação, do bem-estar ambiental, da mobilidade ou no acesso a bens e serviços; terceiro, a centralidade do património edificado, numa política de turismo culturalmente exigente e sustentável, deve levar ao máximo rigor na preservação, na informação e na documentação a disponibilizar aos visitantes; quarto, a preocupação com todos deve incentivar formas de hospitalidade na criação de condições de acesso e informação que permita a adequação à diversidade dos turistas, sejam crianças ou idosos, sejam de que país forem e seja qual for a língua que falem ou a religião que professem; quinto, a definição de limiares críticos na frequência de certos lugares e sítios deve ser devidamente ponderada; sexto, deve ser recusada a criação de equipamentos hoteleiros ou de alojamento local que impliquem substituição das populações locais; sétimo, devem ser fortemente incentivadas modalidades de turismo popular; oitavo, em caso algum devem ser privilegiadas agências ou empresas de turismo, os mesmos direitos devem ser atribuídos aos agentes informais de turismo que promovem visitas guiadas.

Boas políticas para boas práticas de turismo. E boas férias.

Manuel Sarmento

quinta-feira, 21 de julho de 2022

DR AMADEU CARVALHO


Divulgamos a notícia publicada hoje, 21 de julho, pelo jornal O Público, relativa ao falecimento do Dr Amadeu Carvalho.


Uma homenagem merecida, atendo ao papel que desempenhou numa fase complexa da cidade de Braga, uma vez que integrou um grupo de cidadãos que se uniu em prol da defesa do património arqueológico. 

terça-feira, 19 de julho de 2022

ENTRE ASPAS "A réplica da Fonte do Ídolo existente no Museu Marins Sarmento"

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Os métodos de estudo e preservação das relíquias do passado foram-se alterando com o evoluir quer das técnicas, quer da perceção científica dos vestígios. Devemos a uma geração pioneira de arqueólogos o estudo inicial de vários monumentos, que nos proporciona hoje registos interessantes do estado em que se encontravam há mais de cem anos atrás. A Fonte do Ídolo é um desses casos. Terá sido um santuário que existiu, em época romana, na periferia da cidade de Bracara Augusta, hoje no centro de Braga, perto da confluência entre a Avenida da Liberdade e a rua do Raio. Foi trazido à luz por uma publicação de Contador de Argote, no século XVIII, que dele publicou uma ilustração. No final do século XIX, foi estudado por vários eruditos, destacando-se Emil Hübner e Leite de Vasconcelos, cujos estudos coincidiram com os de Albano Belino e Francisco Martins Sarmento. Depois da intervenção promovida pela Direção Geral dos Monumentos Nacionais, na década de 1930, o antigo santuário permaneceu fechado durante décadas, até que foi finalmente estudado pela Universidade do Minho, entre 2002 e 2004, no âmbito de um projeto de musealização da autoria de Paula Silva, promovido pela mesma Direção. Os trabalhos de escavação arqueológica e registo foram coordenados por Manuela Martins e Francisco Sande Lemos.

A Fonte do Ídolo é uma antiga nascente natural, cuja água brotava através de uma rocha granítica, o que se pode, desde logo, relacionar com as convicções espirituais, quer do período romano, quer do imediatamente anterior, a Idade do Ferro.  As pesquisas mais recentes, que incluíram a envolvente do monumento, permitiram identificar vestígios da utilização do espaço na Idade do Ferro, que seria ocupado sazonalmente. Não há, contudo, indícios de construção associados ao local da fonte, nesta fase, o que sugere a sua utilização na plenitude das suas características naturais, como seria comum nesta época. É ao período romano, em dois momentos cruciais, que se atribuem os vestígios mais expressivos: os finais do século I a. C., em que um indivíduo chamado Celicus Fronto terá promovido a edificação do santuário; e a segunda metade do século I d. C., quando o neto e bisnetos do mesmo Celicus Fronto empreenderam a reforma do mesmo. O espaço seria dedicado à deusa Nabia, associada às águas, fertilidade e abundância, bem como a outra divindade identificada como Tongus Nabiagus. Além das várias inscrições latinas que identificam as personagens e as divindades associadas ao recinto, conservam-se na fachada esculturada da fonte, uma figura em pé, ao centro, que enverga uma toga, identificada com a deusa Nabia ("ídolo" que atribuiu o nome ao local), bem como uma edícula, do lado direito, com um busto esculpido em relevo, identificado como a possível representação de Tongus Nabiagus.

