INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

A ASPA criou este blogue em 2012, quando comemorou 35 anos de intervenção cívica.
Em janeiro de 2025 comemorou 48 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"50 ANOS DA CODEP". No âmbito do Ciclo Braga Memória (Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva)


A sessão deste mês de fevereiro (11 de fevereiro), do 
Ciclo Braga Memória, promovido pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, foi uma homenagem aos 50 ANOS da CODEP - Comissão de Defesa e Estudo do Património. Teve como intervenientes dois dos fundadores deste movimento de cidadãos criado em Braga, a 3 de fevereiro de 1976, com o objetivo de lutar pelo salvamento das ruínas de Bracara Augusta: Henrique Barreto Nunes e Eduardo Pires de Oliveira

Eduardo Pires de Oliveira fez uma breve referência a momentos da História de Braga em que os achados arqueológicos tiveram especial importância, a começar por D. Diogo de Sousa no séc. XVI, recordando o papel de Albano Belino e J. Leite de Vasconcelos c. de 1900, finalizando nos anos 60/70, quando, para além da descoberta pelo Cónego Luciano A. dos Santos de um tanque romano com mosaicos no seminário de S. Tiago  o padre Arlindo R. Cunha, bem como J. J. Rigaud de Sousa, apoiados pelo vereador Egídio Guimarães, mobilizaram um grupo de jovens para escavações na Falperra e em Braga, de que resultaram achados importantes, nomeadamente uma necrópole na Av. Da Liberdade e a chamada Casa do Poço, em Maximinos, lamentavelmente destruídas.

Henrique Barreto Nunes centrou-se num curto período de tempo, entre 1975 e 1977, quando um grupo de cidadãos observou máquinas de grande porte no Alto da Cividade/Colina de Maximinos, no âmbito de operações de urbanização que movimentavam terra, demoliam e arrastavam blocos de granito de muros antes intactos de Bracara Augusta, onde era possível observar, também, artefactos romanos. Apresentou e localizou no tempo documentos variados – telegrama dirigido a Junta Nacional de Educação (13 jan1976), ata de constituição da CODEP, recortes de imprensa, fotografias de achados e intervenientes, etc. Lembrou memórias e vivências dessa época, nomeadamente as escavações organizadas pela CODEP e dirigidas pelo Doutor Jorge de Alarcão em Abril 1976, nas proximidades do local onde um ano mais tarde iriam ser localizadas as termas e posteriormente o teatro romano, intervenção que incentivou uma participação entusiástica do público que, apesar da chuva intensa, marcou presença no auditório da BLCS.    

A quantidade e qualidade dos recortes de imprensa (local e nacional) apresentados, sobre os achados arqueológicos e sobre a ação da CODEP em 1976, bem como a reportagem da RTP (com entrevistas aos cidadãos envolvidos) sobre o risco a que estava sujeita a cidade romana, permitiram perceber a importância política atribuída ao património que Braga corria o risco de perder.

Manuel Sarmento, presidente da ASPA, associação que nasceu, a 30 de março de 1977, na sequência da CODEP, referiu que há um antes e um depois da intervenção do CODEP no que respeita à defesa de Bracara Augusta, à arqueologia em Braga e à preservação da memória identitária da cidade. Lembrando as misérias do resgate dos vestígios do passado, que levaram inclusive à entrega à Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, dos achados de Albano Belino, no início do século passado, motivo de chacota de Camilo Castelo Branco e Francisco Martins Sarmento, considerou que o CODEP só foi possível constituir-se, no dealbar do Portugal democrático, pela ação associativa e cidadã de estudantes e investigadores, promovendo a defesa dos bens públicos contra a ação predadora dos interesses privados, nomeadamente por uma intensa ação junto da comunicação social e de "advocacy" junto dos poderes públicos, e contribuindo para a consolidação de uma visão da defesa do património cultural como uma dimensão essencial à democracia cultural. A ASPA continua o legado do CODEP, tendo na sua história de quase 50 anos assinalado vitórias como a recuperação do Mosteiro de Tibães, a criação, em curso, do Parque Ecomonumental de Sete Fontes, para a par com alguns desaires que tornam a ação associativa de defesa do património cultural e natural cada vez mais atual. 

Foi com satisfação que constatamos a presença de responsáveis e/ou profissionais de instituições locais que intervêm em Património, nomeadamente do Museu D. Diogo de Sousa, Câmara Municipal de Braga e Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, bem como a presença de jovens arqueólogos, que, no geral, contribuíram para o enriquecimento do debate que se seguiu à apresentação.

A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, a quem agradecemos o empenhamento e interesse postos nesta iniciativa, teve o cuidado de divulgar, em direto, a gravação desta sessão, que disponibilizou ao público no Facebook, de modo a que possa ser consultada pelos interessados.

Importa ainda referir que, no âmbito desta sessão, está patente uma pequena mostra documental sobre a génese da CODEP, que contou com a colaboração da ASPA - Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural, reunindo registos e documentos históricos que ajudam a preservar e valorizar a memória da sua fundação, elementos importantes para compreender a Braga atual.

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