INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

ENTRE ASPAS: Uma dúzia de desejos para 2026!

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Todos nós no final de ano, como é habitual, formulamos “Desejos” para o futuro. O Património, o Ambiente e a Paisagem, são vertentes da governança municipal que exigem uma abordagem política prioritária e multidisciplinar, de modo a garantir a valorização, efetiva e duradoira, dos bens culturais e da respetiva envolvente paisagística. Isto é, a qualidade e modernidade do sítio onde vivemos.


Esperamos que, em 2026, sejam concretizados estes desejos que temos vindo a defender desde sempre como um bem de todos os bracarenses:

1. A criação do Parque Eco Monumental das Sete Fontes, há muito reivindicado pelos bracarenses e, desde 2013, prometido pela Coligação JpB. Aguarda-se a apresentação do Projeto Paisagístico que dará origem à criação do Parque e, também a divulgação, no terreno, da área já em posse do município, de modo a incentivar o usufruto público. Depois da Petição “Pela Salvaguarda das Sete Fontes”, que contou com forte adesão da população, o Parque Eco Monumental será, com certeza, lembrado como Vitória da Cidadania.

2. A salvaguarda do Recolhimento das Convertidas, no âmbito de uma conservação e restauro que respeite a autenticidade deste memorial do barroco conventual, de modo a permitir que o monumento de interesse público seja transformado num lugar de evocação da condição da mulher - Casa da Memória da Mulher – conforme proposta de um conjunto de associações, personalidades da área da cultura e património e elementos da comunidade académica. Falta ainda a conclusão do processo de permuta, já autorizado pelo Governo, de modo a que o Recolhimento passe a propriedade da CIM Cávado e, desde logo, seja garantido o isolamento das janelas abertas.

3. A divulgação do Regulamento de Salvaguarda do Centro Histórico que resultou da discussão pública promovida pela Câmara de Braga (AVISO nº AV/32109/2020), uma vez que este processo administrativo ficou por concluir(!) e é essencial à proteção do edificado com valor arquitetónico.

4. A apresentação pública dos projetos da CMB destinados a espaços museológicos do município, nomeadamente para a Fábrica Confiança, Casa dos Crivos, Museu da Imagem, antigo edifício da Escola Francisco Sanches e Ínsula das Carvalheiras. Para quando esses museus que, para já, só “existem” na imaginação de algumas pessoas?

5. A institucionalização do Parque Arqueológico de Braga. Quem visita as Termas Romanas observa um declive onde se esconde o Teatro Romano de Bracara Augusta, um recurso arqueológico de elevada importância. Depois da musealização da Ínsula das Carvalheiras, haverá esperança para o Teatro Romano, uma vez que se encontra em lista de espera há mais de 10 anos?

6. A classificação dos Troços da Muralha Medieval existentes no Centro Histórico de Braga, de modo a impedir que sejam desrespeitados ou colocados em risco.

7. A efetiva proteção de bens culturais classificados, o que pressupõe o impedimento efetivo, que cabe à câmara, de descaracterização desses bens ou de ampliação da capacidade construtiva na respetiva zona especial de proteção.

8. O respeito pela imagem urbana do Centro Histórico de Braga, impedindo a demolição de edifícios em ruas e praças históricas, representativos dos séculos passados, bem como a atribuição de capacidade construtiva nos respetivos quintais/logradouros e, ainda, a ampliação de cércea, com construção de novos pisos. A exigência de integração dos elementos artísticos e de artes decorativas interiores nos projetos de reabilitação. Bem como, ainda, impedindo o uso indevido do espaço público e descaracterização dos símbolos e das celebrações religiosas tradicionais.

9. A elaboração e divulgação de um Inventário Histórico e Arquitectónico do edificado urbano e do património rural significativo, com identificação, classificação e proteção dos conjuntos urbanos (edificado e espaço público) característicos das diferentes épocas da cidade e das freguesias rurais, o que pressupõe a organização do cadastro do património construído, a caracterização do grau de conservação dos testemunhos da arquitetura original, numa perspetiva multidisciplinar, etc.

