INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Colecções Científicas Escolares: património esquecido que é fonte de conhecimento"


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Nas últimas décadas, a investigação histórica tem demonstrado um interesse crescente pelo estudo das instituições escolares para além dos textos legais e dos discursos pedagógicos. Deste modo, a cultura material escolar - da qual fazem parte, por exemplo, os objetos científicos utilizados em sala de aula - passou a ser vista como fonte fundamental para compreender as práticas de ensino, as metodologias adoptadas e o modo como o conhecimento foi apropriado em diferentes contextos históricos.

Em Portugal, as coleções científicas escolares começaram a ser organizadas a partir da segunda metade do século XIX, acompanhando as reformas educativas que visavam modernizar o ensino secundário. Os liceus, criados pela reforma de Passos Manuel (1836), tinham como objetivos principais formar cidadãos instruídos e preparar os estudantes para o ensino superior, num contexto de crescente valorização das ciências naturais com o intuito de aproximar o seu ensino dos princípios experimentais da ciência.

Ao longo do século XIX e no início do século XX, a pedagogia defendia que o ensino prático, experimental e visual era essencial para a compreensão dos fenómenos naturais. O uso de espécimes reais, modelos de diversos tipos, instrumentos de medição, preparações para microscópicos e coleções mineralógicas e geológicas era considerado indispensável para um ensino eficaz. Destacam-se neste contexto os chamados “museus escolares” ou “gabinetes de história natural”, que constituíam espaços de aprendizagem onde os alunos podiam observar, manipular e interpretar o mundo natural a partir dos objetos e instrumentos disponíveis. As coleções escolares não eram encaradas como meros recursos complementares e sim como verdadeiras estruturas pedagógicas que moldavam os modos de ensinar e aprender ciência.

Por volta de 1900, mais de 70% das escolas do ensino secundário em Portugal possuíam coleções de história natural formadas devido a compras centralizadas feitas pela Estado, por doações de instituições científicas (por exemplo a Escola Politécnica de Lisboa e os Serviços Geológicos), por contribuições individuais (professores, antigos alunos, famílias e comunidades) ou devido à iniciativa individual de professores e alunos (construção de herbários, taxidermização de animais) [1]. Assinala-se assim a existência de uma rede de cooperação educativa e científica que envolveu universidades, instituições científicas, escolas e sociedade civil.

 

O Museu da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga, possui notáveis coleções deste tipo, remontando o seu acervo a meados do século XIX, quando o Liceu de Braga foi instalado no antigo Convento dos Congregados. Verifica-se que, tal como em instituições congéneres, também as coleções científicas aí existentes foram sendo reunidas através de aquisições do Estado, de doações de entidades locais e de ofertas por parte de antigos alunos e outros. Atualmente, este museu possui cerca de 2000 peças já inventariadas - entre as quais animais taxidermizados, herbários, instrumentos científicos, minerais e objetos etnográficos -, com muitas outras ainda por inventariar e classificar. Parte deste acervo encontra-se exposto no Museu, aberto ao público durante o horário escolar; o restante constitui as reservas que se encontram distribuídas por vários espaços da escola.

 

Apesar da sua relevância histórica e científica, a maioria das coleções científicas escolares encontrou-se durante décadas em estado de abandono, desorganização e invisibilidade institucional. A partir de finais da década de 1980, legislação e iniciativas da responsabilidade do Ministério da Educação - com destaque para o Inventário e Digitalização do Património Museológico da Educação e respetiva divulgação on-line - e a aprovação de diversos projetos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tentaram inverter a situação, promovendo a inventariação, preservação e valorização do património científico escolar. No entanto, a ausência de políticas públicas consistentes e a falta de pessoal especializado nas escolas dos diversos níveis de ensino, mais do que dificultado o progresso desta missão, conduziu à sua estagnação, com a consequência óbvia deste património correr o risco de voltar a tornar-se invisível para as autoridades competentes, a comunidade escolar e o público em geral.

É prioritário entender estes acervos como património científico nacional, com valor para a memória coletiva e para a investigação histórica e constituindo (ainda) uma importante fonte de conhecimento para o ensino das ciências. É necessário que este património seja contemplado em projetos educativos, museológicos e de investigação interdisciplinares a vários níveis institucionais, projetos esses que podem e devem ser apoiados pelos órgãos locais de governo. Investir na valorização do património científico escolar é contribuir para que uma parte da nossa memória coletiva não se desvaneça, para que a reconstrução histórica seja mais plural, material e participativa, e para a formação de uma consciência crítica sobre o legado material da ciência e da educação em Portugal.

