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O período de férias pode ser especialmente propício para favorecer uma apropriação do conhecimento e do usufruto do património cultural e ambiental por parte das crianças e dos jovens. A realização de programas de ocupação de férias e de tempos livres orientados junto de edifícios e sítios com valor patrimonial torna-se particularmente necessária e adequada para esse efeito.
O Instituto Português de Desporto e Juventude, numa iniciática já com longa tradição, associado, desta vez, aos Museus e Monumentos de Portugal e ao Património Cultural, IP, promove a ação “Guardiões do Tempo”, inserido no programa “Agora Nós”, tendo por finalidade recrutar 200 jovens voluntários, entre 16 e 18 anos, para realizar atividades em todo o país associadas ao património cultural. Os espaços previstos no programa são museus, monumentos, mosteiros, fortalezas, palácios, arquivos e sítios arqueológicos, e as atividades serão de apoio a visitas aos espaços selecionados, acolhimento e informação aos visitantes, vigilância e outras tarefas administrativas associadas. Os voluntários terão direito ao pagamento de despesas (viagens e refeições) até 13 euros/dia, seguro de acidentes pessoais e de responsabilidade civil, bem como ao certificado de participação.
O programa desenvolve-se durante os meses de férias, cinco dias por semana, com horário de cinco horas diárias. Em Braga, os locais patrimoniais selecionados são o Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa, o Palácio dos Biscaínhos e o Mosteiro de São Martinho de Dume. Em Guimarães, realizar-se-à no Museu Alberto Sampaio, nos Paços dos Duques de Bragança e no Castelo de Guimarães.
Esta iniciativa é meritória e merece ser replicada por outras entidades competentes na gestão e promoção do património cultural e ambiental, nomeadamente Câmaras Municipais, museus locais, arquivos e entidades gestoras de parques e ambientes naturais. Além disso, o alargamento do leque etário para crianças e adolescentes deve ser estimulado; com efeito, 200 voluntários é uma muito pequena amostra de todos quantos poderão ser mobilizados para ações patrimoniais e, deste modo, ter um programa de férias enriquecedor e (espera-se) sobretudo feliz.
Uma questão central nos programas de ocupação de tempos livre e de férias para crianças e jovens é que eles devem ser exatamente o que prometem nos seus próprios termos: programas de tempos livres, geridos com autonomia e orientados para o lazer, o que não é nada contraditório com o sentido de responsabilidade e com o compromisso cívico. Eles não podem é ser réplicas mais ou menos formalizadas de aulas de História ou de Biologia, mesmo se são incontáveis as aprendizagens significativas que as crianças e jovens podem obter. A realização de atividades eminentemente lúdicas favorece uma ligação profunda com os contextos patrimoniais, promove “affordances”, isto é vinculações emocionais e cognitivas, que enraízam o conhecimento, a compreensão, o gosto e o sentido de proteção do legado patrimonial e da relação empática com a natureza.
A par das visitas guiadas (e do apoio à sua realização), do acompanhamento de visitantes e da assistência a tarefas simples de gestão patrimonial, os serviços educativos de museus e monumentos, os responsáveis e gestores municipais de políticas de infância e juventude, os educadores associados a programas de educação patrimonial e ambiental podem e devem libertar a sua imaginação criadora para a invenção de variados tipos de atividades; caças ao tesouro no interior de museus e monumentos; oficinas de escrita criativa construída sobre lendas, tradições, sagas e narrativas associadas aos espaços patrimoniais; safaris fotográficos; ateliês de desenho e de escultura temáticos; produção de maquetes e cartografia criativa; pequenas encenações; criação de vídeos e programas audiovideográficos em formato digital, etc. O cruzamento dos elementos simbólicos, que o património incorpora, das culturas societais, locais e comunitárias, deve ser estabelecido com as culturas infantojuvenis, isto é com os processos de significação de crianças e jovens e as suas formas próprias de expressão e comunicação, as suas temporalidades e as suas gramáticas específicas. Tudo isto exige uma ação profissional extremamente competente, mas que, felizmente, se tem vindo a intensificar e alargar no nosso país.
Uma questão central nos programas de férias (sejam eles quais forem) é o da não discriminação de crianças e jovens em função da condição económica, social, da origem étnica ou da nacionalidade. Vários programas – sendo alguns, infelizmente de iniciativa pública – caraterizam-se pelo seu caráter elitista, praticando preços de inscrição que não são comportáveis para muitas famílias. A universalização desses programas, associada à gratuitidade dos mesmos, é uma condição inerente á própria definição do património cultural e ambiental como bem-comum, sendo, portanto, acessível a todos. É, de resto, também, algo que decorre dos direitos da criança, cuja condição de universalização se concretiza na inclusão social plena e na não discriminação. Uma infância capaz de desfrutar de programas de férias, onde possa ser autónoma e feliz, junto do património cultural e natural, será certamente uma infância mais culta, civicamente mais comprometida e melhor realizada nos seus direitos.

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