A Fonte do Ídolo é um local único, sem um paralelo evidente no Norte da Península Ibérica. A localização nas imediações de uma importante cidade romana terá facilitado a continuidade de um culto pré-romano, perfeitamente enquadrado nos cânones religiosos do Império, de que os vestígios da arquitetura são exemplo. A utilização de uma nascente, a invocação de uma divindade associada às águas e a identificação dos deuses tutelares como indígenas, não poderiam passar ao lado do interesse científico de Francisco Martins Sarmento, nem de Albano Belino.

A ideia de fazer uma réplica da fonte alimentou o espírito de Sarmento por duas razões principais. A primeira, assumida, porque pretendia um decalque rigoroso das epígrafes latinas, com o objetivo de as estudar ao pormenor. A segunda, subentendida, porque Sarmento já tinha testemunhado a destruição e desaparecimento de muitos vestígios arqueológicos, temendo idêntico destino para as inscrições e esculturas da Fonte do Ídolo. Assim, a ideia de fazer uma réplica obedece ao princípio de preservação e estudo dos vestígios do passado, que sempre fez parte da missão do Museu Martins Sarmento, na altura, de criação recente.

A realização da réplica foi encomendada por Sarmento a um estucador, que se dirigiu a Braga e efetuou o molde sob supervisão de Albano Belino, em finais de Janeiro de 1895. Não se conhece a identidade do estucador, referido por Sarmento como "o meu Fídeas" ou "o artista". No dia 29 de Janeiro do mesmo ano estava a montar-se a réplica no claustro de São Domingos de Guimarães. Feito o molde em Braga, construiu-se uma estrutura em ferro, preenchendo o interior com argamassa e tijolo e a superfície exterior em gesso modulado. Tanto a figura togada, como a edícula com o busto em baixo relevo, bem como as cinco epígrafes, têm o mesmo tamanho dos elementos originais.

No início de Fevereiro de 1895, escrevia já Sarmento a Belino: "Pelo que vejo do esboço que me manda do Ídolo, e que muito agradeço, o meu rapaz não asnearia muito, mas asneou alguma coisa.".

A réplica mantém-se no local, tendo sido restaurada, entre os finais de 2021 e o início do corrente ano de 2022, por uma equipa coordenada por Susana Laínho, num trabalho moroso e complexo, pela natureza dos materiais utilizados e estado de degradação que rapidamente atingem. Preserva-se, assim, a memória dos primeiros arqueólogos que estudaram a Fonte do Ídolo, promovendo também, em Guimarães, a herança de Bracara Augusta.

                                                            Gonçalo Cruz
                          (Arqueólogo na Sociedade Martins Sarmento)

Mais Informação:

quinta-feira, 7 de julho de 2022

ENTRE ASPAS: "Complexo das Sete Fontes: passado e presente"



Sabemos que o passado ajuda a compreender e melhorar o presente. Assim, nada melhor do que um retorno ao passado recente para facilitar o conhecimento da importância do Complexo das Sete Fontes para Braga, bem como relembrar etapas da luta pela sua salvaguarda, que não pode ser dissociada da defesa do manancial de água que o suporta e da envolvente paisagística que o qualifica.


Qual a origem do Sistema de Abastecimento de Água à Cidade de Braga, no Séc. XVIII?

D. José de Bragança, Arcebispo de Braga, mandou reformar e ampliar este Sistema Hidráulico Setecentista (1744?), de modo a garantir água à população que vivia na cidade. O Sistema, que é constituído por galerias e respiros, mães d`água no interior das “capelas” barrocas e o aqueduto que levava a água à cidade, inicia nas zonas de adução de água, a montante do Sistema, e terminava em fontanários espalhados em praças ou ruas, onde as pessoas se dirigiam com cântaros com os quais levavam água para suas casas. A água também chegava a quintas ou casas e instituições mais importantes.  Braga recebeu água das Sete Fontes até cerca de 1913 e, a partir dessa data, passou a receber do sistema de capação do rio Cávado (Central Elevatória da Ponte do Bico).