10. A Criação de Repositório de Materiais de Construção, de modo a incentivar a recolha de elementos arquitetónicos – azulejos, batentes, gradeamentos de ferro, estuques, etc. -, tendo em vista a sua reutilização em obras de conservação e restauro, envolvendo nesta missão os técnicos, as empresas que intervêm no edificado e os proprietários de edifícios antigos.

11. A classificação de bens culturais relevantes, identificados no Inventário de Património que integra o PDM em revisão, de modo a garantir a sua proteção e valorização efetiva. Exº: Capela de São Lourenço da Ordem, Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, etc. 

12. A concretização do Projeto de recuperação e preservação dos SacroMontes, retomando a política comum de intervenção dos Municípios de Braga e Guimarães e, com ele, a promoção de uma política ambiental atenta à preservação do património arbóreo, à criação e ampliação de espaços verdes, à restrição da impermeabilização dos solos, à preservação das reservas aquíferas e dos cursos de água e à restrição das emissões de carbono, através de um incentivo a formas de mobilidade menos poluentes e, em geral, à criação de uma cultura promotora da sustentabilidade ambiental e de adaptação às alterações climáticas.    

   

Ficam aqui os nossos auspiciosos votos, para 2026. Deste modo, a ASPA deseja sinceramente que, daqui a 12 meses, possamos evoluir no sentido de passar a integrar as sociedades mais modernas e europeias em que a salvaguarda e o usufruto do Património são prioridade e ativos das políticas de desenvolvimento.

                                                                                              ASPA

 

Nota: agradecemos as imagens facultadas por cidadãos atentos ao Património. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

ENTRE ASPAS: "NESTE NATAL, VAMOS CONHECER OS AZEITES"

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Seja qual for a tradição gastronómica de Natal, há um ingrediente indispensável nas cozinhas e mesas portuguesas: o azeite. Está presente nos pratos principais (o bacalhau quer-se bem regado com azeite!), nos acompanhamentos e até nas frituras típicas da época.

O azeite faz parte da vida e dieta dos povos do Mediterrâneo desde há muito tempo. A forma de fazer azeite mudou muito nas últimas décadas: a azeitona é colhida mais cedo, no estado de maturação ideal, e processada rapidamente; os lagares são limpos e têm temperatura controlada. Com esta modernização, os azeites portugueses passaram a ser reconhecidos internacionalmente pela sua qualidade: são azeites estáveis, aromáticos, apresentam baixos níveis de acidez e, sobretudo, estão isentos de defeitos sensoriais como ranço, tulha ou mofo.

Hoje temos à nossa disposição um alargado leque de opções de azeites, com diferentes qualidades, origens, preços e apresentações de embalagem. Mas como escolher? Sugiro que pondere os seguintes factores:

Qualidade. Quanto mais novo é o azeite, melhor é a sua qualidade. O tempo de consumo de cada azeite é definido pelo produtor (situa-se, em regra, entre os 9 e os 24 meses após extracção). Há azeites que se mantêm bons para consumo durante mais tempo (bem acondicionados e em recipientes escuros, para evitar a oxidação), mas vão perdendo qualidade e os seus aromas vão-se alterando. A acidez do azeite também influencia: quanto mais baixa for, maior qualidade tem o azeite, mais tempo tende a durar. O melhor azeite é o Virgem Extra, de acidez não superior a 0,8%. O seguinte é o Azeite Virgem, com acidez inferior a 2%. Existe depois o Azeite corrente, que contém mistura de azeite refinado. Estas duas últimas opções, mais baratas, podem ser usadas em fritos e refogados. Para utilizar em cru (em saladas, sopas e, claro, nos pratos de Natal), deve usar Virgem Extra.

