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O Enterro da Gata foi uma criação original dos estudantes do liceu de Braga.
Este estabelecimento de ensino, que entrou formalmente em funcionamento em 1845 nas instalações do antigo convento dos Congregados, foi, desde o início, frequentado por várias centenas de alunos, na sua grande maioria filhos de membros das várias camadas das burguesias urbana e rural e de elementos da nobreza. Estes estudantes, provenientes principalmente de todo o Minho e de Trás-os-Montes, contribuíram para a transformação da paisagem humana e comercial de Braga, passando a desempenhar um papel relevante no campo cultural e abrindo a cidade a um novo tipo de boémia. Assim, bastantes deles, quando fora das aulas, viviam nas ruas, nos cafés, ou nos botequins, cavaqueavam, ou jogavam bilhar. Iam, pelo menos os mais endinheirados, ao teatro, ou, a partir do início do século XX, ao cinema e a bailes, em casas particulares, ou nos clubes da elite local. Faziam serenatas e, através das tunas que organizavam, davam espetáculos, deslocando-se, por vezes, em tournée a diversas povoações de Portugal e do norte de Espanha. Vagabundeavam noturnamente pelas ruas, perturbando o sono dos habitantes, embriagavam-se em tabernas e, muitos deles, visitavam os bordéis das toleradas, ou os mais ocultos, só acessíveis aos social e economicamente poderosos.
A 2 de junho de 1889, o jornal Aurora do Minho noticiava: “Na sexta-feira de tarde os escolares do Liceu de Braga, em grande número e em préstito aparatoso de luto, foram enterrar o ano letivo a S. João da Ponte - nas fraldas do monte do Picoto.
Transitaram silenciosos desde a frente do liceu […] até ao local destinado para as cerimónias lutuosas.
Levavam uma gata preta num caixão gracioso de papel acartonado, exornado com coroas de cabos de cebola e réstias de alhos.
O turíbulo do incenso era uma tigela de louça de Prado, com apropriados cordões e enfeites de aparato lúgubre.
No local das cerimónias mortuárias houve discursos facetos de vários escolares, alusivos à gata que se enterrava, e eles auspiciavam galharda e risonhamente, como proteção às gatas que nos exames os poderiam reprovar.
Foi um enterro chistoso e novo na espécie aqui em Braga.”
Este artigo de jornal revela vários aspetos que se vão manter ao longo dos oitenta anos que o Enterro da Gata, na sua primeira versão, durou e que, em boa medida, na sua atual forma, após a sua apropriação pelos estudantes da Universidade do Minho, se mantêm. Assim, o cortejo, com o seu desfile, o seu cómico cariz fúnebre e exorcizador das reprovações corporizadas na gata e os finais discursos estudantis, que se vieram a transformar na ritual proclamação do Testamento da Gata.
Desde o fim do século XIX que há notícias dispersas de que na parte final do desfile este testamento era lido. Este documento sempre foi de crítica, inicialmente aos próprios estudantes e seus professores, evoluindo depois para uma crítica social e política às instituições e figuras da cidade e do país. Posteriormente, com a implantação do Fascismo salazarista, passou a ser exercida a censura sobre o texto e os quadros do próprio cortejo por parte de professores mandatados pelos reitores.
Em 1935 o Enterro foi proibido porque era impossível para as autoridades do Estado Novo, reitor incluído, controlar um cortejo que representava a alegria, a liberdade de expressão e a crítica mordaz dos estudantes do então Liceu Sá de Miranda. Mesmo entre eles, alguns, os que então dirigiam a Academia, colaboraram nessa proibição.
Em 1959, por razões não apuradas, foi autorizado o seu reatamento. Neste período, aquele que para o qual existe muita documentação, os testamentos tornaram-se, apesar da já referida censura, que nem sempre era respeitada nos momentos da leitura, em armas de contestação política ao Estado Novo e aos seus dirigentes locais, com textos de qualidade literária assinalável, destacando-se vários da autoria de José Manuel Mendes. Essa contestação também era visível em alguns dos quadros e dizeres exibidos no cortejo.
Muitos dos cartazes anunciando o Enterro, particularmente neste período, revelam uma saliente qualidade artística.
Em 1967 o Enterro não se realizou, por decisão do Conselho Pedagógico e Disciplinar do Liceu por respeito para com a doença do reitor Feliciano Ramos e, depois, por proibição liminar do mesmo Conselho, “ponderados os inconvenientes de toda a ordem que trazem essas festas” como é afirmado na sua reunião de 26 de janeiro de 1968. Nos dois anos seguintes o Enterro decorre novamente, mas em 1971 numa reunião geral da Academia Bracarense é decido não voltar a organizar os festejos, enquanto o Estado Novo não mudasse a sua natureza corporativa e imperial. Este foi o muito significativo ato final que pôs termo ao Enterro da Gata, enquanto ritual de manifestação pública dos estudantes liceais bracarenses.
Rodrigo Azevedo




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