Mais tarde (1937), o Município de Braga encomendou um estudo hidrogeológico ao Engº Nascimento da Fonseca, tendo em vista retomar a água das Sete Fontes para reforço de captação, pois a recolha através do rio Cávado era insuficiente. Esse estudo incluiu o levantamento detalhado do Sistema Hidráulico, ficando o município de Braga a conhecer a sua localização e extensão, bem como a sua importância estratégica e a quantidade de água que, diariamente, lá circulava.

 

Por que razão este processo tem sido tão estranho aos interesses de Braga e dos bracarenses, desde 1995?

Em março de 1995, a ASPA apresentou ao IPPAR o pedido de classificação do Complexo das Sete Fontes, fundamentando com o facto de se tratar de um Sistema Hidráulico Barroco, relevante sob o ponto de vista patrimonial, extenso e onde circulava grande manancial de água. À época, a envolvente do monumento era ocupada por quintas onde se cultivavam cereais e fruta, bem como bouças com sobreiros e outras espécies arbóreas e arbustivas autóctones.

Em abril do mesmo ano, foi publicado o despacho de abertura do processo de classificação, pelo presidente do IPPAR. Em 1999, o Instituto Português de Arqueologia alertou a Direção Geral de Ordenamento do Território para a importância histórica e monumental da área abrangida pelo Complexo das Sete Fontes, uma vez que estava em curso a elaboração do primeiro Plano Diretor Municipal de Braga. 

Em janeiro de 2001, foi publicada, em Diário da República, a Resolução de Conselho de Ministros nº9/2001, que aprovou o PDM de Braga, sancionado em Assembleia Municipal a 21 de julho de 2000, considerando a envolvente do Sistema Hidráulico Setecentista como área urbanizável, com índice elevado de construção. Em março de 2001, a DRCN apresentou a proposta de definição da área a classificar, tardiamente uma vez que o futuro do monumento já estava hipotecado aos interesses privados especulativos previstos pelo PDM!

Entretanto, para agravar a ameaça ao monumento nacional, o executivo municipal, à época, decidiu a construção de uma variante à EN 103, por Gualtar, que iria atravessar o monumento nacional e teria implicações na adução e reserva de água; também decidiu, erradamente, a construção do novo Hospital de Braga nas Sete Fontes, afetando área protegida pela Zona Especial de Proteção do Monumento. 

Em 2009, passados 14 anos do pedido apresentado pela ASPA, e perante tantos atropelos ao Património em vias de classificação e com o estatuto de âmbito nacional, surge um movimento de cidadãos – Peticionários pela Salvaguarda das Sete Fontes - que organizou uma petição pela salvaguarda e classificação das Sete Fontes. Em maio de 2010, a petição cidadã foi apresentada na Assembleia da República, resultando em duas Recomendações ao Governo no sentido da classificação do Complexo Monumental das Sete Fontes e no estabelecimento de medidas de proteção.

A construção do novo hospital iniciou em 2009 e foi concluída em junho de 2011.

O Decreto nº16/2011, que classifica o Sistema Hidráulico de Abastecimento de água à Cidade de Braga no séc. XVIII como monumento nacional, e a Portaria nº 576, que define a respetiva Zona Especial de Proteção (ZEP), só foram publicados em maio e junho de 2011, respetivamente.

 

Ações no sentido da defesa do monumento nacional...

Em 2013, o novo executivo municipal optou pela suspensão parcial do PDM de Braga, na área da ZEP, e consequentes medidas preventivas para proteção e salvaguarda do Sistema de Abastecimento de Águas das Sete Fontes à Cidade de Braga, do séc. XVIII; e, em 2016, conseguiu evitar a variante à EN 103, por Gualtar. Em 2018, a Câmara Municipal de Braga (CMB) apresenta às associações e proprietários dos terrenos o Ponto da Situação e a Estratégia Executória para o Complexo Ecomonumental das Sete Fontes, legitimada, sem votos contra, pelos órgãos municipais.  Em 2019 foi realizada a sessão pública “Salvaguarda e Execução do Parque Ecomonumental das Sete Fontes. Apresentação dos estudos: hidrogeológicos, arqueológicos, urbanísticos e paisagísticos”.  No início de 2020, foi efetuada a apresentação e discussão pública do Plano de Urbanização e do Projeto do Parque das Sete Fontes. Em agosto de 2020, a CMB adquiriu os primeiros terrenos para a construção do Parque das Sete Fontes. No início de 2021, adquiriu mais terrenos, desta vez ao proprietário com mais m2 na zona verde do futuro Parque das Sete Fontes (no âmbito da Estratégia antes aprovada). Outros se seguiram. Em setembro de 2021, foi publicado, em Diário da República, o Plano de Urbanização das Sete Fontes, cuja implementação se organiza em unidades de execução; garante um Parque Urbano com 30 hectares de área verde para usufruto público, de acordo com o estudo prévio do Projeto de Arquitetura Paisagista que esteve em discussão pública no âmbito da aprovação deste Plano.