Origem geográfica. Escolher azeites portugueses é uma forma de valorização da produção e economia nacional. A origem geográfica imprime ao azeite um carácter próprio: os de Trás-os-Montes tendem a ser mais intensos; os do Alentejo, mais suaves e de aroma fresco; os do Ribatejo, redondos e equilibrados; e os das Beiras terão perfis mais neutros. Mas até na mesma região, a diversidade de azeites é enorme e o melhor critério será sempre o paladar de cada um. Contudo, lembre-se que as suas escolhas como consumidor têm impacto directo nos territórios de origem dos produtos adquiridos. Se tiver preocupações de preservação do património, pode procurar azeites com Denominação de Origem Protegida (DOP). Não sendo sinónimo directo de qualidade superior, a qualificação DOP garante que o azeite foi produzido dentro de uma região geográfica delimitada, segundo uma série de práticas específicas, tradicionais e usando variedades de oliveiras locais.

Tipo de produção e práticas culturais. Em Portugal, a produção divide-se em três tipos de olival: o extensivo, o intensivo e o super-intensivo. Por um lado, os olivais extensivos e tradicionais têm árvores espaçadas, muitas vezes centenárias, conduzidas em sequeiro e, na maior parte das vezes, são explorados por empresas familiares de pequena dimensão. Por outro, os olivais intensivos e super-intensivos têm grande escala, grandes densidades de plantação, as árvores são muitas vezes regadas, e os processos são mecanizados. O super-intensivo, que tem vindo a ser instalado nos últimos anos no Alentejo, junto do Alqueva, é extremamente produtivo mas tem um impacto ambiental mais elevado.

Qualquer dos sistemas pode produzir azeites de elevadíssima qualidade, mas os seus efeitos ecológicos e sociais são diferentes. A escolha deverá privilegiar azeites produzidos com responsabilidade ambiental e social. Até há poucos anos, podíamos, por exemplo, desconfiar da sustentabilidade ambiental dos azeites provenientes de azeitonas de apanha nocturna. Mas desde 2019, após um estudo do INIAV que relatava que a apanha nocturna nos olivais era causa directa de morte de inúmeras aves que procuravam abrigo nas oliveiras durante a noite, que essas práticas foram banidas. Explorações que mantêm cobertura vegetal no solo, limitam o uso de pesticidas e herbicidas, fazem controlo biológico de pragas e gestão cuidadosa da água, apresentam impactes ambientais significativamente menores. Mas como este tipo de indicadores de sustentabilidade não aparecem, em regra, de forma explícita no rótulo, podemos, por questões de praticidade, procurar certificações de produção biológica, produção integrada ou qualificações regionais que incluam requisitos de boas práticas.

Ainda, se o objectivo for alinhar a escolha com a conservação do património natural e cultural, o azeite de olival extensivo e tradicional merece uma atenção especial. É nos olivais extensivos que se mantêm as variedades nacionais que conferem a genuinidade ao azeite português tradicional. Nos olivais intensivos e super-intensivos encontramos quase exclusivamente variedades de oliveiras estrangeiras adaptadas. Os olivais extensivos também mantêm mosaicos de paisagem onde cabem matos, pastagens, muros de pedra, linhas de água e pequenas hortas. Suportam maior diversidade de aves e insectos, usam menos químicos (ou nenhum) e ajudam a conservar solos frágeis em encostas e zonas de montanha. Para além disso, em muitas regiões, especialmente em zonas de montanha, o olival tradicional é uma atividade económica que mantém pessoas nos territórios rurais, sendo assegurada essencialmente por pequenas explorações e pequenas cooperativas.

Se o Natal é uma altura em que falamos de tradição, comunidade e solidariedade, escolher para a consoada (e para os restantes dias do ano) um azeite português de qualidade, produzido com respeito pela Natureza e proveniente do trabalho de empresas dos territórios rurais de baixa densidade é um bom exercício prático dessa lógica.

                                                                                   Catarina Afonso (Bióloga)

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

COMO A QUADRA NATALÍCIA PODE IMPLICAR A PERDA DE BIODIVERSIDADE

Com a aproximação da quadra natalícia, importa questionar o uso de musgo e de azevinho, tanto para o presépio como para ornamentação. É um hábito antigo, mas não é compatível com as preocupações ambientais atuais em matéria de biodiversidade.