 

                                                                                   Teresa Salomé Mota

(Historiadora da ciência)

                                                                                  

 

[1] Gomes, Inês, “The scientific heritage of Portuguese secondary schools: a historical approach”, Pedagogica Historica, 54 (4), 468-484.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"50 ANOS DA CODEP". No âmbito do Ciclo Braga Memória (Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva)


A sessão deste mês de fevereiro (11 de fevereiro), do 
Ciclo Braga Memória, promovido pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, foi uma homenagem aos 50 ANOS da CODEP - Comissão de Defesa e Estudo do Património. Teve como intervenientes dois dos fundadores deste movimento de cidadãos criado em Braga, a 3 de fevereiro de 1976, com o objetivo de lutar pelo salvamento das ruínas de Bracara Augusta: Henrique Barreto Nunes e Eduardo Pires de Oliveira

Eduardo Pires de Oliveira fez uma breve referência a momentos da História de Braga em que os achados arqueológicos tiveram especial importância, a começar por D. Diogo de Sousa no séc. XVI, recordando o papel de Albano Belino e J. Leite de Vasconcelos c. de 1900, finalizando nos anos 60/70, quando, para além da descoberta pelo Cónego Luciano A. dos Santos de um tanque romano com mosaicos no seminário de S. Tiago  o padre Arlindo R. Cunha, bem como J. J. Rigaud de Sousa, apoiados pelo vereador Egídio Guimarães, mobilizaram um grupo de jovens para escavações na Falperra e em Braga, de que resultaram achados importantes, nomeadamente uma necrópole na Av. Da Liberdade e a chamada Casa do Poço, em Maximinos, lamentavelmente destruídas.

Henrique Barreto Nunes centrou-se num curto período de tempo, entre 1975 e 1977, quando um grupo de cidadãos observou máquinas de grande porte no Alto da Cividade/Colina de Maximinos, no âmbito de operações de urbanização que movimentavam terra, demoliam e arrastavam blocos de granito de muros antes intactos de Bracara Augusta, onde era possível observar, também, artefactos romanos. Apresentou e localizou no tempo documentos variados – telegrama dirigido a Junta Nacional de Educação (13 jan1976), ata de constituição da CODEP, recortes de imprensa, fotografias de achados e intervenientes, etc. Lembrou memórias e vivências dessa época, nomeadamente as escavações organizadas pela CODEP e dirigidas pelo Doutor Jorge de Alarcão em Abril 1976, nas proximidades do local onde um ano mais tarde iriam ser localizadas as termas e posteriormente o teatro romano, intervenção que incentivou uma participação entusiástica do público que, apesar da chuva intensa, marcou presença no auditório da BLCS.    

A quantidade e qualidade dos recortes de imprensa (local e nacional) apresentados, sobre os achados arqueológicos e sobre a ação da CODEP em 1976, bem como a reportagem da RTP (com entrevistas aos cidadãos envolvidos) sobre o risco a que estava sujeita a cidade romana, permitiram perceber a importância política atribuída ao património que Braga corria o risco de perder.

Manuel Sarmento, presidente da ASPA, associação que nasceu, a 30 de março de 1977, na sequência da CODEP, referiu que há um antes e um depois da intervenção do CODEP no que respeita à defesa de Bracara Augusta, à arqueologia em Braga e à preservação da memória identitária da cidade. Lembrando as misérias do resgate dos vestígios do passado, que levaram inclusive à entrega à Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, dos achados de Albano Belino, no início do século passado, motivo de chacota de Camilo Castelo Branco e Francisco Martins Sarmento, considerou que o CODEP só foi possível constituir-se, no dealbar do Portugal democrático, pela ação associativa e cidadã de estudantes e investigadores, promovendo a defesa dos bens públicos contra a ação predadora dos interesses privados, nomeadamente por uma intensa ação junto da comunicação social e de "advocacy" junto dos poderes públicos, e contribuindo para a consolidação de uma visão da defesa do património cultural como uma dimensão essencial à democracia cultural. A ASPA continua o legado do CODEP, tendo na sua história de quase 50 anos assinalado vitórias como a recuperação do Mosteiro de Tibães, a criação, em curso, do Parque Ecomonumental de Sete Fontes, para a par com alguns desaires que tornam a ação associativa de defesa do património cultural e natural cada vez mais atual. 

Foi com satisfação que constatamos a presença de responsáveis e/ou profissionais de instituições locais que intervêm em Património, nomeadamente do Museu D. Diogo de Sousa, Câmara Municipal de Braga e Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, bem como a presença de jovens arqueólogos, que, no geral, contribuíram para o enriquecimento do debate que se seguiu à apresentação.

A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, a quem agradecemos o empenhamento e interesse postos nesta iniciativa, teve o cuidado de divulgar, em direto, a gravação desta sessão, que disponibilizou ao público no Facebook, de modo a que possa ser consultada pelos interessados.

Importa ainda referir que, no âmbito desta sessão, está patente uma pequena mostra documental sobre a génese da CODEP, que contou com a colaboração da ASPA - Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural, reunindo registos e documentos históricos que ajudam a preservar e valorizar a memória da sua fundação, elementos importantes para compreender a Braga atual.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ENTRE ASPAS: "Das dinâmicas culturais à cidadania ativa"

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Se Braga 25 mostrou uma cidade com público para a cultura, falta agora que a cidade e quem a governa aproveite o impulso para fazer de Braga não apenas um município relevante no panorama cultural português, mas também um exemplo de cidadania ativa. Esperando ainda por um balanço mais rigoroso e afinado no detalhe, os números já divulgados mostram que a Equipa de Missão respondeu ao desafio – pelo menos em quantidade, já que a qualidade é sempre aferida pelo critério de cada um de nós. Sem entrar nesse juízo e em subjetividades desnecessárias neste contexto, cumpre reconhecer que o milhão e meio de espetadores apontados como tendo participado nas mil e duzentas atividades propostas, mostram que existe público para dar continuidade a uma programação cultural diversificada, orientada para diferentes públicos, tendencialmente descentralizada, ou seja, abarcado todo o município e com potencial polarizador para toda a região.