Em junho de 2022, o executivo municipal aprovou a 1ª Unidade de Execução do Plano de Urbanização, que inclui área do Parque Verde Urbano de usufruto público.  

 

O movimento de peticionários pela salvaguarda das Sete Fontes foi um exemplo nacional de cidadania em defesa do Património. Nesta fase espera-se a concretização do Parque Verde o mais rápido possível, mesmo que seja por etapas, pois é ambicionado há muitos anos.

Assim, também se espera que o Presidente Ricardo Rio e os vereadores eleitos se assumam como defensores intransigentes deste monumento nacional, unidos no projeto que é consensual para todos os bracarenses, e que não haja mais intervenções avulsas, como aconteceu recentemente. Importa respeitar o desígnio de um Parque Ecomonumental, livre protagonismos.

 

Convém não esquecer que a salvaguarda do Complexo das Sete Fontes é, principalmente, uma VITÓRIA DA CIDADANIA!

Informação da CMB: 
Entre aspas anteriores sobre as Sete Fontes:

Outra informação disponibilizada pela ASPA:

quarta-feira, 22 de junho de 2022

ENTRE ASPAS "Conhecimento e valor da geodiversidade"

Portugal, apesar de ser um país pequeno, possui grande diversidade ao nível do património natural (biológico e geológico), bem como na paisagem, que se reflete no património cultural (material e imaterial). São valores locais, e nacionais, associados à identidade de cada região e do país.

O património biológico e o geológico, tal como o património cultural, são recursos essenciais para um desenvolvimento sustentável de cada concelho, sendo essencial um conhecimento preciso desses factores de diferenciação para permitir a sua valorização a nível local e nacional.

Com o entre aspas "Conhecimento e valor da geodiversidade" pretendemos contribuir para um maior conhecimento do património geológico, a sua conservação e valorização.

A conservação e gestão da biodiversidade e do património geológico são, hoje, em muitos países, uma prioridade nas políticas de conservação da natureza. 

Para saber mais:

quinta-feira, 16 de junho de 2022

EDIFÍCIO Nº 87 DA RUA DE S. VICTOR: aguarda-se a classificação como bem imóvel de interesse municipal


Em 2021, no verão, fomos surpreendidos com o anúncio de venda de um edifício romântico, dos primórdios do séc. XX, publicitando a "possibilidade de conversão em 8 habitações T0".



Tratando-se de um edifício em excelente estado de conservação, com fachada azulejar e painéis interiores de azulejos, lanternim, ampla escadaria central e outros madeiramentos ornamentais, solicitámos ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Braga (9 de setembro de 2021) a abertura do procedimento de classificação como imóvel de interesse municipal, para o edifício nº 87, da Rua de S. Victor, em Braga (freguesia de S. Victor).

A classificação deste edifício, como monumento de interesse municipal, foi ponto da ordem de trabalhos da reunião de Executivo Municipal de Braga, desta segunda-feira (13 de junho). Foi uma boa notícia para a ASPA, uma vez que alertou o Senhor Presidente e o anterior Vereador do Património para a urgência dessa classificação. 

Aguardamos a classificação como BEM IMÓVEL DE INTERESSE MUNICIPAL.

Esperamos, também, uma atenção especial da parte de quem exerce funções políticas e técnicas no município, relativamente a este e outros edifícios com valor arquitectónico, pois Braga tem perdido património arquitectónico relevante, apesar de alertas  da ASPA no sentido da sua salvaguarda. Infelizmente!

Tudo indica que se evitou a transformação deste edifício em habitações T0.

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Em 2021 partilhámos a preocupação, quanto a este edifício, através deste Entre Aspas.

A propósito deste assunto...