Neste Entre Aspas, publicado em dezembro de 2019, Catarina Afonso alerta para os riscos da recolha de musgo e de azevinho, nesta época do ano, e faculta informação importante sobre estes dois exemplares da flora nativa da região. 


Como a quadra natalícia pode implicar a perda da biodiversidade

Em muitas culturas ocidentais, o azevinho (Ilex aquifolium) é um dos símbolos da quadra natalícia. A tradição de usar o azevinho em decoração natalícia é tão antiga que se pensa que a sua origem remonte a costumes associados aos festejos de Solstício de Inverno (Yule) dos povos pagãos antigos e, mais tarde, incorporados nas festas em honra de Saturno, da Roma Antiga. Durante estas festividades celebradas em dezembro, as casas eram decoradas com coroas de folhagem vivaz, essencialmente ramos de azevinho, gilbardeira (Ruscus aculeatus) e hera (Hedera helix). Posteriormente, também as celebrações cristãs do Natal começaram a usar os enfeites e coroas de azevinho.

Na verdade, o uso do azevinho em todas estas tradições de diferentes origens deve-se muito provavelmente ao simples facto de não existirem flores espontâneas coloridas durante o Inverno no Hemisfério Norte. Os frutos vermelhos brilhantes, que sobressaem entre o verde intenso e lustroso dos ramos, fazem com que este arbusto tenha sido escolhido, por tantas culturas e desde há tanto tempo, como ornamento e símbolo desta época do ano.

Sendo tão procurados durante esta quadra, os ramos de azevinho são cortados, muitas vezes sem critério, debilitando os exemplares desta espécie. Sendo uma espécie dióica (há plantas machos e plantas fêmeas), são sobretudo as árvores fêmeas (as que têm os frutos vermelhos) as que mais são procuradas e mutiladas, precisamente na fase de crescimento em que não deve ser colhida (fase de fruto, que dará origem a nova planta). Por isso, e por haver risco de extinção enquanto espécie de ocorrência natural, publicava-se, há precisamente 30 anos, em Diário da República, o Decreto-Lei n.º 423/89 de 4 de Dezembro, a lei que proíbe totalmente o arranque, o corte total ou parcial, o transporte e a venda do azevinho espontâneo.

Lê-se no decreto: “O azevinho tem sido tradicionalmente usado como ornamento característico da quadra natalícia, o que motiva uma procura (…) cada vez mais intensa nos poucos locais onde ainda é possível encontrá-lo espontâneo (…) praticando-se, sistemática e indiscriminadamente, uma desrama quase ou mesmo total, que provoca a morte das plantas, muitas vezes exemplares de grande beleza e raridade, com várias centenas de anos.”

O azevinho, cujo habitat mais favorável são os bosques sombrios e protegidos de montanha até aos 1600 metros, é uma das poucas espécies cuja densa folhagem permanece verde durante os meses mais frios do ano, enquanto que as árvores de folha caduca, como os castanheiros e os carvalhos, perdem as suas folhas. É entre e sob a folhagem do azevinho que aves, lebres e outros animais encontram abrigo contra o rigor do Inverno e se refugiam de predadores. Os seus frutos, embora tóxicos para humanos e animais domésticos, são uma importante fonte de alimento para abelhas e aves, e a sua casca é apreciada pelos coelhos. A presença do azevinho nos bosques e carvalhais tem, assim, uma elevada importância na subsistência de muitas espécies de animais durante o Inverno.

Em Portugal, o azevinho é uma espécie de crescimento lento, que pode viver centenas de anos e atingir mais de 10 metros de altura. Actualmente aparece em áreas de maior protecção do património natural, mas que permanecem ameaçadas pela destruição quer por fogo, quer por corte para satisfação da enorme demanda de mercado na época natalícia.