Prémio de consolação, é certo, mas nem por isso menos relevantes para as cidades que chegaram à reta final da escolha da Capital Europeia da Cultura 2027 – Aveiro, Braga e Ponta Delgada – o encargo de construir uma programação que cubra um ano inteiro de atividades culturais deve servir, a todas elas, como oportunidade de transformação. É importante, por isso, que se encontre forma de dar continuidade ao que se iniciou, única maneira de assegurar que a excecionalidade de uma nomeação como capital nacional da cultura abriu portas que não devem ser fechadas. Nos meses que se seguem veremos se Braga viveu um fogacho cultural singular ou se iniciou um processo que coloque a cidade na rota de eventos culturais contemporâneos, alguns com forte potencial disruptivo, condição que habitualmente desagrada aos poderes instituídos.

 

Em momentos de forte polarização como aquele que vivemos, a cultura tanto pode ser um espaço de encontro como de confronto. O que traça a bissetriz entre estes dois posicionamentos é o exercício de uma cidadania esclarecida, madura e interventiva, estando Braga longe de ser um exemplo neste campo. Sabendo que há, por certo, discordâncias, pela minha parte vejo pouca mobilização para a intervenção no espaço público, um associativismo bem abaixo de desejado numa cidade de média dimensão e políticas públicas que dão pouca voz à cidadania.

 

É em face deste cenário que o balanço da Braga 25 não se deve restringir ao que se fez, mas também ao modo de dar continuidade ao projeto. Não havendo rutura entre o atual executivo e o precedente, essa continuidade parece fácil de alcançar. Trata-se, no entanto, de uma ilusão de facilidade. As condições para que a cultura ocupe um lugar central na vida corrente do município, e não seja apenas um fogacho num ano de exceção, são de natureza política mais que económica. Só se conseguem com um executivo que acredite que o empoderamento que a cultura permite aos seus públicos não é uma ameaça, mas uma mais-valia para toda a comunidade. Quando consideramos as dezenas de projetos que se associaram à Braga 25 vemos uma diversidade que não converge nos propósitos ou nas metodologias, mas que ainda assim se alinham numa mesma dinâmica de intervenção e numa vontade comum de ganhar uma voz que se faça ouvir no espaço comum.

Para lá da oferta de espetáculos e exposições que cativaram centenas de milhares de espetadores, a Braga 25 foi o espelho de uma cidade que se projeta para uma ambição de cosmopolitismo, sabendo que por detrás desse mesmo espelho vive uma outra cidade, uma cidade onde prepondera um certo conservadorismo provinciano que a marcou durante décadas. Estas duas faces, que ora se confrontam ora se entrelaçam, não vão desaparecer, importando encontrar a fórmula certa para fazer de Braga um exemplo de equilíbrio tenso, e por isso fecundo, entre identidade e disponibilidade para o que é novo e diferente. Esse é o caderno de encargos que a Braga 25 deixou e que se espera que quem governa o município ajude a concretizar.

                                                                                Luís Cunha

O futuro...

“Abre a tua Porta e deixa entrar”, que foi o lema da Braga 25, constituiu um convite à participação e celebração da cultura, na rua e de forma partilhada.

Espera-se, pois, que esta Capital Portuguesa da Cultura tenha criado vínculos culturais capazes de cumprir a Estratégia Cultural de Braga 2020-2030, conhecida por Braga Cultura 2030, lançada como pilar do desenvolvimento sustentável, que teve em vista “democratizar o acesso à cultura, valorizar o património local e integrar a criação contemporânea”. Espera-se que, até 2030, se concretize, finalmente, a “revitalização de espaços culturais, a democratização do acesso à cultura e um investimento sustentado”, preparando um futuro em que a cultura tenha, realmente, impacto no quotidiano das crianças, jovens e adultos. Onde o património seja, finalmente, valorizado, respeitando a sua identidade e originalidade, transformando-o em equipamento capaz de receber atividades culturais de relevo, nomeadamente o Cinema S. Geraldo, a Ínsula das Carvalheiras, o Teatro Romano, o Estádio 1º de Maio, o Complexo das Sete Fontes e o prometido espaço museológico da Fábrica Confiança. Esperamos que seja, finalmente, protegido e salvaguardado o valioso património arquitetónico do séc. XVIII, XIX e XX, tanto as fachadas como o interior dos edifícios: caixa de escadas; lanternins e claraboias; estuques decorativos, frescos ou outras pinturas, elementos decorativos ou ornamentais em granito, pavimentos, escadarias e outros; murais; madeiramentos ornamentais de caixilharias; painéis de azulejos, etc.