Continuamos a aguardar que a "Alteração ao título III, da Parte B, do Código Regulamentar do Município de Braga - Centro Histórico" seja assunto da ordem de trabalhos do Executivo Municipal de Braga, uma vez que a participação pública nesse processo de revisão do Regulamento de Salvaguarda do Centro Histórico decorreu de julho a setembro de 2020 e, desde então, tudo indica que foi esquecido. 

Solicitamos, ao Senhor Presidente da CMB, o documento que resultou da referida discussão pública, que nunca recebemos. Assim, tudo indica que as preocupações mais atuais em matéria de defesa e proteção do património não são, ainda, um referencial em Braga.

Braga tem perdido património arquitectónico relevante, apesar de alertas da ASPA no sentido da sua salvaguarda. Infelizmente!

sábado, 11 de junho de 2022

QUEM MONITORIZA O IMPACTO DO NOVO HOTEL NO RECOLHIMENTO DAS CONVERTIDAS?

10 de Junho é um dia muito especial para Portugal: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa; também o Dia da Língua Portuguesa, dos Cidadãos e das Forças Armadas. 

Foi um dia, uma semana, muito especial para Braga, uma vez que a cidade foi palco das comemorações do dia 10 de Junho e captou a atenção de cidadãos nacionais e estrangeiros.

Esta semana foi, também, a escolhida para a demolição do edifício contíguo à Capela do Recolhimento das Convertidas, no âmbito da construção do hotel de grande envergadura que vai crescer, nesse quarteirão, no espaço que foi o quintal e jardim da casa do séc. XVIII que irá integrar o projeto

O  hotel foi aprovado pela Câmara de Braga, com o parecer favorável da Direção Regional de Cultura Norte. É contíguo ao Recolhimento das Convertidas, que é Monumento de Interesse Público.


parede lateral da Capela barroca ficou exposta ao tempo, com possibilidade de infiltrações em dias de chuva. Esperamos que tenha sido realizado escoramento prévio e tenham colocado equipamentos de registo que permitam monitorizar o impacto da obra no monumento e, desse modo, actuar em tempo útil caso seja necessário.

Compete à ASPA, como associação de defesa do património, actuar sempre que há risco de eventual perda de património, de acordo com o definido na Lei nº 107/2001. Solicitar a intervenção dos organismo a quem compete a proteção deste património é uma das possibilidades. Assim se procedeu.

Recordamos que o Recolhimento de Santa Maria Madalena ou das Convertidas, a sua Capela e Cerca, é um memorial do barroco conventual, único em Portugal. É também sabido que:

  • apresenta fragilidades que o tornam extremamente vulnerável;
  • exige cuidados especiais, como escoramento e colocação de equipamento do registo, antes de qualquer intervenção junto da Capela e durante a construção do hotel que vai crescer no interior do quarteirão e nos dois edifícios contíguos.

A ASPA nunca questionou a construção do hotel no edifício do séc. XVIII, pois trata-se de uma oportunidade para a reabilitação desta zona da Avenida Central.

Mas colocou diversas questões, desde 2019, pelas seguintes razões:

  • o facto de  ter sido aprovada a construção de edifícios novos no interior do quarteirão, com cinco pisos e estacionamento subterrâneo;
  • a proximidade, ao monumento, dos novos edifícios do hotel (por trás e junto ao edifício do séc. XVIII);
  • o facto de, tudo indica, a construção implicar a alteração da frente de rua, até hoje protegida pela ZEP;  
  • a intenção de utilização do pátio superior da Cerca e do terreno contíguo que integra património do monumento, para "possível ligação", pela rua de S. Gonçalo, à futura zona ajardinada que envolverá o hotel.  
Partilhamos imagens que permitem perceber a preocupação da ASPA...
Recolhimento das Convertidas: do passado ao presente 
Qual o grau de conservação da Capela das Convertidas? Preocupante!
A Capela estará em risco após a demolição do edifício contíguo e durante a construção do hotel? Quais as medidas cautelares impostas? Foram aplicadas?
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Sobre o novo hotel, que vai crescer no interior desse quarteirão, poderá ser útil a consulta da informação disponível: Plaza Central.

Perante as imagens anteriores e as questões colocadas, desafiamos os bracarenses que se assumem como defensores do património local a acompanhar o processo e actuar, de acordo com o definido na Lei do Património, se necessário.

Alertas anteriores da ASPA...
1. Através da coluna Entre Aspas, no Diário do Minho: