INTERVENÇÃO CÍVICA EM DEFESA DO PATRIMÓNIO

Em 2012 a ASPA comemorou 35 anos de intervenção em Braga. Criou, nessa data, este blogue.
Em 2017 comemora 40 anos de intervenção.
Numa cidade em que as intervenções livres dos cidadãos foram, durante anos, ignoradas, hostilizadas ou mesmo reprimidas, a ASPA, contra ventos e marés, sempre demonstrou, no terreno, que é verdadeiramente uma instituição de utilidade pública.
Numa época em que poucos perseguem utopias, não queremos descrer da presente e desistir do futuro, porque acreditamos que a cidade ideal, "sem muros nem ameias", ainda é possível.
DEZEMBRO DE 2013
O novo executivo municipal suspende o PDM na área da ZEP das Sete Fontes.
Foi dado o 1º passo e há, finalmente, a esperança para o Monumento Nacional.

JUNHO DE 2015
O PDM aprovado na Assembleia Municipal de Braga prevê área de construção em ZEP do Monumento Nacional.
Novamente um futuro incerto para o Complexo das Sete Fontes?!

MARÇO de 2016
Publicada a Declaração nº16/2016, de 3 de março, que revoga o despacho que aprovou a constituição de faixa de reserva "non aedificandi" para o lanço da EN 103-Variante de Gualtar, entre o Nó do Hospital e o Nó Norte (Nó do Fojo).
É o fim da variante que atravessaria o Complexo das Sete Fontes e tanto preocupava os defensores do Monumento Nacional.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ENTRE ASPAS - "A nossa forma de falar: Língua, património e identidade"

Temos ou não temos o direito de usar a nossa forma de falar, mesmo que ela transporte elementos regionais?
Diário do Minho - 26 dez 2016

Sabe o que é que é um cascavelho? Se tiver menos de 40 anos, provavelmente não.
É uma palavra regional (um regionalismo), do Minho e arredores. E até que ponto temos o direito de usar a forma de falar e as palavras que aprendemos na infância?
Esta segunda questão, assim colocada, parece só ter uma resposta: “sempre que quisermos”.
Mas então, por que é que acontecem casos como o seguinte, por mim presenciado: a mãe, com mais de setenta anos, numa conversa em família alargada (filhos, genros, noras, netos), utiliza uma expressão (“botar fora”) que a filha (professora do ensino básico) considera desadequada e publicamente lhe diz para não usar, mas usar outra que considera mais “correta” (“mãezinha, não diga ‘botar fora’, diga ‘deitar fora’”).
Quem for mais sensível a questões de uso da língua, com certeza que já assistiu a situações do género ou semelhantes. Aconselharem (às crianças na escola, por exemplo) a pôr de lado, e substituir por outras, as palavras aprendidas na infância, se consideradas como regionalismos. Conheço vários exemplos de casos do género: o professor mandar o alunos não usar palavras e construções como botar, cabaço, caldo, caruma, engaço, à beira de, e substituí-las por deitar, abóbora, sopa, agulhas, ancinho, ao pé de.
Mas, então, temos ou não temos o direito de usar a nossa forma de falar, mesmo que ela transporte elementos regionais?
A tentação de responder afirmativamente à questão deve ser moderada. Embora ninguém seja proibido por lei de usar os regionalismos que quiser, há uma noção de norma padrão, a noção de que há formas mais corretas de falar do que outras, que é um poderoso mecanismo de pressão social para preferir certas formas linguísticas em vez de outras. Será um pouco idealista pensar que posso sempre usar a minha forma materna-regionalista de falar em todos os contextos. A norma padrão impõe, muitas vezes, que eu evite a palavra ou expressão que aprendi em casa e use a que a escola me aconselha.
A questão está até onde é que deve ir esta imposição de abandono da nossa forma de falar e escolher “a forma de falar das pessoas cultas”, como por vezes aparece indicado. Este modo de ver as coisas parte do pressuposto que o “falar das pessoas cultas” não é um falar regional ou que teve origens regionais, no caso português na região de Lisboa, que funciona como região padrão para os usos do Português Europeu. A médio e longo prazo, este processo (substituir os termos da minha região pelos de outra) leva a que o vocabulário “regional” (de todo o país, exceto de Lisboa) acabe por passar para a zona proibida dos regionalismos a pôr de lado.
A pressão para a unificação linguística é enorme: com a televisão, a escola e os modernos métodos globais de comunicação, a tendência para todos falarmos das mesmas coisas e da mesma forma é avassaladora. E podem apontar-se-lhe vantagens (unificação e impedimento da fragmentação linguística: a língua fica com mais unidade). Mas serão só vantagens?
A primeira desvantagem de aceitarmos a substituição total das palavras da nossa região por outras equivalentes, provindas de uma outra, é a de reconhecer que a nossa região é perdedora. Há quem não se importe, mas também há quem não o queira. A maior parte dos falantes, no entanto, nem tem consciência disso. Basta ver a tendência de substituição dos termos da nossa região minhota/nortenha pelos do sul. Para além dos já atrás referidos, a palavra guarda-sol (anterior geração) já foi substituído por guarda-chuva e esta palavra já está a ser substituída por chapéu-de-chuva e por (simplesmente) chapéu (significando guarda-chuva). E muitos outros casos: sapatilhas são ténis, picheleiros são canalizadores, bolinhos de bacalhau são pastéis de bacalhau.
Mas nestes casos é “só” (e não é pouco) uma questão de preservação do termo formal, da forma da palavra, já que o conceito é idêntico entre o termo da nossa região e o que o vem substituir. Mas há casos em que não é apenas isto que acontece, em que abandonar a nossa palavra é esquecer toda uma dimensão cultural. E aproveito agora o caso de cascavelho referido no início deste texto. É um regionalismo, uma palavra que as novas gerações não conhecem, mas que ainda muita gente utiliza para se referir às castanhas que não chegam a crescer, ficando apenas como cascas raquíticas entaladas nos ouriços. O termo é testemunha de uma época em que as pessoas sabiam como era o processo de apanha das castanhas, onde tinham que distinguir o que era útil (castanhas) do inútil (cascavelho). Por isso, o termo era muitíssimo usado e também metaforicamente, aplicando-se a crianças ou pessoas frágeis, sem grande consistência. O termo testemunhava toda uma forma de vida rural e a importância da castanha nos hábitos vivenciais. Pois esta palavra não aparece registada em nenhum dicionário de língua portuguesa. Pelos dicionários, não ficará na história da língua. É como se nunca tivesse existido, ela e o seu uso, valor cultural e vivencial que teve em muitas e muitas gerações.
Perdermos as palavras que são nossas, da nossa região, é perder um pouco dos testemunhos da nossa forma de viver. As palavras não são só sons arbitrários ligados a significados. Elas representam conceitos, representam a forma como vivemos e como pensamos as nossas inter-relações com as coisas e com os outros. Por isso, é que se diz que a língua é património. E isso significa que se eu desprezar completamente a língua da minha região, desprezo completamente parte do património em que cresci e vivi.
A pressão para falarmos todos da mesma forma e substituirmos as palavras da nossa região por equivalentes de outra, considerada “das pessoas cultas”, é enorme, sobretudo num país supercentralizado como Portugal. No entanto, a consciência de que a minha forma de usar a língua, ainda que com caraterísticas regionais, também é meu património e que, dentro de certos limites, não tenho que ter receio de a usar, também é uma forma de ecologia linguística (e portanto de cidadania no sentido mais nobre do termo), porque permite contribuir para preservar numa língua as suas dimensões múltiplas e abrangentes.
José Teixeira
Professor de Ciências da Linguagem-Univ Minho
jsteixeira@ilch.uminho.pt
                                                                                                                                                                     
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