Como consequência da diminuição do azevinho, começou a verificar-se a colheita abusiva de gilbardeira (Ruscus aculeatus), também chamada de falso-azevinho, que possui folhagem vistosa e frutos de inverno também vermelhos, e do teixo (Taxus baccata), outrora muito abundante por toda a Europa, mas hoje considerado uma espécie em vias de extinção. Ambas as espécies se encontram abrangidas por legislação europeia sob a Diretiva Habitats (92/43/CEE), que contempla espécies de interesse comunitário cuja conservação é objecto de medidas específicas de gestão e/ou protecção.

Mas a quadra natalícia representa também uma ameaça a outras plantas – os briófitos. Os briófitos são um conjunto de plantas que não possuem verdadeiras raízes, caules ou folhas e nunca produzem sementes, flores ou frutos. Os musgos incluem-se neste grupo de plantas, que são consideradas as mais primitivas plantas terrestres.

Estas plantas armazenam grandes quantidades de água e têm a capacidade de libertá-la lentamente para o ambiente circundante, tendo um papel fundamental nos ciclos de nutrientes e da água na maioria dos ecossistemas. Têm também uma função relevante na acumulação de biomassa, retenção de dióxido de carbono e prevenção da erosão do solo. Para além disso, albergam uma microfauna muito diversa. Os briófitos são ainda usados como bioindicadores ambientais, uma vez que desaparecem em ambientes poluídos, sobrevivendo em zonas de boa qualidade aquática e atmosférica.

Conhecem-se mais de 700 espécies de briófitos em Portugal, mas o facto de serem organismos associados a condições ecológicas muito particulares faz com que cada espécie ocorra apenas em áreas muito restritas. Assim, muitas das espécies são já raras e outras encontram-se ameaçadas devido à destruição dos seus habitats, por acção antropogénica directa (como o caso da drenagem das turfeiras onde se encontram vários musgos) e também pelas alterações climáticas.

Em Portugal, a protecção dos musgos limita-se apenas aos musgos do género Sphagnum e, de modo genérico, às turfeiras, que são abrangidos pela Directiva Habitats. Apesar disso, mas talvez devido à ausência de legislação própria para a sua protecção, com aplicação de coimas e multas para as infracções, ocorre nesta época a colheita indiscriminada de musgos e outros briófitos para decoração dos presépios, fazendo com que a quadra natalícia seja mais um dos factores a contribuir para que estas plantas estejam a tornar-se cada vez mais raras.

Catarina Afonso

(Bióloga. Doutoranda no Instituto Superior de Agronomia da Universidade Lisboa)

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Mais informação: https://natural.pt/news/natal-sem-musgo?locale=pt

A PROPÓSITO DO RECOLHIMENTO DAS CONVERTIDAS...

O RECOLHIMENTO DE SANTA MARIA MADALENA OU  DAS CONVERTIDAS É MONUMENTO DE INTERESSE PÚBLICO. 

Na última semana,  a Câmara Municipal de Braga desencadeou uma ação simbólica, que demonstra atenção em relação ao Recolhimento das Convertidas. 

Trata-se de um Monumento de Interesse Público, um memorial do barroco conventual, único, com mais de 300 anos, que manteve a sua autenticidade até ao séc. XXI. Um monumento de grande valor histórico e patrimonial, numa cidade que não o soube proteger embora se afirme como Cidade do Barroco.


Janela aberta deste início de 2025


Agora, tanto o Presidente da Câmara como a Vereadora da Cultura e Património, constataram o que a ASPA refere há bastante tempo: que o monumento está abandonado e em risco, há anos. A entrada de água pelas janelas abertas (desde início do ano) agravou, com certeza, a situação que já existia antes.


Por isso questionamos:

  • Em que situação está a estrutura de todo o edifício, uma vez que é em madeira?
  • Em que situação está o teto da Capela de São Gonçalo, com motivos decorativos pintados em traves de madeira?
  • Em que situação está o retábulo barroco de talha dourada?
  • Em que situação está o arco triunfal?
  • Em que situação está o oratório seiscentista?
  • Em que situação estão os azulejos?


