INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ENTRE ASPAS: "Mata de Albergaria: uma oportunidade para repensar o modelo de visitação Carta aberta ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas

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A recente passagem da Volta a Portugal pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês trouxe, novamente, para a discussão pública, a Mata de Albergaria e a necessidade de compatibilizar a crescente procura deste território com a conservação dos seus valores naturais. 


Mais do que prolongar a discussão em torno de um episódio concreto, esta pode ser uma oportunidade para refletir sobre a adequação do atual modelo de acesso e visitação.

 

A Mata de Albergaria não é apenas um dos lugares mais conhecidos do Gerês. Integra as Matas de Palheiros-Albergaria, classificadas como Reserva Biogenética do Conselho da Europa, e constitui um dos espaços de maior valor ecológico do Parque Nacional da Peneda-Gerês. É também um dos bosques mais representativos dos carvalhais galaico-portugueses de Quercus robur e Quercus pyrenaica, habitat de elevado interesse de conservação.

Esta excecionalidade encontra tradução no próprio ordenamento do Parque. O Plano de Ordenamento do PNPG estabelece diferentes níveis de proteção e atribui às áreas de proteção total o estatuto de reserva integral, reservado aos espaços onde os valores naturais assumem importância excecional e onde a manutenção dos processos naturais constitui a prioridade.

É, pois, neste contexto, que deve ser analisada a visitação da Mata. O desafio é claro: permitir que as pessoas conheçam e usufruam deste património sem que a intensidade dessa utilização comprometa, precisamente, os valores que justificam a sua proteção.

Importa reconhecer o esforço desenvolvido pelo ICNF e pelos profissionais do Parque Nacional na gestão de um território hoje sujeito a pressões muito diferentes das existentes quando alguns dos atuais instrumentos foram concebidos. Mas as circunstâncias mudaram e é natural que os instrumentos de gestão evoluam com elas.

A taxa de acesso de viaturas motorizadas à Mata de Albergaria continua fixada em 1,50 euros por dia de circulação, valor estabelecido em 2007. A própria criação desta taxa teve uma fundamentação ambiental, procurando responder à forte pressão humana e à perturbação provocada pela circulação automóvel. Quase vinte anos depois, é legítimo perguntar se um instrumento concebido em 2007 continua, nesses moldes, adequado à realidade de 2026.

Segundo dados do ICNF, divulgados publicamente, durante os períodos de controlo passaram pela Mata 40.178 veículos em 2023 e 44.645 em 2024. Estes números não demonstram, por si só, uma gestão inadequada; mostram sobretudo a dimensão do desafio.

Talvez por isso, a questão fundamental já não seja apenas qual o preço/a taxa para entrar na Mata de Albergaria, mas quantas viaturas e quantos visitantes pode este ecossistema receber, sobretudo nos períodos de maior procura, sem comprometer os seus valores naturais. Essa resposta deve assentar em critérios técnicos e científicos: capacidade de carga, impactos sobre habitats e espécies, perturbação associada ao tráfego, sazonalidade e qualidade da própria experiência de visitação.

A regulação da circulação não é uma ideia nova. Esta necessidade de ordenamento não é recente: o próprio Estado já reconheceu a visitação massiva sazonal da Mata como questão de gestão, apontando soluções de mobilidade alternativa e estacionamento periférico. Esse diagnóstico mantém hoje plena atualidade e merece ser retomado à luz da intensidade atual da procura. O próprio ordenamento do Parque estabelece condições específicas para o trânsito na estrada entre Leonte e a Portela do Homem e no acesso pela Bouça da Mó.

 

O que importa agora avaliar é se esse modelo continua ajustado à procura atual.

A transição para o novo Programa Especial do Parque Nacional da Peneda-Gerês constitui uma oportunidade privilegiada para o fazer. Seria útil avaliar uma capacidade de carga para a Mata, eventuais limites diários de circulação nos períodos de maior afluência, a revisão da taxa, sistemas de reserva ou controlo, estacionamento periférico, transportes alternativos e uma monitorização continuada dos efeitos da visitação.

Assim, a revisão da taxa não deve ser vista isoladamente. Uma Mata protegida não fica necessariamente mais protegida porque se cobra mais para lá entrar. O essencial é determinar o nível de utilização compatível com a conservação dos seus valores naturais.

Importa, também, reforçar a dimensão pedagógica da visita. Quem atravessa a Mata de Albergaria deve perceber que não percorre apenas uma estrada de montanha. Está num território associado a uma Reserva Biogenética do Conselho da Europa, atravessa um dos melhores exemplos dos carvalhais galaico-portugueses do Parque Nacional e entra numa área onde o ordenamento reconheceu valores merecedores do mais elevado grau de proteção.

 

A discussão recente pode, assim, ter um efeito positivo se servir para abrir uma reflexão serena sobre o futuro deste espaço. Não se trata de fechar a Mata às pessoas. Trata-se de garantir que continuará a poder ser visitada daqui a vinte, cinquenta ou cem anos, mantendo os valores naturais que hoje nos levam até ela.

Preservar a Mata não significa afastar as pessoas. Significa garantir que a presença das pessoas nunca coloque em causa aquilo que as leva até lá.

Luís Macedo

Ex-diretor do Parque Nacional da Peneda-Gerês

  


Depois do precedente aberto pela passagem da Volta a Portugal em Bicicleta em área classificada pela UNESCO como Reserva da Biosfera e pelo Conselho da Europa como Reserva Biogenética, que motivou, por parte da ASPA, o pedido de documentos administrativos ao ICNF e dois comunicados à imprensa, torna-se urgente repensar e atualizar instrumentos de gestão e modelos de visitação.

                                                                                                          ASPA


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