INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ENTRE ASPAS: "Programas de Férias Infantojuvenis e Património Cultural e Ambiental"

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O período de férias pode ser especialmente propício para favorecer uma apropriação do conhecimento e do usufruto do património cultural e ambiental por parte das crianças e dos jovens.  A realização de programas de ocupação de férias e de tempos livres orientados junto de edifícios e sítios com valor patrimonial torna-se particularmente necessária e adequada para esse efeito.

O Instituto Português de Desporto e Juventude, numa iniciática já com longa tradição, associado, desta vez, aos Museus e Monumentos de Portugal e ao Património Cultural, IP, promove a ação “Guardiões do Tempo”, inserido no programa “Agora Nós”, tendo por finalidade recrutar 200 jovens voluntários, entre 16 e 18 anos, para realizar atividades em todo o país associadas ao património cultural. Os espaços previstos no programa são museus, monumentos, mosteiros, fortalezas, palácios, arquivos e sítios arqueológicos, e as atividades serão de apoio a visitas aos espaços selecionados, acolhimento e informação aos visitantes, vigilância e outras tarefas administrativas associadas. Os voluntários terão direito ao pagamento de despesas (viagens e refeições) até 13 euros/dia, seguro de acidentes pessoais e de responsabilidade civil, bem como ao certificado de participação.

  

 O programa desenvolve-se durante os meses de férias, cinco dias por semana, com horário de cinco horas diárias. Em Braga, os locais patrimoniais selecionados são o Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa, o Palácio dos Biscaínhos e o Mosteiro de São Martinho de Dume.  Em Guimarães, realizar-se-à no Museu Alberto Sampaio, nos Paços dos Duques de Bragança e no Castelo de Guimarães.

Esta iniciativa é meritória e merece ser replicada por outras entidades competentes na gestão e promoção do património cultural e ambiental, nomeadamente Câmaras Municipais, museus locais, arquivos e entidades gestoras de parques e ambientes naturais. Além disso, o alargamento do leque etário para crianças e adolescentes deve ser estimulado; com efeito, 200 voluntários é uma muito pequena amostra de todos quantos poderão ser mobilizados para ações patrimoniais e, deste modo, ter um programa de férias enriquecedor e (espera-se) sobretudo feliz.

Uma questão central nos programas de ocupação de tempos livre e de férias para crianças e jovens é que eles devem ser exatamente o que prometem nos seus próprios termos: programas de tempos livres, geridos com autonomia e orientados para o lazer, o que não é nada contraditório com o sentido de responsabilidade e com o compromisso cívico. Eles não podem é ser réplicas mais ou menos formalizadas de aulas de História ou de Biologia, mesmo se são incontáveis as aprendizagens significativas que as crianças e jovens podem obter. A realização de atividades eminentemente lúdicas favorece uma ligação profunda com os contextos patrimoniais, promove “affordances”, isto é vinculações emocionais e cognitivas, que enraízam o conhecimento, a compreensão, o gosto e o sentido de proteção do legado patrimonial e da relação empática com a natureza.

 A par das visitas guiadas (e do apoio à sua realização), do acompanhamento de visitantes e da assistência a tarefas simples de gestão patrimonial, os serviços educativos de museus e monumentos, os responsáveis e gestores municipais de políticas de infância e juventude, os educadores associados a programas de educação patrimonial e ambiental podem e devem libertar a sua imaginação criadora para a invenção de variados tipos de atividades; caças ao tesouro no interior de museus e monumentos; oficinas de escrita criativa construída sobre lendas, tradições, sagas e narrativas associadas aos espaços patrimoniais; safaris fotográficos; ateliês de desenho e de escultura temáticos; produção de maquetes e  cartografia criativa;  pequenas encenações; criação  de vídeos e programas audiovideográficos em formato digital, etc. O cruzamento dos elementos simbólicos, que o património incorpora, das culturas societais, locais e comunitárias, deve ser estabelecido com as culturas infantojuvenis, isto é com os processos de significação de crianças e jovens e as suas formas próprias de expressão e comunicação, as suas temporalidades e as suas gramáticas específicas. Tudo isto exige uma ação profissional extremamente competente, mas que, felizmente, se tem vindo a intensificar e alargar no nosso país.

Uma questão central nos programas de férias (sejam eles quais forem) é o da não discriminação de crianças e jovens em função da condição económica, social, da origem étnica ou da nacionalidade.  Vários programas – sendo alguns, infelizmente de iniciativa pública – caraterizam-se pelo seu caráter elitista, praticando preços de inscrição que não são comportáveis para muitas famílias. A universalização desses programas, associada à gratuitidade dos mesmos, é uma condição inerente á própria definição do património cultural e ambiental como bem-comum, sendo, portanto, acessível a todos. É, de resto, também, algo que decorre dos direitos da criança, cuja condição de universalização se concretiza na inclusão social plena e na não discriminação. Uma infância capaz de desfrutar de programas de férias, onde possa ser autónoma e feliz, junto do património cultural e natural, será certamente uma infância mais culta, civicamente mais comprometida e melhor realizada nos seus direitos.

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