Uma vez que a Câmara Municipal de Braga tem em sua posse a chave do monumento, compete-lhe articular com a ESTAMO e com o Património Cultural I.P., uma vez que se trata de um edifício que pertence ao Estado e está classificado como Monumento de Interesse Público.

Assim, para além do isolamento urgente das janelas, é urgente:

  • realizar uma avaliação rigorosa, sob o ponto de vista estrutural e do património artístico, de modo a conhecer a situação exata em que se encontra o Recolhimento das Convertidas e a Capela de São Gonçalo;
  • definir quais as ações pontuais a realizar, no sentido de evitar o agravamento da situação;
  • encontrar soluções para a sua conservação e restauro, com respeito pela autenticidade deste memorial do barroco conventual, garantindo a preservação do espírito do lugar.

O alerta público, insistente, por parte da ASPA, teve em vista salvar um monumento que é importante para Braga.


A intervenção da ASPA, ao longo dos últimos anos, junto dos organismos responsáveis pela tutela do património cultural português, vai com certeza permitir que este caso seja rapidamente resolvido, depois de muitos anos de inércia.


Esperamos que a conclusão do processo de permuta, que permitirá a passagem do Museu dos Biscainhos para o Estado, e do Recolhimento das Convertidas para a CIM Cávado/ Câmara Municipal de Braga, esteja para breve.

A constatação sobre o estado de degradação do monumento irá, com certeza, agilizar a permuta que, há muito, devia estar concluída.


O projeto para criação da CASA DA MEMÓRIA DA MULHER no Recolhimento das Convertidas, que resultou de um desafio lançado pela ASPA a um conjunto de organizações locais e nacionais, tem em vista salvar o monumento, com respeito pela autenticidade deste memorial do barroco conventual, garantindo a preservação do espírito do lugar.

Contou com o apoio de personalidades da área da cultura e património, bem como de elementos da comunidade académica. Pessoas que se destacam em diversas áreas: história, arquitetura, mediação cultural, etc.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ENTRE ASPAS: "Só resta um quiosque centenário! O do Largo de São Francisco."

 Só resta um quiosque centenário...

Pormenor de fotografia de Manoel Carneiro. Quiosques hexagonais na Praça da República. 

Arquivo fotográfico ASPA/ Fototeca MNS.

As imagens dos arquivos fotográficos pertença da ASPA, que se encontram na Fototeca do Museu Nogueira da Silva/Universidade do Minho, permitem conhecer a imagem urbana de Braga, desde o séc. XIX a meados do séc. XX, na qual os quiosques marcam presença. Manoel Carneiro (séc. XIX-XX) revela-nos um número significativo de quiosques e outros equipamentos urbanos, situados em praças do Centro Histórico de Braga: Praça da República (Arcada), Praça do Município, Largo do Pópulo, Campo da Vinha, Campo de Santiago, Campo das Hortas e Jardim da Senhora-a-Branca. Arcelino de Azevedo (1940-1960) revela-nos uma outra localização de dois desses quiosques hexagonais, desde então no Largo Barão de São Martinho e Largo de São Francisco. No final do séc. XIX, e início do séc. XX, havia vários quiosques em cada uma das Praças e Largos históricos.

 

Desse conjunto de quiosques, com formas e cores diferentes, vários hexagonais, só dois resistiram até ao séc. XXI e, desses, só um se mantém no espaço público em 2025, o quiosque pintado a verde, no Largo de São Francisco, que nos últimos anos foi usado como local de venda de flores e plantas. Hoje destaca-se pelo abandono a que foi sujeito.

 

Sabendo que os quiosques foram equipamentos urbanos de referência em épocas passadas, espaço de comércio, convívio social e lazer, onde se conversava sobre os mais variados temas suscitados pelos jornais e revistas que vendiam, a ASPA lançou um desafio à Câmara Municipal de Braga, em 2018, no sentido de reconhecer valor patrimonial aos quiosques históricos, promover o seu estudo e formalizar a classificação como equipamento urbano de interesse municipal, tendo em vista a sua conservação no espaço público.

O pedido de classificação, reforçado em 2024, foi acompanhado de imagens dos arquivos fotográficos Manoel Carneiro e Arcelino de Azevedo, ambos pertença da ASPA, que nos revelam uma imagem urbana de Braga marcada pela presença de quiosques, coretos, mictórios e outros equipamentos urbanos. Manoel Carneiro mostra-nos quiosques que há muito desapareceram.

Outras cidades, em Portugal e outros países, reabilitaram os seus quiosques, dando-lhes um uso atual. Braga podia seguir o exemplo, pois os quiosques, sendo marcos do passado no espaço público, podem ter usos atuais, conforme vemos em cidades que valorizam o património e reconhecem a sua importância histórica. Podem ser o ponto de partida para narrativas que lembrem o passado, através de diálogo com o edificado da envolvente - por exemplo através de sessões de história ao vivo que recriem vivências do quotidiano do séc. XIX/XX -, de modo a incentivar o pensamento crítico e promover uma compreensão mais profunda do património.

Os quiosques, tal como os coretos, são recursos importantes para a mediação cultural, como contributo para a promoção de literacia cívica e da cidadania cultural, de especial importância numa cidade onde o passado se cruza com o presente e o património cultural construído precisa ser respeitado.  São importantes sob o ponto de vista educativo, cultural e turístico.

 

Foi uma boa surpresa constatar que, em véspera das recentes eleições autárquicas, o Executivo Municipal cessante aprovou, finalmente, a classificação do Quiosque do Largo de São Francisco como Monumento de Interesse Municipal (MIM). O único que resistiu, apesar de se encontrar degradado.

Valeu a pena a persistência da ASPA!

Estranha-se, contudo, que a designação atribuída seja “Quiosque de Flores do Largo de S. Francisco”, uma vez que só nos últimos anos foi usado como local de venda de flores e, entretanto, deixou de ser usado como tal. Na página oficial do Património Cultural I.P. é possível verificar que se encontra em vias de classificação como Monumento de Interesse Municipal, designando-o Quiosque de Flores do Largo de S. Francisco”!

De facto, apesar de este Quiosque se encontrar em vias de classificação, revela total abandono que não passa despercebido a quem lá passa.  Assim, espera-se que, em breve, seja sujeito a conservação e restauro.

 

Quiosque vermelho, que era um elemento marcante no Largo Barão de São Martinho, junto à “Brasileira”, também estava num estado idêntico. Mas, apesar dos alertas da ASPA e do pedido de classificação, desapareceu sem qualquer aviso. Procurámos saber para onde o levaram, mas tudo indica que só foi localizada uma parte deste quiosque centenário. Como foi possível?!

Como tencionam resolver este assunto os responsáveis por esta perda? Espera-se que o seu destino possa promover a reflexão, construtiva, conduzindo a melhores práticas em relação ao património.

 

Será que o quiosque vermelho, que foi vítima da inação ou insensibilidade em relação ao património, que impediu a sua conservação e classificação, a tempo de o salvar, ainda nos vai surpreender, quiçá como memória do final do séc. XIX/ início do séc. XX, num futuro museu da cidade?

 

Numa cidade histórica, como Braga, onde os arquivos fotográficos do séc. XIX e XX permitem conhecer o passado, não é difícil proteger o património e deixá-lo como herança a gerações futuras.

                                                                                    Teresa Barbosa

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A Câmara Municipal de Braga determinou, a 12 de setembro, a abertura do procedimento de classificação, como Monumento de Interesse Municipal, do Quiosque centenário que restou.

A ASPA, que apresentou a proposta de classificação em 2018, estranha a designação “Quiosque de Flores do Largo de São Francisco”, conforme referido no Edital nº 1578/2025, de 12 de setembro, uma vez que o referido quiosque só, nos últimos anos, teve esse uso.

Assim, sugeriu-se que a designação deste Monumento de Interesse Municipal seja alterada para “Quiosque Centenário do Largo de São Francisco”.

                                                                                      ASPA